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Muitas
vezes se confunde paz com passividade
Fotos:
René Cabrales
Prêmio
Nobel da Paz em 1980, arquiteto, escultor e ativista pelos
direitos humanos, o argentino Adolfo Perez Esquivel é
uma das principais personalidades a debater o tema da paz
no mundo todo. Nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1931,
e durante a violenta ditadura militar argentina - que deixou
um saldo de 30 mil entre mortos e desaparecidos - teve um
destacado papel na defesa dos direitos humanos. Não
só em seu país, mas atuando em muitos outros
da América Latina. Em 1974, foi eleito o coordenador
geral para a América Latina de grupos de base que promoviam
a libertação do continente por meios não-violentos.
Considerado hoje um dos grandes pacifistas do mundo, Esquivel
fundou na década de 70 o Serviço de Paz e Justiça,
que denunciou internacionalmente as atrocidades do regime
militar argentino. Por isso, foi preso, em 1975, por outra
ditadura, a brasileira, e encarcerado com bispos latino-americanos
no Equador, em 1976. Na Argentina em 1977, foi torturado,
ficando preso, nesta situação, por 14 meses.
O reconhecimento veio em 1980, com o Prêmio Nobel da
Paz. Desde então, ele é uma espécie de
embaixador da paz, em diversas partes do mundo. Integra o
movimento mundial antiglobalização econômica
e participou tanto em 2001 quanto em 2002 do Fórum
Social Mundial, em Porto Alegre. Agregando muitos conceitos
à questão da paz, para Esquivel é impossível
pensá-la dissociada dos problemas da fome, da exclusão,
da manutenção de privilégios de poucos
e da dívida externa. A paz, ensina Esquivel, não
é algo dado, mas algo que se deve aprender a construir.
Jéferson
Assumção
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Extra Classe
O violento 11 de setembro mudou alguma coisa para o movimento
antiglobalização econômica, que vinha crescendo
e que tem como um de seus objetivos principais a construção
da chamada paz real, ou seja, a paz sem desigualdade social?
Adolfo Perez Esquivel Não, não afetou.
Acho que o 11 de setembro marcou uma etapa que mostrou muitas
coisas a nós. Primeiro, mostrou a vulnerabilidade do império
e, em segundo lugar, a dimensão atroz de um atentado que
custou a vida de mais de cinco mil pessoas, o que dói a
todos. Também mostrou a posição do governo
dos Estados Unidos de não reconhecerem as Nações
Unidas. De pôr-se sobre o resto do mundo para buscar um
castigo aos responsáveis pelo atentado, no Afeganistão.
Acho que, neste sentido, mudaram algumas coisas, mas não
mudou a situação dos povos de ir buscando seus caminhos
da libertação, da consciência coletiva, de
construir outros espaços, como o Fórum Social Mundial,
um exemplo.
EC No dia 11 de setembro, o senhor estava em Porto Alegre,
para o lançamento do 2º Fórum Social Mundial,
na Usina do Gasômetro. Acabou redigindo o manifesto do Fórum,
junto com outras personalidades do movimento mundial antineoliberalismo,
contra os atentados e em favor da paz com justiça social.
Naquele dia, pouco depois de noticiados os atentados, o senhor
chamou a atenção para um fato importante: a notícia
saída no mesmo dia, da morte de milhares de crianças,
de fome. Como o senhor interpreta este fato?
Esquivel Sim, isso foi no próprio 11 de setembro
e ficou conhecido por poucos. Houve um atentado terrorista sobre
a grande potência, mas os meios de comunicação
não falaram que naquele mesmo dia a FAO (Food and Agriculture
Organization of the United Nations) publicou um informe dizendo
que mais de 35.600 crianças morrem de fome no mundo. Isso
não é notícia nos grandes meios de comunicação.
Os governos não são mobilizados e ninguém
diz uma palavra sobre a bomba silenciosa da fome. Foi no mesmo
11 de setembro, mas qual foi a reação do mundo ante
estes dois fatos? Trataram do atentado sobre Nova York e Washington
e não sobre as crianças que morrem de fome. Mais
de 35.600 crianças! Uma coisa não justifica a outra,
mas a atenção do mundo, dos meios de comunicação,
até o dia de hoje, está sobre o problema do atentado
de 11 de setembro e seus desdobramentos. Mudou algo no mundo,
com a morte de mais de 35 mil crianças? E há uma
outra pergunta que temos que fazer: o que está acontecendo
quando se investe na Guerra do Afeganistão e em armamentos
mais de US$ 2 bilhões enquanto as crianças morrem?
Qual é a posição da humanidade sobre esta
situação? Sem falar dos genocídios nos grandes
países africanos, Ruanda, Burundi, Congo, Zaire, a tremenda
situação que hoje vivem seus povos, em que há
mais de três milhões de mortos. O que acontece com
a Colômbia? Há mais de dois milhões de pessoas
que tiveram que fugir de suas terras devido aos massacres. Então,
o que acontece com as Nações Unidas quando ficam
completamente à margem disso? Acho que se deve repensar
essas coisas.
