Entrevista
A
transformação cabe ao professor

O
professor Celso Vasconcellos, filósofo, mestre em História
e Filosofia da Educação pela PUCRS, escritor com
diversas obras publicadas sobre planejamento, políticas
pedagógicas, currículo, avaliação
e outros temas da Educação, fará a palestra
de abertura do 8° Cepep, com uma abordagem sobre profissionalismo
e empregabilidade no ensino privado. Em entrevista ao Extra Classe,
ele antecipa alguns temas debatidos com os participantes do Congresso. “A
motivação do professor está profundamente
vinculada ao sentido que ele atribui ao seu trabalho, à sua
profissão. Entendo que aquilo que nos coloca no centro
da crise é, contraditoriamente, o que pode nos tirar dela:
o sentido”, provoca o palestrante.
Por Gilson Camargo
EC – O senhor afirma que o sucesso ou fracasso de qualquer
política educativa depende do professor. Por quê?
Celso Vasconcellos – O concreto mais concreto da
educação
ocorre no processo de ensino-aprendizagem, na sala de aula, ou
nos espaços de estudo na escola. De pouco adianta alterarmos
os salários, a formação, as condições
de trabalho, se isso não se traduzir numa nova prática
em sala de aula, e não só em termos individuais,
mas coletivos, pois o que um professor faz num ano ou numa aula
o outro pode desfazer no ano seguinte ou na aula seguinte, não
por maldade, mas por simples falta de articulação.
Se trata sempre de um projeto coletivo. Quem está na escola
todo dia é o professor. Mudar é de seu interesse.
Acreditamos nele como sujeito de transformação. É claro
que pensar só no professor é absolutamente limitado
e incorreto. Todavia, será que teremos mudanças
em outros aspectos se o líder deste processo, o professor,
abdicou, desistiu? Neste sentido, a grande contribuição
dos professores para mudar a realidade da educação é dar
o melhor de si no trabalho com os alunos, ao mesmo tempo em que
se comprometem com as lutas mais gerais. Trata-se de uma combinação
e não de um antagonismo entre estas duas dimensões
do trabalho.
EC – No ensino privado, em que as relações
entre professor, aluno e instituições estão
sujeitas às questões de ordem econômica ou
pelo menos nem sempre de ordem pedagógica, o que está em
jogo no que se refere ao profissionalismo?
Celso Vasconcellos – Creio que a questão básica é disputar
a hegemonia do pedagógico, que é o específico
do nosso trabalho. Mas, não é óbvio que
o eixo articulador da escola é o pedagógico? Sabemos
que não necessariamente. Na consolidação
do pedagógico como o elemento fulcral da atividade escolar,
defendo dois aspectos fundamentais: o Projeto Político-Pedagógico
(PPP) e o espaço de trabalho coletivo constante (as reuniões
pedagógicas semanais). O Projeto é a “carteira
de identidade” da instituição, o que vai
dizer a que a escola veio, qual seu sentido, suas grandes opções.
Aqui, infelizmente, muitas vezes nós mesmos desertamos.
São relativamente comuns a não-participação
ou a presença formal do professor no momento da elaboração
e discussão do PPP, por achar que é uma formalidade,
um documento que “vai ficar na gaveta”. Depois, nos
momentos em que o econômico se sobrepõe, não
há ponto de apoio para um confronto no plano das idéias
e tudo fica como se fosse uma questão pessoal de um ou
outro professor com a direção. Numa época
de medo de perder o emprego, podemos imaginar as conseqüências:
a mantenedora passa como um trator por cima. Não vemos
o PPP como panacéia, mas como um instrumento de luta.
Uma prática importante é criar canais de participação,
de diálogo junto à mantenedora para discutir as
questões econômicas ao longo do processo e não
só em época de dissídios como, por exemplo,
eleger professores representantes com reuniões periódicas
com a direção. Muitas vezes, o professor não
tem idéia de como funciona uma escola do ponto de vista
administrativo – faz o famoso cálculo de número
de alunos multiplicado pelo valor da mensalidade e fica perplexo
em ver o seu salário. Por seu turno, pode faltar sensibilidade à direção
para as questões concretas dos professores.
EC – Quais são as diferenças entre "ser" e "estar" professor?
Conceitue, por favor, a questão "profissionalismo" na
Educação.
