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Dutra vs.
Dutra
Confronto
entre professores e governo pôs aliados políticos
em trincheiras opostas
Da redação
Olívio Dutra
e Juçara Dutra Vieira, ambos com o mesmo sobrenome e filiados
ao mesmo partido político. De um lado o representante máximo do
governo do estado administrando a falta de dinheiro e a turbulência
do primeiro mandato e, de outro, a professora que é a principal
dirigente do Cpers/Sindicato representando os interesses do magistério
gaúcho. Olívio tem na bagagem os apitaços promovidos pelo sindicato
dos bancários, que lhe renderam notoriedade no início da carreira
política e projeção dentro do PT. Juçara, por sua vez, tem intimidade
com os sinetaços promovidos histórica e ciclicamente diante do
Palácio Piratini nos últimos 15 anos. Ambos encarnaram, nas últimas
semanas, personagens de uma briga inédita na história política
do Rio Grande do Sul.
Não se travou,
nesse caso, uma briga particular. Durante os 32 dias em que os
professores pararam suas atividades, o estado esteve diante de
mais uma disputa por soluções para a histórica defasagem salarial
dos professores gaúchos, um problema que já atravessa décadas.
A diferença é que este ano, pela primeira vez, parte da base eleitoral
do governo duelou internamente contra ele mesmo, deixando um rastro
de seqüelas políticas ainda não avaliadas por ambas as partes.
O
acordo que possibilitou a suspensão da greve foi difícil
e gerou divergências dentro do PT e do próprio Cpers.
Os professores queriam um reajuste imediato de pelo menos 20,9%
sobre o salário básico da categoria, mas levou 14,09%
divididos em três parcelas: 6,5% em março, 4,2% em
julho e 4,2% em dezembro. A demonstração de força
dos professores - esboçada na assembléia de 2 de
março, que reuniu mais de 15 mil pessoas em Porto Alegre
- esbarrou na severa disposição da equipe econômica
do governo em não desequilibrar as contas públicas.
Olívio aceitou a tese de seus assessores e deixou que a
greve do magistério se desgastasse naturalmente: a suspensão
foi decidida por menos de 4 mil professores numa assembléia
tumultuada e repleta de acusações. A presidente
do Cpers já admitia, uma semana antes, que a mobilização
dos professores havia diminuído, mas garantia que a estratégia
da categoria seria manter o maior número de escolas fechadas
pelo maior tempo possível. Não conseguiu. Pelos
dados da Secretaria de Educação, apenas 16% das
escolas continuavam paradas no último dia de greve. O Cpers
contesta os dados, mas admite que a mobilização
não tinha mais o apoio de pelo menos três em cada
quatro professores estaduais. "O governo apostou no desastre
de sua própria base de sustentação e, com
a intransigência, poderá até conseguir uma
vitória momentânea, mas em longo prazo o preço
será alto", advertiu Juçara, prenunciando a
derrota.
O
preço foi mesmo alto, tanto para o governo quanto para
os professores. O governo porque desapontou uma categoria aliada
e descumpriu promessas de campanha, entre elas a recuperação
dos salários do magistério. A direção
do Cpers, por sua vez, foi taxada por parte da plenária
de "traidora" e "pelega". Juçara, além
disso, foi acusada de manipular o resultado da votação
e de forçar o fim da greve. Para a equipe econômica
a proposta de aumento é emergencial e definitiva, mas o
governo não descarta a possibilidade de negociar avanços
para o futuro, como a manutenção da contribuição
à Previdência estadual e o plano de carreira dos
servidores de escolas. "é preciso deixar claro que
não há a mínima possibilidade de mexer neste
índice. O que se pode fazer é analisar a matriz
tributária que gera recursos para os pagamentos da categoria
para o futuro. Não se pode criar falsas expectativas entre
os professores", pondera o secretário da Administração,
Jorge Buchabqui.
O sindicato,
que havia acusado o governo de estar fazendo caixa com o arrocho
dos salários do magistério, acredita que o governo pode dar mais
aos professores, tanto que suspendeu a greve mantendo, porém,
um protesto contra o índice de reajuste oferecido. Na prática,
é uma saída para tentar ocultar a impossibilidade de manter a
paralisação. "é preciso disposição política para realizar avanços",
avaliou a presidente do Cpers. Para ela, seria inaceitável sair
desta greve sem uma perspectiva de futuro e um compromisso do
Palácio Piratini em conceder avanços dentro do mandato de Olívio
Dutra. Isso, na avaliação dela, foi obtido. Mas Juçara admite,
frustrada, que do embate só restaram perdedores.
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