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Greve desmistificadora
Ângelo
Dal Cin*
Segundo
alguns, as greves dos professores públicos estaduais, desde o
final da década de 70, ocorriam em função de ser o Cpers/Sindicato
um braço de partidos políticos. Nós, professores, dizíamos que
a greve mostrava a disposição de uma categoria incoformada com
o processo de exclusão e miséria às quais estava submetida.
Por
um lado, a atual greve desmistifica o discurso fácil e demagógico
de pronta solução do problema do magistério e funcionalismo público
estadual. Está provado que não se tratava apenas de falta de vontade
política do governo. Está provado também que os trabalhadores
em educação não aceitam mais esse tratamento. A greve é justa
e mostra a necessária independência de um sindicato em relação
a qualquer governo.
Quantas
categorias gostariam de protestar, de promover greves para superar
defasagens salariais? Outras tantas gostariam de reconquistar
direitos retirados pelo modelo implantado no país.Quantos
desempregados, trabalhadores na economia informal, biscateiros
e aposentados gostariam de protestar contra sua situação de miséria?
Só não o fazem porque não estão organizados.
A
redução do número de empregos e do poder aquisitivo dos trabalhadores
ocorre em função de interesses da economia de "mercado", a mão
invisível capaz de controlar tudo. Os efeitos dessa política,
em nível mundial, provocam um verdadeiro desastre social nos países
de terceiro mundo.
A
falta de vontade política não está nos eventuais governantes,
seja em nível munici-pal, estadual ou federal.A
falta de política para um desenvolvimento com mais qualidade de
vida para a maioria da população tem origem nas relações internacionais
ditadas e comandadas por altos interesses econômicos. São também
responsáveis aqueles, como o atual governo federal, que apóiam
esta inserção submissa de nosso país às formas de globalização.
Sabemos
que existem problemas de ordem atuarial referente à remuneração
dos trabalhadores, em especial do magistério público estadual.
Se considerarmos a expectativa de vida das mulheres no Rio Grande
do Sul, a mais alta do Brasil, logo constataremos a inviabilidade
de melhoria considerável de nossa remuneração. Uma professora,
com a justa aposentadoria especial aos 25 anos de trabalho, tendo
iniciado suas atividades aos 20 anos, terá cerca de 30 anos de
vida com salário integral depois de se aposentar.
Em
vista disso, a folha de pagamento dos inativos tende a se tornar
cada vez maior, inviabilizando sem mais tardar o Tesouro estadual.
Para superar tal impasse, há um caminho eficiente: atingirmos
um crescimento do PIB acima de 8% ao ano. Esta política, no entanto,
não é a do governo federal. Pelo contrário, há uma submissão aos
interesses internacionais, entregando enormes quantias de recursos,
todos os anos, resultantes do trabalho de toda uma nação, destinados
a abastecer os cofres de grandes banqueiros internacionais.
A
última moda é dizer que há superávit primário. Só não informam
à população que neste cálculo das contas públicas está excluído
o pagamento dos juros da dívida. Isto é, o suposto superávit transforma-se
imediatamente em déficit público quando incluirmos os gastos destinados
ao pagamento de nossa dívida. é uma sangria constante, aumentando
nossa miséria, destinada a salvar e enriquecer meia dúzia de grandes
empresários que dirigem o mundo.
Esta
não é a primeira e nem será a última greve dos trabalhadores em
educação ou de qualquer outra categoria. Enquanto não mudar o
modelo econômico, responsável pela instauração de um insano e
injustificável processo de exclusão em plena terceira fase da
revolução industrial, não teremos paz.
*
ângelo Dal Cin é professor da Unisinos e diretor do Sinpro/RS
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artigos de opinião são de inteira responsabilidade
dos autores, reproduzem com finalidade os originais recebidos
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