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A imprensa
brasileira e a democracia:
crônica de um liberalismo tupiniquim
Eduardo
Capellari *
Dois
fatos ocorridos no final de 1999, de proporções diversas, chamaram
a atenção do cidadão brasileiro atento, cujas repercussões ainda
estão por merecer uma reflexão mais séria e detida - acompanhada,
por certo, de ações que busquem neutralizar seus efeitos perversos:
(a) o jornalista e ex-diretor da revista Veja, Mário Sérgio Conti,
publica o livro "Notícias do Planalto -A imprensa e Fernando Collor",
por meio do qual pretende explicar a relação dos jornalistas,
re-pórteres e proprietários de meios de comunicação com a ascensão
do ex-presidente da República; (b) o jornalista Carlos Alberto
de Souza tem o título do seu livro, "O fundo do espelho é outro
- quem liga a RBS liga a Globo", fruto de dissertação de mestrado
na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), censurado pela
Editora da Universidade do Vale do Itajaí sob pressão da Rede
Brasil Sul, sendo publicado posteriormente como "O fundo do espelho
é outro -quem liga a ...", onde explica a inserção da RBS em Santa
Catarina como expressão dos interesses da Rede Globo.
Estes
dois acontecimentos editoriais, seguidos das intenções dos seus
autores - o primeiro motivado em interpretar a história política
recente do país de forma a abrandar a participação da Rede Globo
e da Revista Veja na eleição de Fernando Collor, propósito em
que foram acompanhados pelos mais importantes órgãos da imprensa
nacional; e o segundo impulsionado pelo interesse em compreender
o papel da RBS na região sul do Brasil - intenção da qual foi
parcialmente censurado -, fazem lembrar de uma velha reflexão
de um aristocrata francês - Alexis de Tocqueville - nascida de
sua viagem aos Estados Unidos da América em 1835, consubstanciada
no clássico "A Democracia na América".
Tocqueville
observa a nascente democracia norte-americana e a forma como seus
cidadãos organizam a imprensa tecendo os seguintes comentários:
"Todo poder aumenta a ação das suas forças à medida que centraliza
a sua direção; é essa uma lei geral da natureza, que o exame demonstra
ao observador e que um instinto mais certo ainda sempre fez conhecer
aos menores déspotas. Na França, a imprensa reúne duas espécies
de centralização distintas. Qua-se todo seu poder está concentrado
num mesmo lugar e por assim dizer nas mesmas mãos, pois os seus
órgãos são muito pouco numerosos. (...)Nem uma nem outra das duas
espécies de centralização de que acabo de falar existe na América.
Os Estados Unidos não têm capital: as luzes como o poder acham-se
disseminados em todas as partes daquela vasta região; os raios
da inteligência humana em lugar de partir de um centro comum,
crescem, pois, em todos os sentidos; os americanos não situaram
em parte alguma a direção geral do pensamento, assim como não
o fizeram com a direção dos negócios públicos."
Podemos
perceber nas palavras de Tocqueville um dos elementos que passou
a caracteri-zar as democracias nascidas na era moderna: o desenvolvimento
de uma imprensa livre como garantia de uma sociedade pluralista,
princípio que foi, e continua sendo em muitos países, uma preocupação
dos governos e da sociedade. Pressuposto que fundamenta na Europa
desse século uma legislação altamente restritiva à concentração
de meios de comunicação nas mãos de um mesma empresa - através
do impedimento de propriedade simultâneas de rádio, jornal e TV
-ou à concentração de audiência nacional - com a obrigatoriedade
de um percentual alto de produções regionais.
No
Brasil, terra em que o liberalismo foi fruto da verve discursiva
de bacharéis, funcionando como sala de estar ao patrimonialismo
articulado com o poder exercido de forma autoritária, a história
dos meios de comunicação foi marcada pela excessiva concentração
de empresas nas mãos de poucas famílias, e continua sendo, mesmo
após a modernização das redações, uma ilustração de que os interesses
econômicos desta elite dirigente estão longe de representarem
um projeto para o país.
é
muitíssimo claro que a realidade de Tocqueville do século 19 está
bastante transformada, na medida em que o final do século 20 acompanhou
uma grande concentração dos meios de comunicação nos países centrais,
fundamentalmente nos Estados Unidos - através de fusões que promoveram
a criação de verdadeiros gigantes das comunicações -, que fazem
pensar em que medida os princípios liberais de uma imprensa livre
ainda persistem. Porém, na grande maioria dessas nações há uma
sociedade civil complexa e pluralista que não alcança similar
no Brasil, onde percebemos experiências diversas como os jornais
partidários da França e Itália e os canais públicos de televisão
da Alemanha e Inglaterra.
No
Brasil, em que pese o crescimento do número de jornais regionais,
rádios comunitárias, órgãos de comunicação de sindicatos e ONG's,
que têm atuado muitas vezes como guerrilheiros diante do exército
organizado dos grandes ór gãos, precisamos urgentemente pensar
e cons-truir meios de comunicação que possam ser opções de massa
alternativos à ditadura da infor-mação das grandes famílias.
A
sociedade brasileira nesse início de século 21 pode ser muito
mais complexa, rica e interes-sante do que esta caricatura pintada
cotidianamente por quem não gostaria de nos ver e ouvir.
*
Eduardo Capellari é professor de Ciência Política
na UFSC e mestrado em Direito
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artigos de opinião são de inteira responsabilidade
dos autores, reproduzem com finalidade os originais recebidos
e não passam por processo de revisão textual, qualquer
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