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Rita
Lee
Meu nome
é Ritéias
Irônica,
ferina, implacável.Esses
três adjetivos poderiam muito bem caracterizar Rita Lee, mas as
expressões sensível, solidária e engraçada também cairiam como
uma luva nesta paulistana de 52 anos, cantora, compositora, artista.
E mulher. Rita não esconde sua vocação femealista (expressão dela),
a ponto de explorar abertamente em suas letras a condição nem
sempre nobre da feminilidade. Igualmente esposa, mãe, eventual
atriz, autora de quatro livros infantis e 26 discos (incluindo
a fase com Os Mutantes), ganhadora dos maiores prêmios da música
brasileira, nesta entrevista, Rita dá uma bronca na indústria
cultural ("os jabás favorecem a impressão de bocejo musical"),
fala de seu amor pelos bichos ("uma corja milionária sobrevive
à custa do sofrimento dos animais") e, de quebra, sobre casamento
("para o amor, só o best of"). Em plena gravação de seu 27o disco,
Rita conversou com o Extra Classe por e-mail em duas seções. Avessa
a telefones e às ruas, a musa do rock nacional descansa do trabalho
passando horas em frente ao computador. A seguir, os principais
trechos da entrevista.
César
Fraga
Extra
Classe
- Você disse, em uma de suas canções, que
pertence ao sexo frágil, mas logo fazendo a observação
de que não foge à luta. Ficou claro que o exercício
da feminilidade não implica em covardia. Mas agora o contexto
é outro. Quais as lutas em que você pensa quando
canta essa frase hoje: lutas da mulher, dos terráqueos,
dos brasileiros?
Rita Lee
- Quem estipulou que nosso sexo era o frágil não fui eu, desconfio
que tenha sido um machinho das antigas quando se deparou com alguma
sangria menstrual feminina, que aliás é um pé, não no saco porque
não o temos, é um pé no útero tão chato é o chico! Das três opções
de luta por você sugeridas, além de fazer parte do front na defesa
dos animais, escolho a dos terráqueos.
EC
- Existe um discurso forte propagado pela indústria cultural,
das ideologias, que levam a um individualismo cada vez maior.
Já não interessa ao sistema estabelecido e aos novos padrões de
produção pós-industrial certos laços afetivos (casamento, família).
Cada vez menos as pessoas conseguem se relacionar de forma duradoura
e ficamos cada vez mais competitivos. Como a Rita faz para resistir
aos apelos cotidianos a que a maioria de nós sucumbe? Rebeldia
hoje é conseguir ficar junto, estabelecer comunicação com o outro?
RL
- Sou casada com Roberto (de Carvalho, parceiro de Rita) há 23
anos e, cá pra nós, nesse meu meio artístico isso chega a ser
um escândalo de tanto que está durando... O segredo do casamento
duradouro para nós é morar em lugares separados. Nada menos romântico
do que dividir a mesma toalete com quem se ama. Separe, pois,
os trapinhos, meu filho. Para o nosso amor apenas o best of!
EC
- Em uma declaração à Folha de S. Paulo você
disse que o disco novo é basicamente rock-'n roll, como
sempre fez. Ao mesmo tempo, os anteriores estiveram sempre intrinsecamente
ligados a um senso raro de brasilidade, às vezes mais aguçado
do que os mais puristas da chamada MPB. Se a canção
Arrombou a Festa fosse escrita em 2000, quem seriam os alvos da
sua ironia?
RL
- Digamos que, como filha do tropicalismo, nunca tive qualquer
pudor em desfilar meu roquenrou por avenidas brasileiras, quer
fazendo boleros, bossas ou pauleiras. Meus pais eram imigrantes,
meu deslumbre é com o Brasil mesmo. Nunca quis fazer carreira
no exterior porque seria voltar de onde meus velhos fugiram. Sou
fã da muamba brasileira. Agora, em matéria de cast para um Arrombou
a Festa 2000, os nossos brasis são um celeiro de inspiração!
EC
- MPB existe? O que ela é? E o rock, morreu ou não?
