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A TV, quem
diria, faz 50 anos
Digna representante
do jeitinho brasileiro, televisão se transforma no meio
de comunicação mais influente da cultura nacional
Isabela
Junqueira
A
comemoração dos 50 anos da televisão no Brasil
é marcada por histórias que confirmam a autenticidade
do jeitinho brasileiro. Para viabilizar a primeira transmissão
da TV Tupi de São Paulo, em 18 de setembro de 1950, o empresário
Assis Chateaubriand mandou trazer 200 aparelhos - contrabandeados
-para o país. Metade deles foi distribuída em vitrinas
de lojas. O restante foi dado de presente a personalidades e empresários
que financiaram a implantação da televisão.
Um dos presenteados, o jornalista Roberto Marinho, hoje é
o diretor-presidente das Organizações Globo, a maior
rede de televisão do Brasil. A situação mudou
drasticamente desde aquele ano: o número de aparelhos de
TV saltou dos 200 primeiros para os 30 milhões atuais.
Chateaubriand
- ou simplesmente Chatô, como ficou mais conhecido - comprou cerca
de 30 toneladas da aparelhagem necessária para montar sua emissora
da norte-americana RCA Victor. No dia da transmissão, uma das
três câmeras queimou e, como todas estavam conectadas entre si,
seria preciso uma nova ligação para fazer funcionar as outras
duas. Tudo estava preparado para ser transmitido com três câmeras,
mas o ensaio teve que ser esquecido por ordem de Cassiano Gabus
Mendes. Ele comandou com sucesso a transmissão no improviso.
A improvisação
foi umas principais características dos primeiros anos da televisão
brasileira, pois grande parte dos profissionais vinha do rádio.
Nem todos conseguiram manter o sucesso. O gaúcho Ary Rego era
um dos mais famosos galãs de radionovela na Farroupilha, mas não
gostou de seu desempenho nas produções da TV. "Cismei com minha
imagem", revela. O teleteatro ocupava a programação com atrações
tipo o "TV de Vanguarda", que levou ao ar peças teatrais e adaptações
como Macbeth e Hamlet, de Shakespeare. O "Grande Teatro Tupi",
por sua vez, congregava os melhores artistas teatrais, entre eles
Procópio Ferreira e Cacilda Becker.
Os programas
infantis começaram a ganhar espaço em 1952, com a adaptação das
histórias do "Sítio do Pica-pau Amarelo" de Monteiro Lobato. O
público era restrito aos que tinham dinheiro para comprar um receptor.
Esse período ficou conhecido como "televizinho", porque era comum
a vizinhança acomodar cadeiras para assistir da janela à televisão
do mais abonado da rua. O número de aparelhos produzidos na indústria
nacional cresceu para acompanhar o aumento nas vendas, chegando
a 85 mil televisores comercializados em 1955. Nesse período, as
emissoras expandiram a transmissão para outras cidades.
A equipe gaúcha
da TV Piratini passou seis meses no Rio de Janeiro em 1959 tendo
um curso de televisão. "Tivemos essas aulas para conhecer a linguagem
do veículo", afirma ênio Rockenbach, vice-presidente da Associação
Rio-grandense de Imprensa e um dos participantes da expedição.
No final daquele ano, quando o grupo voltou a Porto Alegre, foi
inaugurada a TV Piratini. A produção local perdeu fôlego com o
advento do videoteipe, que representou não só um avanço tecnológico,
mas também a redução dos custos para retransmissão de programas
do Rio de Janeiro e São Paulo nos outros estados.
Para o jornalista
Sérgio Reis, que também foi um dos pioneiros na TV Piratini, a
grande virada não foi com o video-tape porque o processo de edição
era muito trabalhoso. Ele acredita que a criação da Embratel unificou
o país com o sistema de microondas. A estatal foi criada na década
de 70, dentro do processo de expansão e modernização do sistema
produtivo do Brasil, quando foi instalado um gigantesco sistema
nacional de comunicações, composto por uma avançada infra-estrutura
de serviços de telecomunicações e por dezenas de emissoras de
televisão.