EC Então, para o senhor o 11 de setembro é
menos relevante que todas esses exemplos?
Esquivel O 11 de setembro marcou alguns, mas não
marcou a vida dos povos. E pôs em evidência que os
extremos se tocam. Acho que tem três eixos fundamentais
a serem analisados em relação ao 11 de setembro.
Um é o do poder político, outro o do poder econômico
e outro o do poder militar. Além disso, é necessária
uma leitura da intervenção dos Estados Unidos em
outros países. Eles sempre buscaram o conflito fora de
seu território e desta vez tiveram o problema dentro do
próprio país. Isto, logicamente, assinala algumas
coisas. Uma delas é a questão do grau de vulnerabilidade
que têm os EUA, eles que pareciam ser invulneráveis.
Os atentados mostraram essa debilidade. E eu me preocupo particularmente
com isso porque há pouco tempo na Argentina houve dois
atentados sumamente graves, nas comunidades judaicas um
na Embaixada de Israel e que até hoje têm
suas conexões internacionais investigadas...
EC O senhor acha que há um risco de aumentarem as
ações militares dos Estados Unidos no resto do mundo?
Esquivel Esperamos que não, mas terminamos um
século com duas guerras mundiais e mais de 57 conflitos
no mundo muitos desses vigentes até o dia de hoje.
E na América latina, é visível uma re-militarização,
pelos Estados Unidos, desde antes dos atentados. Neste momento,
está em curso o Plano Colômbia com tropas integradas
por norte-americanos. Há bases militares dos Estados Unidos
no Equador, na América Central - na Costa Rica, Honduras,
Guatemala, El Salvador e Nicarágua. Logicamente que é
preocupante esta re-militarização do continente,
o que tem a ver também com a Alca, a área de livre
comércio que os EUA querem fazer na América Latina,
dominando-a. A Alca vai gerar a destruição dos mercados
regionais, como é o caso do Mercosul, o mercado andino,
o caribenho e o centro-americano. A política de introduzir
a Alca é a mesma do discurso da hegemonia norte-americana
no continente. Estamos em uma situação internacional
extremamente crítica, principalmente nos países
chamados de Terceiro Mundo, onde há situação
de pobreza e de aumento da Dívida Externa, que assola a
vida dos povos. Acredito que se não se atentar para isso
se podem agravar a situação nos três distintos
níveis.
EC Qual o papel do movimento antiglobalização
econômica no mundo de hoje?
Esquivel Este tipo de globalização que
está aí é uma forma de dependência,
por isso temos que tratar de revertê-la. Pensamos que, através
da organização social, da proposta de alternativas,
da supressão das dívidas externas, podemos fazê-lo.
E estamos trabalhando nesta direção. Temos propostas
alternativas como fazer chegar a questão da dívida
externa à Corte Internacional e suspender os pagamentos
da dívida. Ela é sumamente ilegítima e é
mera transferência de capital. Temos que mudar o Fundo Monetário
Internacional e o Banco Mundial. Estamos trabalhando, através
de um grupo de economistas, políticos e sociólogos
para ver quais são as alternativas frente a esta globalização.
O Fórum Social Mundial é uma instância em
que, os povos tratam de procurar caminhos alternativos a este
neoliberalismo, à globalização, que está
globalizando a pobreza, a exclusão social e a dependência.
Estamos perdendo a soberania de nossos povos. E o Fórum
é uma reação legítima dos povos de
unirmo-nos e pensarmos nas mudanças que nossos países
necessitam. Para isso há a necessidade de unidade, tanto
em nível latino-americano quanto em outros países
que estão passando pela mesma situação, na
África, Ásia, Oceania, ou mesmos países centrais
como Europa, Estados Unidos e Canadá.
| "O
Fórum Social Mundial é uma instância
em que, os povos tratam de procurar caminhos alternativos
a este neoliberalismo, à globalização,
que está globalizando a pobreza, a exclusão
social e a dependência." |
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EC
Dentro disso, qual a importância de um evento como o Fórum
Social Mundial?
Esquivel O Fórum Social Mundial é uma
instância de reflexão, de intercâmbio de experiências
e de ir gerando um pensamento próprio para superar o pensamento
único, que hoje nos impõe o modelo neoliberal, sistema
de exclusão social, de pobreza, de destruição
das identidades culturais, e da possibilidade de desenvolvimento
de nossos países. O Fórum Social Mundial permite
gerar um pensamento próprio, fortalecer as identidades
e trabalhar sobre os distintos âmbitos da cultura, da educação,
da economia, da política e ver quais são as alternativas
sociais para melhorar a vida dos povos. Com relação
à paz, neste sistema de desenvolvimento, sem um pensamento
próprio, nem liberdade, ela não é possível.
