Home Sinpro-RS

 


Dutra vs. Dutra

Confronto entre professores e governo pôs aliados políticos em trincheiras opostas

Da redação

Livros enfatizam
lado pitoresco das
comemorações

Festa na Bahia vai até
2001

Carnaval em abril

Olívio Dutra e Juçara Dutra Vieira, ambos com o mesmo sobrenome e filiados ao mesmo partido político. De um lado o representante máximo do governo do estado administrando a falta de dinheiro e a turbulência do primeiro mandato e, de outro, a professora que é a principal dirigente do Cpers/Sindicato representando os interesses do magistério gaúcho. Olívio tem na bagagem os apitaços promovidos pelo sindicato dos bancários, que lhe renderam notoriedade no início da carreira política e projeção dentro do PT. Juçara, por sua vez, tem intimidade com os sinetaços promovidos histórica e ciclicamente diante do Palácio Piratini nos últimos 15 anos. Ambos encarnaram, nas últimas semanas, personagens de uma briga inédita na história política do Rio Grande do Sul.

Não se travou, nesse caso, uma briga particular. Durante os 32 dias em que os professores pararam suas atividades, o estado esteve diante de mais uma disputa por soluções para a histórica defasagem salarial dos professores gaúchos, um problema que já atravessa décadas. A diferença é que este ano, pela primeira vez, parte da base eleitoral do governo duelou internamente contra ele mesmo, deixando um rastro de seqüelas políticas ainda não avaliadas por ambas as partes.

O acordo que possibilitou a suspensão da greve foi difícil e gerou divergências dentro do PT e do próprio Cpers. Os professores queriam um reajuste imediato de pelo menos 20,9% sobre o salário básico da categoria, mas levou 14,09% divididos em três parcelas: 6,5% em março, 4,2% em julho e 4,2% em dezembro. A demonstração de força dos professores - esboçada na assembléia de 2 de março, que reuniu mais de 15 mil pessoas em Porto Alegre - esbarrou na severa disposição da equipe econômica do governo em não desequilibrar as contas públicas. Olívio aceitou a tese de seus assessores e deixou que a greve do magistério se desgastasse naturalmente: a suspensão foi decidida por menos de 4 mil professores numa assembléia tumultuada e repleta de acusações. A presidente do Cpers já admitia, uma semana antes, que a mobilização dos professores havia diminuído, mas garantia que a estratégia da categoria seria manter o maior número de escolas fechadas pelo maior tempo possível. Não conseguiu. Pelos dados da Secretaria de Educação, apenas 16% das escolas continuavam paradas no último dia de greve. O Cpers contesta os dados, mas admite que a mobilização não tinha mais o apoio de pelo menos três em cada quatro professores estaduais. "O governo apostou no desastre de sua própria base de sustentação e, com a intransigência, poderá até conseguir uma vitória momentânea, mas em longo prazo o preço será alto", advertiu Juçara, prenunciando a derrota.

O preço foi mesmo alto, tanto para o governo quanto para os professores. O governo porque desapontou uma categoria aliada e descumpriu promessas de campanha, entre elas a recuperação dos salários do magistério. A direção do Cpers, por sua vez, foi taxada por parte da plenária de "traidora" e "pelega". Juçara, além disso, foi acusada de manipular o resultado da votação e de forçar o fim da greve. Para a equipe econômica a proposta de aumento é emergencial e definitiva, mas o governo não descarta a possibilidade de negociar avanços para o futuro, como a manutenção da contribuição à Previdência estadual e o plano de carreira dos servidores de escolas. "é preciso deixar claro que não há a mínima possibilidade de mexer neste índice. O que se pode fazer é analisar a matriz tributária que gera recursos para os pagamentos da categoria para o futuro. Não se pode criar falsas expectativas entre os professores", pondera o secretário da Administração, Jorge Buchabqui.

O sindicato, que havia acusado o governo de estar fazendo caixa com o arrocho dos salários do magistério, acredita que o governo pode dar mais aos professores, tanto que suspendeu a greve mantendo, porém, um protesto contra o índice de reajuste oferecido. Na prática, é uma saída para tentar ocultar a impossibilidade de manter a paralisação. "é preciso disposição política para realizar avanços", avaliou a presidente do Cpers. Para ela, seria inaceitável sair desta greve sem uma perspectiva de futuro e um compromisso do Palácio Piratini em conceder avanços dentro do mandato de Olívio Dutra. Isso, na avaliação dela, foi obtido. Mas Juçara admite, frustrada, que do embate só restaram perdedores.

Fale com o Extra Classe