Celso Vasconcellos – No Brasil, nunca foi tão fácil
virar professor, seja pela tranqüilidade em passar nos vestibulares
pouco concorridos e em obter diplomas em cursos pouco exigentes,
seja pela facilidade em conseguir emprego depois de formado.
Com isto, temos muitos colegas que estão no magistério,
mas não são do magistério, pois fazem dele
um bico. Estão ali numa eterna situação
de transitoriedade. Só que muitos, lamentavelmente, acabam
se aposentando assim. Como podemos entender que uma criança
passa 800 dias, 3.200 horas com profissionais da educação
e, ao término da quarta série, não domina
competências básicas de leitura e escrita? Uma profissão é definida
por um campo específico de atividade, pela competência
exigida para exercer tal atividade (o que demanda formação
apropriada, em termos conceituais, procedimentais e atitudinais),
por uma remuneração relativa ao serviço
prestado, por uma ética ou estatuto profissional, e pela
responsabilidade por aquilo que se faz. Profissionalismo docente é assumir
o magistério como profissão. Implica querer fazer
aquilo, estar inteiro e fazer com competência. No caso
do magistério, é muito difícil separar o
pessoal do profissional, uma vez que a pessoa do professor entra
muito no trabalho que é de formação humana.
Como diz o professor Antonio Nóvoa, não podemos
esquecer que grande parte da pessoa é o professor e grande
parte do professor é a pessoa.
EC – A qualificação do professor nem sempre é reconhecida
pelas instituições de ensino e, muitas vezes, os
profissionais são confrontados com o dilema
de ou fazer concessões ou permanecer no emprego. O senhor
não acha que há disparidades entre concepções
de educação de parte a parte?
Celso Vasconcellos – Agora você tocou num ponto que
para mim é absolutamente decisivo, tanto para compreender
o que se passa com o professor quanto para superar este quadro
difícil. O que dizer de um profissional da educação
que sequer sabe como se dá o processo de conhecimento
(conforme pesquisa de Fernando Becker), não domina o próprio
sentido do que ensina? Em alguns casos mais extremos, sequer
domina o próprio conteúdo que ministra ou, em outros,
quando domina ensina baseado na mera transmissão. Admitir
isto é dolorido. Sabemos, todavia, que não será escondendo
nossas deficiências que iremos resolver os problemas. Não
se trata de um julgamento moral, como se o professor fizesse
isto porque quer, porque escolheu conscientemente ser um profissional
sem qualificação adequada. Ele também sofre
os reflexos do desmonte social, de uma lógica desumana
e excludente. Mesmo quem saiu dos melhores centros de formação
sabe que tem uma séria defasagem na sua capacitação,
porque a educação escolar é uma atividade
extremamente complexa. Esta formação precária
seria fruto de um “esquecimento” ou de uma estratégia
para que de fato a escola não ensine? E não nos
iludamos: sabemos que os resultados das escolas privadas, de
um modo geral, também são muito fracos. Um bom
demonstrativo disto é o Pisa, exame internacional de avaliação
de jovens de 15 anos: nele, ficamos em último ou penúltimo
tanto na classificação por escola pública,
quanto na classificação por escola particular.
A quem de fato interessa que a escola tenha um ensino de
boa qualidade?
Algumas questões para refletir: a atividade docente é da
ordem do simples ou do complexo? Se for do simples, por que há tanto
fracasso no sistema de ensino? Se for do complexo, como entendo
que de fato é, por que não se cuidou da formação
adequada do professor? Por que tanto esmero para se formar um
engenheiro ou médico, por exemplo, e tanto descuido para
formar o professor? Por que a sociedade autoriza a formação
tão frágil do professor (exemplo: habilitação
em nível médio, formação superior
em três anos, à noite)? Por que se facilita tanto
a entrada no magistério de profissionais de outras áreas?
Ou então, por que permite seu exercício por aqueles
que não se graduaram ainda (estudantes, às vezes,
de segundo ou primeiro ano)? Acaso isto ocorre em outras profissões?
EC – Por que os professores têm dificuldade em trabalhar
questões relacionadas à colocação
de limites aos alunos? Como o senhor avalia essa questão,
uma vez que, na escola privada, isso pode significar um enfrentamento
com os alunos que não convém às direções?