O aumento
do público telespectador obrigou a televisão a popularizar
sua programação. Nessa época, surgiram ídolos
como Chacrinha, Silvio Santos, Hebe Camargo, Flávio Cavalcanti...
Os festivais de música promovidos pelas redes televisivas
levaram para o vídeo estrelas da música brasileira.
Entre 1964 e 1975, a televisão tornou- se um veículo
profissional e implantou um esquema empresarial estruturado. A
TV Gaúcha, embrião da RBS TV, começou a operar
em 1962. A Rede Globo, fundada em 1965 com o apoio financeiro
do grupo americano Time/Life, terminou a década detendo
grande audiência. No dia 1¼ de março de 1969, a emissora
colocou no ar a primeira edição do Jornal Nacional.
Nessa fase, a telenovela estava consolidada na programação
das grandes redes e a produção era centralizada.
A novela "Selva de Pedra" (1968) chegou a ter 100% de
audiência com a trama protagonizada por Francisco Cuoco
e Regina Duarte.
O avanço tecnológico
na televisão brasileira proporcionou a primeira transmissão em
cores, no dia 31 de março de 1972, durante a Festa da Uva, em
Caxias do Sul, pela TV Difusora. Coincidência ou não, a televisão
brasileira expandiu bruscamente durante a ditadura militar. Junto
com os avanços tecnológicos proporcionados pelo regime, a TV sofria
com a censura. O presidente Médici chegou a declarar, em março
de 1973: "Sinto-me feliz, todas as noites, quando ligo a televisão
para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves,
agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o
Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. é como se tomasse
um tranqüilizante após um dia de trabalho".
Na década
de 80, a abertura política iniciada pelo presidente Figueiredo
termina com a censura oficial ao telejornalismo. No mesmo ano,
sai do ar a TV Tupi, primeira a ser inaugurada no país. Nesse
período da televisão, a Constituição de 1988 regulamentou a concessão
de canais de televisão. Nos anos 90, o grande agente das mudanças
na TV brasileira é a sociedade civil, através dos movimentos pela
democratização da programação.
| FATOS
MARCANTES DA TELEVISãO |
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1950
- Inauguração da TV Tupi
1955 - Realizada a primeira transmissão externa direta
com o jogo Santos X Palmeiras, na Vila Belmiro. Vai ao ar
o programa "O Céu é o Limite", com J. Silvestre.
1959 - Inauguração de nove estações da Rede Associadas:
Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Campina Grande,
Fortaleza, São Luís, Belém e Goiânia.
1959 - Ministro da Justiça, Armando Falcão, assina
a primeira legislação regulamentando a censura de TV no
Brasil.
1961 - É promulgado decreto fixando em três
minutos o intervalo comercial.
1962 - Instituição do "Código Brasileiro de Telecomunicações".
Inauguração da TV Gaúcha, em Porto Alegre.
1965 - Inaugurada a TV Globo, no Rio de Janeiro.
Vai ao ar o musical "O Fino da Bossa", com Elis Regina e
Jair Rodrigues.
1966 - Realizado o 2¼ Festival de Música Popular
Brasileira, tendo como grande vencedor Chico Buarque com
"A Banda".
1968 - Inauguração da Rede Nacional de Microondas
e sistema de transmissão por satélites (Telstar).
1972 - Primeira transmissão em cores. Festa da Uva,
em Caxias do Sul.
1977
- Baixado decreto que regulamenta a propaganda governamental
gratuita.
1980 - Fim da censura oficial ao telejornalismo.
1986 - O primeiro satélite brasileiro com 24 canais
é lançado em março.
1987 - As exportações da Rede Globo atingiram o total
de U$$ 20 milhões.
1989 - Mais de 64% das 34.860.700 residências do
País já estavam equipadas com aparelhos televisores.
1990 - A televisão transmitiu a posse do primeiro
presidente civil eleito pelo voto direto depois do Golpe
de 1964, para todo o país.
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