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EC
- é sabida a sua militância contra os maus-tratos
aos animais. Cada vez mais se propaga a prática dos rodeios
em todo o país e até uma parte da classe artística
vive disso. Qual o seu posicionamento quanto à existência
de um e à conivência de outro?
RL
- Pois é, cara, a raça humana não se toca de que a própria evolução
depende do respeito por todas as formas de vida. Há anos coleciono
um farto material com vídeos, fotos e laudos veterinários comprovando
as barbaridades que acontecem nos rodeios, vaquejadas, farras
do boi e todo o tipo de abuso. Há anos mando esse material para
os "home" de Brasília, para aju-dar a tomarem alguma atitude,
pelo menos no cumprimento da Lei dos Crimes Ambientais.
EC
- E qual a reação do pessoal de Brasília aos seus apelos?
RL
- Rola a eterna grana que compra de tudo e todos no salão da malandragem.
O roliço, riso-nho e incompetente m(s)inistro do Desporto e Turismo,
Rafael Greca, deve ter comprado muita maquilagem com o que faturou
para elevar o rodeio à categoria de esporte. O que faremos com
Pelés, Sennas, Ronaldinhos, Gugas e tantos outros atletas que
elevam o nome do Brasil de uma maneira nobre? Peão de boiadeiro
no meu tempo era um rapaz que trabalhava
honestamente domando cavalos e bois com dedicação e carinho. Hoje,
este "atleta" é um torturador de animais, Jeca Tatu se chama John
Wayne, rodeios no Brasil são pré-históricos; os Estados Unidos,
diante das pressões de entidades de proteção mundiais, estão hoje
investindo em bois e cavalos mecânicos, com "n" níveis de dificuldade,
apresentando ao público um espetáculo muito mais emocionante da
destreza dos cowboys. Alternativas existem, o que falta é vergonha
na cara de cumprir uma lei que já existe.
EC
- Por que a legislação não é cumprida?
RL
- A lei é ignorada pela corja da indústria milionária, que sobrevive
às custas do sofrimento dos animais. O público mesmo não tem acesso
às informações do circo de horrores que acontece antes da porteira
da arena ser aberta. Os promotores desses hediondos eventos se
desculpam afirmando que o sedém (instrumento que torna o animal
mais violento) provoca apenas cócegas no bicho, o que é uma mentira
deslavada. Além do sedém, como objeto de tortura são introduzidos
no ânus dos bichos cigarros acesos, cacos de vidro, pedaços de
pau e outras tantas barbaridades. Tenho tudo isso documentado
para provar que os animais não pulam porque são selvagens ou porque
sentem cócegas; pulam de dor, muuuita dor! Meus coleguinhas sertanejos
(sertanojos?) infelizmente caem no deslumbre dos cachês milionários
dos rodeios e emprestam seus nomes para prestigiar esta indústria
de horrores sem a mínima consciência. é lamentável. Sou apenas
uma cigarra no meio de formigueiros gananciosos.
EC
- Em 1997 você declarou que estávamos no início de uma globalização
que era "super do bem". Você ainda pensa assim?
RL
- Provavelmente eu devia estar viajando na maionese do que o nome
globalização poderia significar para uma riponga da antiga como
eu, cuja utopia é "o planeta unido jamais será venci-do por Darth
Vader" ou algo parecido. Pode ter me passado pela cabeça também
tratar-se de um programa musical da rede Globo, daqueles festivais
internacionais da canção popular onde não rolavam jabás. Lembre-se
que em 1997 eu ainda era uma criança inocente, he he he...
EC
- O Brasil da era FHC está tendo dificuldades em dar respostas
para anseios básicos da população. Nunca houve tantos desempregados
e a situação de exclusão e confronto gera uma tensão social preocupante.
Como você vê esta realidade? E como acha que os brasileiros devem
avaliar estas coisas todas, já que estamos em um ano eleitoral?
Como a Rita faz para escolher seus candidatos?
RL
- A Rita nasceu e mora numa aldeia chamada Sampa, da qual ela
se autocanonizou santa porque vive há 52 anos em regime de martírio
(minto, nos meus tempos de teen Sampa até que era bacaninha, limpinha
etc)... há trocentos anos. Porém, uma corja politiqueira assola
minha aldeia e toma o poder com o único propósito de afundar cada
vez mais a população paulista nas bostas do Tietê. O maior colégio
eleitoral do país não sabe votar, eleição por estas bandas parece
sempre concurso da melhor bunda do tchan. Por isso minha intenção
maior como santa é operar milagres mesmo. Meu nome é Ritéias!
EC
- Entrei no seu site (www.ritalee.com.br) e li o deleerios. Gostaria
de saber quando a Rita é personagem e quando a Rita é ela mesma.
Qual delas dá as respostas às perguntas?
RL
- Ora, ora, dona aurora... Que atire a primeira pedra quem não
tem um monte de eus camu-flados. Meus personagens já foram confundidos
com entidades de umbanda. Outros me disse-ram que eram vestígios
de vidas passadas... Afff, alguém dentro de mim é mais eu do que
eu mesma.
EC
- Qual o tom deste novo trabalho que você está gravando e qual
a sua intenção com ele?
RL
- Minha intenção é sempre ter muito prazer, mas se vender, melhor...
Só estou divulgando a letra de Pagu (leia acima) por uma questão
de precaução. Tem neguinho de olho grande por aí...
EC
- Já que não dá para mostrar as novas músicas, explique um pouco
do conceito deste novo disco. Há parcerias novas, não?
RL
- Há 33 anos minha vidinha tem sido disco-show-disco-show-disco-show...
Até aí nada de novo no meu salão, diga ao povo que fico. Cada
trabalho é um filho novo, mas para mim, que parto do princípio
do "quem tudo quer nada tem", o que vier é lucro, não rolam expectativas
ou pré-intenções, apenas o prazer de fazer música que ainda move
minha mola existencial. Me sinto uma privilegiada de poder sobreviver
de música. Anyway, este trabalho novo tem algumas parcerias (além
de Zélia Duncan em Pagu) bem interessantes, como Itamar Assumpção
em Aviso aos Meliantes, Pato Fu no Amor em Pedaços, meu filho
Beto em DOI CODI love, Tom Zé numa possível continuação da saga
espacial 2001 que seria o 3001, e outras tantas da dupla di-nâmica
Lee/Carvalho. Começamos a gravar no Carnaval e, se não atrasar
como sempre, deve sair em meados de julho. Mas o bebê ainda não
tem nome.
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