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Carnaval
em abril
As comemorações
dos 500 anos do Brasil prometem transformar o tema em bem de consumo
pouco durável
Denise
Nunes
Os relógios
gigantes espalhados pela rede Globo em 28 capitais e a farta publicidade
em torno do evento não nos deixam esquecer: faltam poucos dias
para o aniversário de 500 anos do Brasil, a ser comemorado em
22 de abril. Adata é marcante, não há dúvida, e a festa promete
ser de arromba. A questão é: esgotada a contagem regressiva, atracada
a nova caravela que saiu de Portugal no mês passado, celebrada
a repetição da Primeira Missa na Bahia, o que terá sobrado dos
festejos, que não custaram pouca coisa aos cofres públicos?
O orçamento
federal prevê para este ano gastos de R$ 47,3 milhões com a comemoração
dos 500 anos. No ano passado, já haviam sido aplicados outros
R$ 30 milhões. Para o professor de História da Ufrgs (Universidade
Federal do Rio Grande do Sul), Luiz Roberto Lopes, quem contava
com debates acalorados e reflexões abundantes sobre os cinco séculos
de história oficial brasileira ficará frustrado. Conforme Lopes,
não será a primeira vez. "Os 500 anos estão sendo transformados
em algo semelhante aos 150 anos da Independência, em 1972: uma
festa da auto-estima brasileira, um espetáculo ufanista", afirma.
Segundo o historiador, se em 1972 a carnavalização da data podia
ser atribuída à ditadura militar, em 2000 o pouco caso com atividades
intelectuais tem origem no contexto de uma democracia liberal.
Ainda que
não haja exatamente uma usina de idéias em operação, pipocam seminários
aqui e ali e o mercado editorial emite alguns sinais de vida.
Autores de diferentes envergaduras puseram-se a desbravar o filão
do Descobrimento. Conforme o vice-presidente da Câmara Brasileira
do Livro (CBL), José Henrique Grossi, as reuniões preparatórias
à Bienal do Livro de São Paulo revelam que as editoras programaram
lançamentos relacionados ao tema. Grossi acredita que as reedições
vão responder por metade das obras que estão por sair do prelo.
A abordagem predominante, imagina ele, será a acadêmica. A CBL
ainda não tem uma quantificação do movimento editorial em torno
dos 500 anos, mas seu vice-presidente arrisca dizer que ele não
se traduzirá em incremento do faturamento do setor.
Anualmente
chegam 15 mil livros ao mercado brasileiro, cuja receita gira
em volta dos R$ 2 milhões. A estimativa de Grossi é que os títulos
relacionados aos 500 anos abocanhem uma parcela considerável desse
montante, mas não sejam suficientes para aumentá-lo.

No que diz respeito ao Rio Grande do Sul, a previsão de Grossi
não se revela correta: além do Descobrimento não ter gerado um
grande volume de produções, a academia passou praticamente ao
largo da data. Não por acaso, o autor que "descobriu" o filão
dos 500 anos e se consagrou nacionalmente é jornalista: o gaúcho
Eduardo "Peninha" Bueno, que há dois anos se apresentou ao mercado,
freqüentando desde então todas as listas de livros mais vendidos
com seus três best sellers: "A Viagem do Descobrimento", "Náufragos,
Traficantes e Degredados" e "Capitães do Brasil". Um quarto está
em gestação. Ainda neste filão, embora em editora diferente, Peninha
uniu-se ao cartunista porto-alegrense Edgar Vasques e lançou recentemente
o livro "Brasil: Terra à Vista".
Vasques enveredou
pelo Descobrimento a partir de um convite do editor Ivan Pinheiro
Machado, proprietário da L&PM, para ilustrar o livro de Peninha.
Ao mesmo tempo, o cartunista integrou-se ao projeto "Aqui são
outros 500", da Secretaria de Estado da Cultura. Com outros 24
cartunistas, fez a versão ilustrada - e bem-humorada - do Descobrimento,
que, na visão de Vasques, foi mútuo. Em seu cartum, um português
e um índio se encaram.
