A calle
Florida é do povo
Jéferson
Assumção
De Buenos Aires especial
para o Extra Classe
Desde dezembro
de 2001, os panelaços, que aconteceram quase diariamente
na Argentina, foram derrubando um a um os presidentes que tentavam,
com característico populismo, aplacar o fogo do povo.
Acabaram chamuscados, apagados e humilhados como o restante
dos políticos do país, enquanto, de maneira surpreendente,
os argentinos protagonizam uma história de muito alarido
e politização à força, nas ruas.
Acuados, questionados até às raízes em
seu papel, os políticos argentinos são agora uma
espécie de párias da sociedade, excluídos
do convívio por incompetência (desemprego em 22%),
acusados de desonestidade (descobertas de desvios bilionários).
Há poucas semanas, o ex-presidente peronista Carlos Menen
declarou a um jornal de Buenos Aires, o Clarín, aquilo
que é a tônica da relação classe
política versus sociedade civil argentina. Disse que
nenhum político argentino pode andar em paz nas ruas
do país. E mais: O que mais me entristece é
não poder caminhar pela rua Florida. A mensagem
argentina à sua classe representativa é: a calle
Florida é do povo e de quem merece caminhar por ela.
É um povo um tanto diferente do restante da América
Latina. Como conta o jornalista e escritor Pierre Kalfon,
no jornal le Monde Diplomatique, foi a partir de 1879 que vieram
as grandes ondas de imigrantes da Europa, de países como
Itália, Espanha, França, Rússia e Polônia,
além de Síria e Líbano. Se, em 1850, a
população da Argentina era de 800 mil pessoas,
em 1914 já eram oito milhões. Um em cada três
argentinos era estrangeiro e, em Buenos Aires, de cada dois
argentinos, um tinha nascido fora. E na Europa. Portanto, nada
mais normal que aquela cultura aportasse com tanta força
em Buenos Aires.
| Reuters |
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Protestos
diários na Argentina impediram a classe política
de sair às ruas
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Em pouco
tempo, a Argentina já tinha os melhores índices
de prosperidade e alfabetização do continente.
A primeira boa fase termina com a crise mundial de 1929, mas
a economia só foi reativada com a Segunda Guerra, quando
surge a lendária figura de Juan Domingo Perón.
Populista, sua popularidade cresceu tanto, e em tão pouco
tempo, que os militares o despacharam do poder. No mítico
17 de outubro de 1945, no entanto, os pobres dos bairros tomaram
Buenos Aires num dia de tal calor que tiraram as camisas. São
os descamisados que, com seu ato, fundaram o maior símbolo
da política argentina, que resiste até hoje: o
peronismo. Um ano depois, Perón estava eleito e, em 1955,
de novo, num período de muita prosperidade. Mas a política
interna fica crítica e Perón foge. Voltará
só em 1973.
De 1976 a 1983, os anos de chumbo matariam 30 mil
pessoas no país do Prata (a longa ditadura brasileira
matou três mil). Milhares de intelectuais deixariam o
país. Em 1982, mais um golpe: a Guerra das Malvinas,
fracassada e inútil, contra a poderosa Inglaterra, só
deixaria um saldo positivo. Os militares, humilhados, abandonariam,
de cabeça baixa, o poder. Raúl Alfonsin, do Partido
Radical, é presidente, sucedido pelo peronista Carlos
Menen (atualmente acusado de desviar US$ 40 milhões das
privatizações). Em seu governo, a dívida
externa duplicou e, ao anunciar que a Argentina tinha entrado
para o Primeiro Mundo, levou o país a viver uma abundância
fictícia. Sucedeu-o Fernando de La Rúa, que teve
de deixar o poder sob o terremoto provocado pelo povo, em dezembro
de 2001.
As trapalhadas políticas não são de hoje.
Bem antes de entrar de cabeça no neoliberalismo, os governos
argentinos já haviam tomado decisões políticas
que, certamente, contribuem para o atual estágio da crise.
Um exemplo claro disso vem do presidente do Comitê pelo
Cancelamento da Dívida Externa dos Países do Terceiro
Mundo, Éric Toussaint. Segundo ele, em 1914, durante
a revolução liderada por Emiliano Zapata e Pancho
Villa, o México suspendeu totalmente o pagamento de sua
dívida externa. Até 1942, pagou apenas quantias
simbólicas. Outros países, como o Brasil,
a Bolívia e o Equador também suspenderam (total
ou parcialmente) os pagamentos a partir de 1931. No caso do
Brasil, essa pausa seletiva nos pagamentos se estendeu até
1943, ano em que foi negociado um acordo que permitiu reduzir
a dívida em 30%. O Equador, por seu lado, manteria os
pagamentos suspensos de 1931 até a década de 50,
escreve Toussaint em Le Monde Diplomatique. Durante a década
de 30, 14 países suspenderam os pagamentos da dívida.
Mas entre os grandes devedores, só a Argentina manteve
os pagamentos sem interrupção... Como se vê,
o calote argentino está mais de meio século atrasado.
A riqueza argentina, real em alguns momentos, fictícia
em outros, levou seus governantes a muitos equívocos
e teve sérias conseqüências que se refletem
até hoje. Mais recentemente, os remédios do neoliberalismo
mostraram-se fatais ao país. O lépido Domingo
Cavallo, ministro da Economia desde o regime militar, introduziu
o sistema de duas moedas, com peso e dólar, e espalhou
a galope, do Pampa à Terra do Fogo, as reformas neoliberais:
privatização, desregulamentação
da economia, abertura do mercado etc, que levaram a Argentina
ao fundo do poço. Por falar nisso, um outro jornal de
Buenos Aires afirmou, numa clara referência ao Brasil,
que uma coisa é cair no poço, outra é sempre
ter vivido lá. De qualquer forma, pelo menos os argentinos
se deram conta, com a crise, de que as chances de saírem
do buraco são mínimas sem que as pessoas resolvam,
como nas ruas de Buenos Aires, assumir seu lugar na história.