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Intercâmbio
político
Durante
décadas o estado recebeu exilados e fugitivos dos regimes
militares do Cone Sul
Da redação
Até meados
dos anos 80, a América Latina permaneceu assolada por ditaduras
militares e por um clima de perseguições políticas, exílios forçados
e auto-exílios. Nessa atmosfera, muitos hermanos vieram parar
no Brasil porque consideravam o país menos repressor que nas ditaduras
de origem. Hoje, cerca de 100 mil argentinos, uruguaios e chilenos
vivem no país, dos quais 24.362 no estado. Eles, de certa forma,
ajudaram a construir uma consciência política no Rio Grande do
Sul.
No
Brasil, o pior já havia passado no final dos anos 60 e durante
o período Médici, no início dos 70. Foi esta a justificativa
que trouxe para o estado, em 1977 o jovem argentino Miguel Angel
Gómez, recém-formado na Universidade de La Plata (Argentina),
em cinema. "Havia a impossibilidade de exercer a minha a profissão
no meu país. A repressão estava muito grande. Para se ter uma
idéia, até hoje é difícil encontrar uma família argentina que
não tenha um parente ou vizinho envolvido com problemas durante
o regime militar", conta Miguel. Ele não foi exatamente um exilado.
Saiu do seu país devido à situação de medo permanente, que para
ele se tornou insuportável.
"Se vivia
uma situação de terrorismo de estado escancarada. Era uma situação
de medo permanente, com as forças da repressão caçando as pessoas
nas ruas e nas casas. Uma coisa horrível. Não havia dia em que
não tivéssemos notícia de um amigo ou conhecido que não houvesse
sido seqüestrado, desaparecido, baleado ou morto", conta. Na época
o Brasil já vivia o chamado processo de abertura "lenta e gradual".
Uma vez aqui, Gómes trabalhou como cinegrafista em documentários
e emissoras de TV. Miguel, hoje com 47 anos, é proprietário de
uma livraria especializada em língua espanhola. "é a minha forma
de manter contato com a cultura de meu país e me relacionar com
outras pessoas que vieram para cá em circunstâncias semelhantes
às minhas", diz o argentino.
Mais dramática
foi a trajetória do chileno Pedro Constantino Sierra Cornejo,
que era militante do grupo de luta armada MIR (Movimento de Esquerda
Revolucionária) no Chile. Este grupo foi responsável pelo justiçamento
do general do exército chileno Karol Urzua em setembro de 1983.
A conseqüência do ato foi a caçada implacável feita pelo exército
de Pinochet aos integrantes do MIR. "Com a reação dos militares,
toda a nossa direção nacional foi presa ou executada. Três companheiros
que tiveram participação direta no episódio foram capturados.
Com isso, a situação ficou insustentável, pois não existia mais
comunicação entre as células do movimento que estavam espalhadas
pelo país. Depois de alguns dias de tortura, os presos acabariam
entregando os restantes. A única saída era fugir", relata o ex-militante,
hoje com 42 anos. De acordo com ele, o MIR era a principal forma
de resistência armada ao regime e, por isso, tornou-se o alvo
principal da polícia do governo. "Muitos de nós morreram e acabamos
decidindo sair do país por nossa própria conta, já que o partido
já não tinha estrutura para organizar as fugas", recorda Sierra.
Chegando no Brasil em 1983, ele entrou em contato o Movimento
pelos Direitos Humanos e tornou-se asilado pela ONU (Organização
das nações Unidas) em 1984. Continuou militando à distância na
busca de assinaturas para evitar que os colegas presos fossem
executados pelos seguidores de Pinochet. Na época o governo chileno
conseguiu fazer passar no congresso uma lei que previa a pena
de morte, na qual os executores do general foram enquadrados.
"No final a comunidade internacional interveio e eles não foram
mortos, mas acabaram banidos do país no início dos anos 90", explica
o chileno.
Trajetória
semelhante teve Eduardo Pereira, que trabalhava como funcionário
da cinemateca Nacional, em Montevidéu. Também veio para o Brasil
em 1983, quase no final da ditadura uruguaia que havia se iniciado
em 1973. "Eu fazia parte de um dos vários grupos de militância
política que desenvolviam atividades de resistência ao regime",
situa Eduardo. Também teve de sair às pressas, quando seus companheiros
começaram a ser presos. "Pelo menos 15 amigos meus foram capturados",
diz. Do grupo, apenas cinco escaparam. A opção de continuar vivendo
no Brasil, mesmo depois de ter conquistado o direito de retornar,
é idêntica à dos demais relatos. "Fiquei tanto tempo aqui que
acabei estabelecendo laços afetivos e profissionais. Ficou difícil
voltar. A minha esperança é que esses tempos não retornem. A violência
foi extrema e a quantidade de mortos e desaparecidos é muito grande.
Embora já passados quase 20 anos, esses fatos marcaram a cultura
não só do Uruguai como dos outros países. Espero que não aconteça
mais", desabafa o ex-militante, que atualmente tem uma vida normal
como representante de vendas em Porto Alegre.
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