Celso Vasconcellos – Do ponto de vista mais geral,
a crise dos limites comportamentais está ligada à crise
de objetivos (de vida e da escola) e ao consumismo. A ausência
de projeto provoca um grande estrago na sala de aula: “Afinal,
para quê me comportar se não vejo sentido naquilo
que estou fazendo?”. Porém, a este fator vêm
se acrescentar outros dois: um de ordem circunstancial e outro
estrutural. Em função do modelo econômico
baseado na produção de bens que não são
de primeira necessidade, passa a ser fundamental quebrar os limites
das pessoas a fim de liberar para o consumismo; sem limites bem
definidos, as pessoas agem sob o impulso. Com a crise dos paradigmas,
dos grandes referenciais, das metas narrativas, os adultos, inclusive
os professores, também perderam os mapas e não
sabem muito bem o que dizer e exigir dos alunos. Para enfrentar
esta situação, é fundamental a definição
de regras claras pela instituição, o contrato didático
de trabalho em sala de aula (registrado na agenda dos alunos,
apresentado nas reuniões de pais), tendo o Projeto Político-Pedagógico
e o Regimento Escolar para respaldar. Sabemos que, quando a direção
fica refém dos pais e alunos, eles avançam,
dominam cada vez mais. Com isto, a escola acaba perdendo
sua identidade
e, com o tempo, alunos.
EC – Na sua opinião, como os professores estão
lidando com violência em sala de aula?
Celso Vasconcellos – A questão da violência é hipercomplexa.
Evidentemente, não podemos falar da violência na
escola sem falar na sociedade: o mercado, grande deus cultuado,
não é capaz de incluir a todos, sendo possível
identificar no avanço exponencial da pressão por
consumo uma das fortes raízes da violência atual,
já que paulatinamente desenvolve-se nas pessoas a percepção
de que não há condições, recursos,
lugar para todos. A meu ver, uma das maiores violências
que pode existir para o ser humano é a falta de perspectiva,
de horizonte, de sonho.
EC – Diante disso, qual o papel
do professor?
Celso Vasconcellos – Dentro de nossa especificidade,
o grande papel do professor, a partir de um posicionamento crítico
e fundamentado no melhor da ciência, da tecnologia, da
filosofia, da arte, é ajudar o aluno a perceber que um
outro mundo é possível! Isto, naturalmente, não
através de discursos genéricos, mas da prática
concreta em sala de aula que passa, antes de tudo, pela criação
de vínculos com os alunos. O distanciamento provoca o
medo, que leva a mais distanciamento e daí ao preconceito,
portanto, à violência simbólica, que acaba,
muitas vezes, sendo revidada com mais violência, simbólica
ou física.
Quanto à Ingerência da escola no trabalho pedagógico,
uma das melhores estratégias, a meu ver, para superar
as ingerências no trabalho pedagógico é desenvolver
na instituição de ensino a prática do trabalho
coletivo constante, as reuniões pedagógicas semanais,
de duas horas de duração, por exemplo. Dela participam
os professores do período ou do nível, a supervisão
(que tem a tarefa de coordenar este espaço), a orientação
educacional e a direção. Aqui as coisas podem ser
discutidas abertamente, e não na base da intimidação
dos gabinetes ou das abordagens apressadas e descontextualizadas
na sala dos professores. São momentos de estudo, partilha,
resolução coletiva de problemas, sistematização
da prática, planejamento, avaliação e celebração. É preciso
articular competência e unidade do grupo para enfrentar
as eventuais pressões equivocadas, seja da comunidade,
dos alunos, da direção, da coordenação
e até dos próprios colegas.
Há uma lenda em torno de Spartacus segundo a qual, quando
seu exército de escravos é dominado, o general
romano dirige-se a todos e indaga: Quem é Spartacus? Spartacus
dá um passo à frente; mas imediatamente outro escravo
dá também um passo à frente, e outro, e
mais um, e assim sucessivamente, de tal forma que não
há como saber quem de fato era Spartacus. Conta-se que,
numa escola, num longínquo país, os professores
resolveram falar com a direção sobre algo que não
ia bem na relação entre eles; como ficaria difícil
falarem todos ao mesmo tempo, escolhem um colega para ser o portador
da mensagem. Quando este começa a falar, todos os outros
dão um passo atrás, deixando-o sozinho... Será que
agindo assim conseguiremos alguma mudança?
EC – E quanto à omissão e a falta de encaminhamento
por parte das direções?
