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Mito cada
vez menor
Luiz
Carlos Barbosa
O
mito liberal introjetado no senso comum de que a imprensa expressa
imparcialidade e isenção absolutas, acima do bem
e do mal, está cada dia mais esfarrapado. A queda do mito
tem sido determinada pela própria conduta de jornais, revistas,
emissoras de rádio e televisão. Como nunca, nos
últimos tempos, os veículos de comunicação
têm deixado suas escancaradas posições políticas
e seus interesses econômicos na cobertura jornalística.
Portanto, não estamos falando do editorial, o lugar onde
se convencionou reservar para a opinião da empresa jornalística.
Além disso, algumas obras, como "Notícias do
Planalto - a imprensa e Fernando Collor", de Mario Sergio
Conti, acentuam ainda mais o compromisso da imprensa com algo
infinitamente maior do que a notícia. Isto é, o
poder.
Embora exaustiva
pelo tamanho colossal de mais de 700 páginas, a leitura do texto
do jornalista vale a pena. Ainda mais agora que a dona Nicéa parece
reencarnar Pedro Collor e faz com Celso Pitta o mesmo que fez
o irmão do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Aliás, as circunstâncias
são muito semelhantes, não só da denúncia como também da repentina
ascensão, há pouco mais de quatro anos, daquele que neste instante
é quase ex-prefeito de São Paulo. Talvez daqui um tempo descubra-
se que o cacife do prefeito também foi montado pela mídia, seguindo
o exemplo de Fernando Collor, como narra Mario Sergio Conti em
seu livro. Mais, quem sabe um dia se esclareça o mistério para
a ampla cobertura sobre o envolvimento do todo-poderoso Antônio
Carlos Magalhães nas denúncias da ex-primeira dama da cidade de
São Paulo. Que desavenças teriam havido entre os donos das emissoras
e o senador baiano?
Muitos sustentam
que a essência do jornalismo é a denúncia. Pode ser, quando a
denúncia em questão não atinge os interesses da própria mídia
ou de seu mercado. Ou quando a denúncia tem um sentido estratégico
para a empresa de comunicação em derrubar alguém do poder. Para
quem não conhece os meandros da atividade, é bom saber que o jornalismo
seleciona, organiza e ordena os fatos e as informações de acordo
com uma dada visão da realidade. Isto ocorre na redação e até
certo ponto de forma inconsciente. No âmbito das chefias e das
direções das empresas de comunicação, a pauta guarda uma estreita
proximidade com as idiossincrasias do poder. Denúncias como as
que provocaram o impeachment de Collor e ameçam Pitta não são
publicadas sem o consentimento dos donos dos veículos.
Ao recompor
a trajetória de Fernando Collor na perspectiva da imprensa, Conti
traça ao mesmo tempo uma história factual da comunicação social
no Brasil e revela o papel que os grandes veículos desempenharam
no desfecho de episódios significativos da vida nacional. Desde
o lançamento de "Notícias do Planalto - a imprensa e Fernando
Collor", no final do ano passado, inúmeros comentários apontaram
lacunas e lapsos no trabalho de jornalista. Não é o caso de repisar
ou polemizar. O que importa de fato é que, ainda que ambivalente,
o texto permite comprovar a conexão da imprensa com o poder e
a falácia da isenção. Sem contar, é claro, o poder ilegítimo exercido
por uma instituição que não recebeu um voto sequer de nenhum eleitor
e, no entanto, pode forçar a eleição e a queda de um presidente.
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