O pensamento único é a dominação e
nunca a paz se pôde construir sobre a dominação,
mas, sim, sobre a libertação, sobre o sentido da
consciência crítica e sobre a construção
de novas condições de vida. Muitas vezes se confunde
a paz com a passividade, mas não tem absolutamente nada
que ver. Ela é uma dinâmica permanente de vida, de
relações humanas, de construção da
consciência coletiva. A paz não significa a ausência
de conflitos, mas relações humanas entre as pessoas
e os povos. Esperamos que sigamos consolidando essas instâncias
e para isso continuamos a luta.
EC Como foi sua participação no Fórum
Social Mundial?
Esquivel Participei de várias atividades. Uma
foi o Tribunal da Dívida Externa, ou da dívida eterna,
também um fórum sobre a situação do
país Basco. Fui mediador, durante um ano e meio, entre
a ETA e o governo espanhol. Outra palestra foi com a Associação
Americana de Juristas, sobre os problemas da globalização
e a criminalização dos conflitos sociais, que trata
de quando as pessoas reclamam seus direitos e são reprimidos,
presos e violentados. Então, o que acontece com o direito
dos povos, os próprios direitos humanos? Depois fiz outra
palestra sobre os direitos econômicos, sociais e culturais,
como direitos humanos.
EC Como está a situação do País
Basco?
Esquivel Neste momento, mal, porque o governo de Aznar
não quer saber de uma solução política.
Aponta mais para uma solução policial e isso tem
piorado muito a situação no País Basco. Temos
feito também algumas propostas, mas o governo espanhol
está sem nenhum tipo de mediação. E, logicamente,
quando uma das partes diz que não, deixa de haver diálogo.
EC Conte um pouco sobre seu trabalho como mediador entre
o ETA e governo espanhol.
Esquivel Fizemos muitos esforços até
ver a possibilidade de fazer uma mesa, não ainda de diálogo,
mas para acordos de diálogo, de poder ver como se podia
articular uma agenda de trabalho. Mas era um outro momento, em
que Felipe ainda era chefe de governo da Espanha. Quando Aznar
sobe ao governo, corta todo o tipo de mediação e,
além disso, queríamos que todo o trabalho que havíamos
realizado continuasse no mais absoluto segredo, porque pensamos
que a melhor forma de trabalhar em uma mediação
é a discrição, não a publicidade,
que não ajuda nesses casos. Mas o governo espanhol tornou
público o nosso trabalho. Justamente como o fez, depois,
em outra oportunidade, e em outras tentativas que houve para encontrar
uma solução política ao conflito basco. Bom,
fizemos muitos encontros, muitas viagens, encontros com as duas
partes separadamente, havia grupos do ETA em Santo Domingo que
ficaram autorizados a fazer negociações com o governo
espanhol. Depois, houve outras tentativas, com encontros na França
e Itália, e em outros países, um esforço
grande e, além disso, durante as negociações,
aconteceram atentados do ETA muito duros, como o assassinato do
catedrático Francisco Valiente, na universidade, e isso
foi muito difícil...
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| "A
mediação é a abertura de uma instância
de diálogo, mas o conflito não termina.
Tem que tratar de chegar a acordos para baixar a intensidade
dos conflitos e, quem sabe, chegar a tréguas." |
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EC
O assassinato aconteceu num momento importante das negociações...
Esquivel Apesar disso, seguimos a mediação.
A mediação é a abertura de uma instância
de diálogo, mas o conflito não termina. Tem que
tratar de chegar a acordos para baixar a intensidade dos conflitos
e, quem sabe, chegar a tréguas. O ETA deu uma trégua
de 15 meses, mas o governo espanhol a quebrou. Agora, bom, estão
nascendo outras tentativas por outros canais, dever se é
possível uma solução.
EC Este tipo de trabalho é feito em outras zonas
de conflito?
Esquivel Há mediações em, por
exemplo, El Salvador e na Guatemala, em vários países.
São tentativas de poder se chegar a soluções
políticas. Algumas têm mais êxito que outras,
como no caso de El Salvador. Agora, na Guatemala, onde estive
há pouco tempo, os acordos de paz estão paralisados,
não avançaram. Bom, tudo isso são etapas
do processo dos povos, que se tem que ir seguindo, para avançar,
mesmo que lentamente. Também é importante que, em
tudo isso, não se ignore que as negociações
têm sido feitas nas cúpulas, esquecendo as situações
dos povos. O povo tem que ser protagonista, e não espectador
dessas decisões. Pelo menos é o que nós sempre
propomos.
EC O senhor acredita que um mundo sem guerras é
realmente possível?
Esquivel Talvez não nos termos ideais, mas tratando
de se chegar às soluções dos conflitos através
do diálogo é possível, por exemplo, um entendimento
melhor. Nisso, é importante o papel das Nações
Unidas, para se evitar o que está passando com os Estados
Unidos que, depois do 11 de setembro, desconheceram o tribunal
penal internacional e formaram um tribunal militar.
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