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Matrículas sobem mais que salários

Diploma não garante emprego

MEC rejeita 90% dos pedidos para novos cursos superiores

Uma história de mil anos

Universidades que não param de crescer

Gilson Camargo

Fachada de vidros fumê, elevador panorâmico, a reitoria da Universidade Regional Integrada (URI) em Erechim, município com 100 mil habitantes ao norte de Porto Alegre, está passando por uma reforma. As adaptações que estão sendo feitas no prédio são a menor obra patrocinada pela instituição, que pode ser identificada à distância pela imensa caravela construída na entrada do campus para assinalar as comemorações em torno dos 500 anos do Brasil. No ano passado, a instituição investiu mais de R$ 5 milhões em obras físicas para se adaptar a um crescimento contínuo desde o início da década, e que culminou com a implantação de núcleos em Cerro Largo, FredericoWestphalen, Santo ângelo, Santiago e São Luiz Gonzaga. No início dos anos 90, a universidade contava com 3.345 alunos e uma área física construída de 30,2 mil metros quadrados. Atualmente, as instalações da URI em Erechim totalizam 76,3 mil metros quadrados. O número de matrículas praticamente triplicou nesse período, somando 9.720 alunos no ano passado. "Em quatro anos a URI será um centro de referência no ensino superior", projeta o reitor Cleo Joaquim Ortigara, ao revelar que a instituição arrecadou nada menos que R$ 39,5 milhões no ano passado.

Exemplar, o êxito da URI não é um caso isolado. Nos últimos oito anos, o número de matrículas nas 44 instituições privadas de terceiro grau do estado cresceu a um ritmo médio de 10% ao ano, saltando de 104.955 em 1991 para 154.981 em 1998, de acordo com dados do MEC (Ministério da Educação). Para atender a essa demanda crescente de alunos, as universidades estão priorizando os investimentos na ex-pansão das suas áreas físicas e na implantação de novos campus e núcleos em localidades nem sempre próximas de suas sedes.

"Vivemos o período de maior valorização da educação no país. A conjugação de fatores como a crise econômica e a redefinição do sistema produtivo cria na sociedade o consenso de que a educação seria a solução para todos os problemas, somando-se a isso o fato de que o ensino público sempre deixou a desejar. A educação está na ordem do dia, mesmo que não para o poder público, e muito particularmente no que se refere ao educação superior. é o que todo mundo está buscando", analisa Marcos Fuhr, diretor da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino Particular (Contee) e do Sinpro/RS.

No maior campus da Universidade Luterana do Brasil (Ul-bra), em Canoas, o número de matrículas no educação superior cresceu 154,22% em dez anos - de 7.543 no início da década para 19.176 alunos em 99. Nos seus 46 cursos de graduação, a Ulbra contabiliza 20,9 mil estudantes e mais 1.200 em 78 cursos de especialização e seis programas de mestrado e doutorado. Em decorrência desse crescimento, que abarrotou a universidade com um total de 35,92 mil alunos, as obras no campus estão ainda mais aceleradas que na URI. São 272,3 mil metros quadrados de área construída e outros 40 mil metros quadrados em construção.

O Hospital Universitário si-tuado no campus de Canoas, por exemplo, está em fase de acabamento. O prédio de 11 an-dares e 34 mil metros quadrados terá 557 leitos e 200 consultórios. Foram também construídos um prédio de 9.300 metros quadrados onde a universidade vai instalar o Museu do Automóvel e Ciências Naturais e ainda um chafariz com mastro de 42 metros - equivalente a um prédio de 16 andares e uma capela com projeto arquitetônico arrojado que está provocando polêmica no campus: "é ali que vamos rezar para conseguir pagar as mensalidades", provoca um estudante de Engenharia.

A Ulbra possui campus em Cachoeira do Sul, Gravataí, Guaíba, São Jerônimo e Torres, que totaliza 8.529 alunos. A próxima investida da instituição no interior do estado já está definida: o campus no quilômetro 335 da RS 285, no município de Carazinho. A poucos quilômetros da Universidade de Passo Fundo (UPF) e em meio às lavouras de soja, a Ulbra está finalizando os dois primeiros prédios do campus de 200 mil metros quadrados. A instituição ostenta a maior média de créditos por aluno entre as universidades gaú-chas: 18,23 - percentual que corresponde a mais de quatro disciplinas por estudante. "é uma média muito boa. Demonstra que os alunos vêm para a Ulbra para concluir rapidamente seus cursos, de forma a chegarem logo ao mercado de trabalho", comemora o pró-reitor acadêmico adjunto da instituição, Osmar Rufatto.

"A universidade cresceu rápido demais. Para se adequar a esse crescimento, está enxugando na base, o que inclui cortes de disciplinas, de pessoal e restrição à pesquisa. Os investimentos priorizam os setores de pesquisa com interesse imediato para os projetos da própria universidade, como a Medicina e a Genética", contrapõe um professor que acompanha a evolução da Ulbra desde a sua inauguração, em 1989. Para Rufatto, no entanto, as mudanças curriculares têm uma explicação: "Buscamos incessantemente o novo, temos sempre por foco as perspectivas do mercado no futuro e estamos inteiramente voltados para a realidade e para as profissões dos próximos anos. Não temos medo de mudar porque queremos que, ao sair da universidade, o aluno saia atualizado para o mercado de trabalho, tornando- se um vencedor". A instituição nega-se a divulgar números ou comentar os problemas apontados por alunos e professores, dando margem a uma série de interpretações sobre sua política de cortes, caracterizada por um funcionário como "draconiana" e que estaria comprometendo a formação dos alunos.

O pesquisador Heinrich Krause, da Unisinos, desconfia dessa enxurrada de alunos em algumas universidades. Para ele, nem sempre os estudantes se pautam pela qualidade do ensino na hora da matrícula. "Há uma série de fatores práticos que influenciam essa decisão, como custo, proximidade do campus e especialmente a facilidade de aprovação, já que uma grande parcela de alunos está mais interessada em obter o diploma da forma mais rápida possível, com a falsa expectativa de ingressar logo no mercado de trabalho", diz. Segundo ele, as universidades também têm responsabilidade porque criam expectativas em relação a profissões saturadas no mercado. "Outras mantêm cursos que se tornam rapidamente obsoletos", critica.

Mesmo as instituições de menor porte mostram apetite para abocanhar fatias cada vez maiores de um público ávido pelo acesso ao educação superior, seja nos grandes centros como Santa Maria e Caxias do Sul, ou em locais menos desenvolvidos economicamente.

Vista aérea do campus da Universidade Regional Integrada (URI), em Erechim: investimentos de R$ 5 milhões em obras de engenharia para se adaptar a um fluxo de alunos que triplicou desde o início dos anos 90. A arrecadação com as mensalidades dos mais de 9 mil estudantes passou de R$ 39,5 milhões no ano passado

 

Continua

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