Celso Vasconcellos – A questão do encaminhamento
precisa ser analisada com cuidado. É comum ouvirmos dos
professores a queixa de que a atitude disciplinar por parte da
direção deveria ser mais rígida em relação
aos alunos encaminhados por problemas de comportamento. Este
fato pode revelar alguns equívocos como:
-
a transferência de responsabilidade (o professor não
sabe o que fazer em sala, encaminha o aluno esperando solução "mágica" do
outro).
- as diferentes visões entre os próprios educadores
(encaminha-se o aluno esperando-se uma coisa e acontece outra).
- os problemas de comunicação no interior da
escola.
Para não sucumbir a esta lógica, o professor precisa
ser fortalecido. Seria muito simples dizer “resolva tudo
em sala; não nos importune”, porém, não
dar condições para isso. Ajuda muito quando o professor
sente o apoio da instituição, tem garantido espaço
para atendimento ao aluno que está apresentando dificuldade,
tem clareza das regras da instituição para não
ser “enrolado” nos conflitos com os alunos, tem espaço
de reflexão coletiva para que possa trabalhar também
suas dificuldades; diante de eventuais conflitos com alunos
ou pais sente o respaldo da equipe diretiva.
EC – Assim como essas questões, os professores
apontam como uma das razões da sua frustração
o trabalho sem remuneração, como mostra pesquisa
do Sinpro/RS (http://www.sinprors.org.br/perfil/violencia.asp)
...
Celso Vasconcellos – Na discussão sobre salários,
aparece muitas vezes uma certa queixa dos mantenedores, no sentido
de que os professores estão muito materialistas, que agora
tudo que fazem precisa ser remunerado, que perderam a gratuidade,
que deveriam se preocupar mais com o ser do que com o ter. Tudo
bem, podemos até admitir que haja exageros aqui ou acolá,
mas o que está em questão é algo muito mais
profundo: com a remuneração dada hoje aos professores
está se colocando em risco o próprio futuro da
profissão, uma vez que os jovens mais talentosos, como
apontamos, mesmo que tenham uma inclinação para
o magistério, sentem-se totalmente desmotivados ao constatar
a situação dos professores. E para isso não
precisam ir muito longe: basta ver seus próprios mestres...
Em relação à questão do ter versus
ser, o que muitas vezes se esquece é que para ser, é preciso
um mínimo ter!
EC – Isso também explica a perda da autoridade
e a desmotivação?
Celso Vasconcellos – A perda da autoridade do
professor em sala de aula está ligada a todo este contexto de mudança
e incertezas, a começar pelo próprio questionamento
sobre a pertinência da autoridade. Entendo que os sujeitos
em formação precisam da autoridade, seja para se
orientar, seja para se opor, no processo de constituição
de sua personalidade. A identidade – uma das grandes tarefas
da escola é ajudar o aluno a construir a sua - se constitui
na alteridade e não na confusão; um adulto confuso,
que não se posiciona claramente, não ajuda a construir
uma personalidade mais livre ou democrática, ao contrário.
O adulto, e em particular o professor, não pode ter medo
de ser um modelo, uma referência. Isto não significa
ser autoritário; significa tomar uma posição
e assim ajudar o outro também a tomar a sua.
Não existe autoridade “em si”: a autoridade
se define sempre em contextos históricos concretos. Um
primeiro grande desafio para a constituição da
autoridade do professor é a necessidade de re-significar
o espaço escolar, ganhar clareza sobre qual é de
fato o papel da escola hoje, porque será justamente neste
espaço social que o professor exercerá sua autoridade,
que obviamente carecerá de sentido se a própria
instituição não conseguir justificar sua
existência. Um segundo desafio é o professor se
refazer, se reconstruir depois deste turbilhão todo a
que foi – e ainda está - submetido. A motivação
do professor está profundamente vinculada ao sentido que
ele atribui ao seu trabalho, à sua profissão. Entendo
que aquilo que nos coloca no centro da crise é, contraditoriamente,
o que pode nos tirar dela: o sentido. Se o professor é aquele
que trabalha com a produção de sentido (através
do ensino, qual seja, da apropriação crítica,
criativa, significativa e duradoura dos elementos fundamentais
da cultura), se há uma profunda crise de sentido, nunca
como hoje foi o tempo do professor, na sua compreensão
radical e não de mero piloto de livro didático
ou de apostila.