O trabalho
de ilustração de "Brasil: Terra à Vista" foi feito com base em
livros cedidos pelo autor e editora, além de pesquisa própria.
Um dos desafios foi retratar o descobridor. A referência mais
confiável da fisionomia de Pedro álvares Cabral é um auto-relevo
que o mostra de perfil, existente no Mosteiro dos Jerônimos,
em Lisboa, Portugal.
Ao dizer o
que pensa das comemorações em andamento e das produções vinculadas
à data, Vasques recorre a uma imagem apropriada ao tema: "Navio
não pode ter só vela e seguir ao sabor dos ventos", sugere, criticando
a falta de conteúdo do que viu até agora. Para ele, faltam obras
consistentes, como o livro do historiador Mário Maestri, "Senhores
do Litoral", que fala dos índios que habitavam o Brasil quando
a esquadra de Cabral aportou na então Terra de Vera Cruz.
"Há muito
auê e badalação, mas falta aprofundamento", diz ele, revelando
a dúvida que gostaria de ver sanada: como o Brasil consegue ser
o maior país da América Latina e o único a falar, de ponta a ponta,
o idioma português? "Por que os espanhóis não conseguiram dominar
parte do território? Por que franceses, ingleses e holandeses
não conseguiram permanecer? O que permitiu ao Brasil ser o que
é?", indaga ele, oferendo-se para ilustrar o livro do historiador
que lhe apresentar a solução do enigma.
Outro olhar
descobridor foi dado pelo também jornalista Walter Galvani, no
livro "Nau Capitânea", uma biografia de Pedro álvares Cabral,
personagem exaustivamente pesquisado a quatro mãos por Galvani
e sua mulher, a jornalista Carla Irigaray, no Brasil e em Portugal.
O que reuniu, poderá render novo livro - "quando eu conseguir
desembarcar da Nau", ressalta, referindo-se às inúmeras demandas
surgidas a partir do livro - sobre costumes ou peculiaridades
da época do descobrimento, inclusive com receitas culinárias do
período. Na bagagem que trouxe de Portugal, além de inúmeros
disquetes, vieram 80 quilos de reproduções xerográficas e fotográficas.
Também Galvani
se mostra pouco entusiasmado com as comemorações. Plagiando Wiliam
Sheakspeare, conclui: "Há muito barulho por nada". Mas o jornalista
não estranha. Para ele, o tom festivo e pouco reflexivo da passagem
da data é uma intenção anunciada quando a organização dos eventos
foi
atribuída ao Ministério do Esporte e Turismo. "Quando os ministérios
da Educação, Cultura ou mesmo de Relações Exteriores foram preteridos,
estava definido o que se pretendia. Típico do Brasil moderno",
lamenta, acrescentando que, apenas em setembro, o calendário oficial
de eventos prevê um congresso com historiadores portugueses e
brasileiros. Na Bahia.
A elaboração
do livro revelou ao jornalista as dificuldades enfrentadas por
historiadores para fazer um bom trabalho. Faltam subsídios para
contar a história. Além da Biblioteca Nacional e do Museu do Ipiranga,
um no Rio e outro em São Paulo, há poucos lugares onde consultar
documentos. Em Portugal existe mais fartura, embora não sobre
Cabral, "fritado" politicamente com a colaboração estreita de
seu companheiro de viagem Pero Vaz de Caminha, autor da carta
que registrou em primeira mão o novo país. Galvani atribui a ausência
de historiadores neste momento histórico ao tradicional descaso
com a pesquisa, pouco dotada de recursos no país. "Seria preciso
uma forte ação governamental para estimular a produção intelectual.
Assuntos não faltariam", argumenta, relacionando alguns pouco
explorados: o caráter separatista - ou não - da Revolução Farroupilha,
as capitanias hereditárias, a Colônia de Sacramento e a Baianada.
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