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Carnaval em abril

As comemorações dos 500 anos do Brasil prometem transformar o tema em bem de consumo pouco durável

Denise Nunes

Livros enfatizam
lado pitoresco das
comemorações

Festa na Bahia vai até
2001

Dutra vs. Dutra

Os relógios gigantes espalhados pela rede Globo em 28 capitais e a farta publicidade em torno do evento não nos deixam esquecer: faltam poucos dias para o aniversário de 500 anos do Brasil, a ser comemorado em 22 de abril. Adata é marcante, não há dúvida, e a festa promete ser de arromba. A questão é: esgotada a contagem regressiva, atracada a nova caravela que saiu de Portugal no mês passado, celebrada a repetição da Primeira Missa na Bahia, o que terá sobrado dos festejos, que não custaram pouca coisa aos cofres públicos?

O orçamento federal prevê para este ano gastos de R$ 47,3 milhões com a comemoração dos 500 anos. No ano passado, já haviam sido aplicados outros R$ 30 milhões. Para o professor de História da Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Luiz Roberto Lopes, quem contava com debates acalorados e reflexões abundantes sobre os cinco séculos de história oficial brasileira ficará frustrado. Conforme Lopes, não será a primeira vez. "Os 500 anos estão sendo transformados em algo semelhante aos 150 anos da Independência, em 1972: uma festa da auto-estima brasileira, um espetáculo ufanista", afirma. Segundo o historiador, se em 1972 a carnavalização da data podia ser atribuída à ditadura militar, em 2000 o pouco caso com atividades intelectuais tem origem no contexto de uma democracia liberal.

Ainda que não haja exatamente uma usina de idéias em operação, pipocam seminários aqui e ali e o mercado editorial emite alguns sinais de vida. Autores de diferentes envergaduras puseram-se a desbravar o filão do Descobrimento. Conforme o vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), José Henrique Grossi, as reuniões preparatórias à Bienal do Livro de São Paulo revelam que as editoras programaram lançamentos relacionados ao tema. Grossi acredita que as reedições vão responder por metade das obras que estão por sair do prelo. A abordagem predominante, imagina ele, será a acadêmica. A CBL ainda não tem uma quantificação do movimento editorial em torno dos 500 anos, mas seu vice-presidente arrisca dizer que ele não se traduzirá em incremento do faturamento do setor.

Anualmente chegam 15 mil livros ao mercado brasileiro, cuja receita gira em volta dos R$ 2 milhões. A estimativa de Grossi é que os títulos relacionados aos 500 anos abocanhem uma parcela considerável desse montante, mas não sejam suficientes para aumentá-lo.


No que diz respeito ao Rio Grande do Sul, a previsão de Grossi não se revela correta: além do Descobrimento não ter gerado um grande volume de produções, a academia passou praticamente ao largo da data. Não por acaso, o autor que "descobriu" o filão dos 500 anos e se consagrou nacionalmente é jornalista: o gaúcho Eduardo "Peninha" Bueno, que há dois anos se apresentou ao mercado, freqüentando desde então todas as listas de livros mais vendidos com seus três best sellers: "A Viagem do Descobrimento", "Náufragos, Traficantes e Degredados" e "Capitães do Brasil". Um quarto está em gestação. Ainda neste filão, embora em editora diferente, Peninha uniu-se ao cartunista porto-alegrense Edgar Vasques e lançou recentemente o livro "Brasil: Terra à Vista".

Vasques enveredou pelo Descobrimento a partir de um convite do editor Ivan Pinheiro Machado, proprietário da L&PM, para ilustrar o livro de Peninha. Ao mesmo tempo, o cartunista integrou-se ao projeto "Aqui são outros 500", da Secretaria de Estado da Cultura. Com outros 24 cartunistas, fez a versão ilustrada - e bem-humorada - do Descobrimento, que, na visão de Vasques, foi mútuo. Em seu cartum, um português e um índio se encaram.

O trabalho de ilustração de "Brasil: Terra à Vista" foi feito com base em livros cedidos pelo autor e editora, além de pesquisa própria. Um dos desafios foi retratar o descobridor. A referência mais confiável da fisionomia de Pedro álvares Cabral é um auto-relevo que o mostra de perfil, existente no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, Portugal.

Ao dizer o que pensa das comemorações em andamento e das produções vinculadas à data, Vasques recorre a uma imagem apropriada ao tema: "Navio não pode ter só vela e seguir ao sabor dos ventos", sugere, criticando a falta de conteúdo do que viu até agora. Para ele, faltam obras consistentes, como o livro do historiador Mário Maestri, "Senhores do Litoral", que fala dos índios que habitavam o Brasil quando a esquadra de Cabral aportou na então Terra de Vera Cruz.

"Há muito auê e badalação, mas falta aprofundamento", diz ele, revelando a dúvida que gostaria de ver sanada: como o Brasil consegue ser o maior país da América Latina e o único a falar, de ponta a ponta, o idioma português? "Por que os espanhóis não conseguiram dominar parte do território? Por que franceses, ingleses e holandeses não conseguiram permanecer? O que permitiu ao Brasil ser o que é?", indaga ele, oferendo-se para ilustrar o livro do historiador que lhe apresentar a solução do enigma.

Outro olhar descobridor foi dado pelo também jornalista Walter Galvani, no livro "Nau Capitânea", uma biografia de Pedro álvares Cabral, personagem exaustivamente pesquisado a quatro mãos por Galvani e sua mulher, a jornalista Carla Irigaray, no Brasil e em Portugal. O que reuniu, poderá render novo livro - "quando eu conseguir desembarcar da Nau", ressalta, referindo-se às inúmeras demandas surgidas a partir do livro - sobre costumes ou peculiaridades da época do descobrimento, inclusive com receitas culinárias do período. Na bagagem que trouxe de Portugal, além de inúmeros disquetes, vieram 80 quilos de reproduções xerográficas e fotográficas.

Também Galvani se mostra pouco entusiasmado com as comemorações. Plagiando Wiliam Sheakspeare, conclui: "Há muito barulho por nada". Mas o jornalista não estranha. Para ele, o tom festivo e pouco reflexivo da passagem da data é uma intenção anunciada quando a organização dos eventos foi atribuída ao Ministério do Esporte e Turismo. "Quando os ministérios da Educação, Cultura ou mesmo de Relações Exteriores foram preteridos, estava definido o que se pretendia. Típico do Brasil moderno", lamenta, acrescentando que, apenas em setembro, o calendário oficial de eventos prevê um congresso com historiadores portugueses e brasileiros. Na Bahia.

A elaboração do livro revelou ao jornalista as dificuldades enfrentadas por historiadores para fazer um bom trabalho. Faltam subsídios para contar a história. Além da Biblioteca Nacional e do Museu do Ipiranga, um no Rio e outro em São Paulo, há poucos lugares onde consultar documentos. Em Portugal existe mais fartura, embora não sobre Cabral, "fritado" politicamente com a colaboração estreita de seu companheiro de viagem Pero Vaz de Caminha, autor da carta que registrou em primeira mão o novo país. Galvani atribui a ausência de historiadores neste momento histórico ao tradicional descaso com a pesquisa, pouco dotada de recursos no país. "Seria preciso uma forte ação governamental para estimular a produção intelectual. Assuntos não faltariam", argumenta, relacionando alguns pouco explorados: o caráter separatista - ou não - da Revolução Farroupilha, as capitanias hereditárias, a Colônia de Sacramento e a Baianada.

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