RL
- Alô, alô, marciano querido! Desde os tempos de Elvis a tia aqui
ouve dizer que o roquen-rou está na UTI. Volta e meia recomeçam
a desencavar esqueletos por aí que é uma beleza. Eu mesma já devo
ter sido sepultada umas 30 vezes durante esses meus 33 anos de
estrada. No tempo dos Mutantes existia a MPB versus Jovem Guarda
e ponto final. Com o tropicalismo a coisa abriu bem mais. Hoje
temos uma salada mista completa de rótulos. Rapreggaetechnoaxétanejomang
u e d i s c o g ó d e p o p g o s p e l #&^%#$@^#*&$**&$_+É
EC
- Como vai a música brasileira hoje? O que interessa ouvir com
mais atenção?
RL
- Até pode parecer que está acontecendo um grande bocejo criativo
nas bandas e bundas da MPB, mas isto é culpa das gravadoras e
produtores que, confortavelmente, só investem nos clonados, nos
xeroxes do que "dá certo". Há alternativos fantásticos que não
estão tendo chance de botarem suas asinhas de fora, ou porque
não são sertanejos ou não têm uma gostosinha rebolando, ou porque
têm personalidade própria e sabem o que querem. A mesmice das
paradas (ou melhor, estacionadas) de sucesso nos meios de divulgação
e seus jabás poderosos também favorecem a impressão do bocejo
musical. Ligamos o rádio e a TV e lá estão os clonados de sempre.
Garanto, marciano querido, que o Brasil continua sendo um tesouro
de talentos. Quem sabe este mileniozinho que ainda nem começou
vai nos trazer umas boas surpresas...
EC-
Este esquema viciado das gravadoras, o jabá, compra de espaço
na mídia, procedimentos não muito éticos, como você faz para lidar
com isso aí de dentro, para se manter íntegra como artista e ser
humano?
RL
- Já estava até respondendo acima sem ter visto esta pergunta.
Eu? Bem, em primeiro lugar, gostaria de ser o Antonio Ermírio
de Moraes (maior empresário do país) para poder bancar uma musiquinha
nas paradinhas. Hay que tener grana, meu filho. No meu tempo você
ia visitar as rádios, conhecia os programadores, trocava umas
idéias, tomava um cafezinho e deixava o disco na mão do cara para
que ele escolhesse uma música a ser executada. Hoje, se você não
tiver uma bela grana na mão, você também é executado, só que executado
no sentido de cadeira elétrica.
EC-
às vezes parece que a vida real está repleta de caras e bundas.
Como a Rita Lee vê a ce-na artística vendida pela grande mídia
à população?
RL
- Vejo com cara de bunda!
EC
- Quem ou o que você elegeria para ser a miss Brasil 2000? Ou
você acha que todo este papo de miss é uma bobagem e dá graças
a Deus por ela ter deixado de ser uma tradição?
RL
- Você deve ser uma criança e nem pode se lembrar mesmo do que
era um concurso de Miss Brasil nos anos 50 e 60. Parecia Copa
do Mundo. Hoje, se Hilton Gomes (tradicional apresentador de concursos
de beleza) perguntasse para a Miss Brasil qual seria o sonho dela,
ao invés de responder "quero ser professora primária" (uma gracinha!),
diria: "Ah! sei lá, sair na capa de uma revista masculina, comprar
uma Ferrari, gravar um disco de pagode e casar com um jogador
de futebol bem rico e famoso. Ah, e passar a lua de mel na ilha
de Caras!"... Deus sabe o que faz.
EC
- Sei que você anda indignada com este papo de Mutantes para cá,
Mutantes para lá, devi-do ao fato de ter virado cult nos Estados
Unidos, assim como o tropicalismo. Parece que os ame-ricanos descobriram
a roda. O que você pensa disso? A música feita no Brasil precisa
do aval deles?
RL
- A mídia brasileira só dá valor ao que é nosso depois que os
gringos também lambem. Sempre foi assim. Pra mim, não faz a mínima
diferença.
Continua
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