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Trem inteiro

O presidente e a dona Ruth têm uma rara noite de sossego no Palácio da Alvorada. Ele lê os jornais, ela lê um livro ou cerze meias. Ele:
- Ouça isto, Ruth. Incendiaram um trem.
- Quem?
- Os passageiros. Ficaram irritados porque o trem quebrou e tocaram fogo.
- No vagão?
- Não, no trem inteiro. Olha, tem uma foto.
- Que coisa!
- Imagina o grau de irritação das pessoas para chegar a esse ponto. Não depredaram a estação, não incendiaram um ou dois vagões. Incendiaram um trem inteiro.
- Que horror.
- Aliás, pode-se deduzir muito da notícia. Assim, numa projeção sociológica. Para começar, não deve ter sido a primeira vez que o trem quebrou. Não se incendeia um trem inteiro por uma irritação passageira. A revolta só pode ter sido resultado de um acúmulo de irritação com repetidos incidentes do mesmo tipo. Isto mostra o quê? Falta de verbas para o transporte coletivo. No caso da ferrovia ser privatizada, desleixo e falta de fiscalização do governo. Tudo denotando o quê?
- Desprezo pelo público. Pouco caso com os serviços básicos a que o povo tem direito.
- E mais. Não se incendeia um trem inteiro porque o trem quebra, mesmo que quebre muito. Por isso se incendiaria, no máximo, meio trem. O trem inteiro é uma revolta contra muito mais. Contra o salário baixo, contra a falta de perspectiva, contra o desprezo generalizado... E ninguém parece dar muito importância à notícia. Um trem inteiro, Ruth!
- Calma, Fernando. Isso tudo tem muito a ver com cultura. Há uma cultura de desprezo pela classe mais baixa, é uma tradição. Fatos como esse são comuns.
- Eu sei, mas um trem inteiro...
- Ainda bem que você não vive lá, senão ia se impressionar todos os dias.
- Lá onde?
- Na índia, ora.
- Que índia?
- Esse trem incendiado, não foi na índia?
- Não, Ruth. No Brasil.
- Ah.
Silêncio. Depois:
- Ainda bem que você não vive lá também.

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