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Coqueiros, vitórias-régias e tamanduás
Nei
Lisboa
Cruzei
o luto de seis meses das torres gêmeas lendo o 11
de setembro, do Noam Chomsky, coletânea de entrevistas
do dito nas primeiras semanas pós-hecatombe. Como já
conhecia o posicionamento dele, e me julgava mais do que ciente
do papel imperialista dos EUA nos últimos séculos,
achei que nada ali iria me impressionar ou surpreender muito.
Ledo engano. Chomsky parece dedicar-se não apenas a pensar
com coragem e com clareza mas também a colecionar fatos,
dados estatísticos, retóricas e atitudes alheias
que lhe permitem embasar uma argumentação de forma
cristalina e virtualmente irreparável. Qualidade preciosa,
imagino, para quem se vê bombardeado pelo neoufanismo cego
do debate mediático e intelectual norte-americano.
Aprecio muito no discurso dele a intenção explícita
de que algo resulte, o dom militante, embora de aparência
desapaixonada, equilibrado e carinhosamente implacável.
Parece centrar-se em um fundamento bem simples, o de que boa parte
das questões da espécie humana estariam bem encaminhadas
se os norte-americanos refletissem seriamente sobre por que, afinal
de contas, são tão odiados na Via Láctea.
Nada é impossível, parece murmurar para si, enquanto
ordena pacientemente as idéias, luzes e espelhos voltados
para a platéia.
Gosto de pesar opiniões contrárias, também,
outros ângulos sob os quais é visto esse sentimento
antiamericano disseminado mundo afora. Fã da psicanálise
que sou, li com o maior respeito os artigos do Contardo Calligaris
na Folha de S. Paulo, desvendando a patologia inerente ao fundamentalismo
muçulmano, uma abordagem que talvez possa ser transposta
para o resto do terceiro mundo. Posso aceitar até certo
ponto e valorizar a idéia de que a sociedade norte-americana
muito nos tenha ensinado a respeito de liberdades civis. Posso
até entender a histeria do Gerald Thomas, com o prato encalhado
no meu país, meu país, vagando entre
os escombros do WTC.
O que não posso é descartar a lista de invasões,
intervenções e bombardeios discricionários
dos EUA ao redor do mundo, desde a conquista do México,
Havaí e Filipinas, do Vietnã ao Iraque, da Nicarágua
ao Sudão, Síria, Cuba, Afeganistão. Os EUA,
como bem define Chomsky, sempre foram líderes do terrorismo
de estado, apoiando governos ditatoriais na Argélia, Timor
Leste, Grécia, Turquia, patrocinando golpes de estado por
toda a América Latina, produzindo milhões de mortos
nesse processo, sempre em prol de seus interesses econômicos
e nada mais. Os EUA, lembra ele, foram o único país
a ser condenado pela Corte Mundial por uso ilegal da força,
em 1986. Ao desdenharem solenemente da sentença, prosseguindo
com a matança na Nicarágua, o Conselho de Segurança
da ONU passou a discutir uma resolução determinando
aos Estados que observassem as leis internacionais. Os EUA, e
tão-somente eles, vetaram a resolução.
Sei que o radicalismo cego, nos trópicos, às vezes
confunde coqueiros, vitórias-régias e tamanduás.
Mas com quatro enormes patas, dois orelhões, uma tromba
e um enorme coldre amarrado na cintura, estamos definitivamente
falando de um elefante, e de um elefante muito perigoso.
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