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Estranho
País
Luis
Fernando Verissimo
O
Rio Grande do Sul, como se sabe, é um país que fica
entre o Uruguai, a Argentina e o Brasil. Sua língua é
um português engraçado, que os brasileiros não
conseguem dominar. Já foram feitas várias novelas
ambientadas no Rio Grande do Sul, com atores brasileiros, e a
pronúncia foi sempre um problema. Ou ficava caricata demais,
ou acabava sendo uma mistura de gaúcho (o idioma local)
com brasileiro. Há pouco uma escola de samba do Rio quis
homenagear o país vizinho e baseou seu enredo em Porto
Alegre, sua capital. Foi uma homenagem bonita e simpática,
mas só mostrou como o Rio Grande do Sul continua sendo
um mistério para o Brasil. Se o Rio Grande fosse do extremo
Sul, e ficasse na Terra do Fogo, a estranheza se justificaria.
Mas não, é um país limítrofe. Fica
ao lado de Santa Catarina, a uma hora e pouco de avião
do Rio. Mesmo assim o mistério continua.
O fato é que o Rio Grande do Sul sempre foi difícil
de entender. Sua política, por exemplo. Quando era um país
totalmente agropastoril já tinha produzido lideranças
progressistas, ou no mínimo liberais. Antes da industrialização
marcar claramente a ascensão da zona colonial sobre a zona
da economia campeira tradicional já existia um movimento
trabalhista importante no país. Saído de onde? O
Rio Grande do Sul sempre desafiou teorias. E apesar dos paradoxos,
ou por causa deles, a política local influenciou a política
do grande vizinho do Norte. O Rio Grande do Sul, inclusive, já
invadiu o Brasil, e muitos políticos gaúchos - sem
falar em generais - tiveram papel destacado na sua História.
Mas nem assim a incompreensão acabou.
Agora mesmo, viajantes que chegam ao Brasil do Rio Grande do Sul
trazem relatos conflitantes. Desde que surpreendeu de novo e elegeu
um governador do PT (que ganhou, segundo algumas interpretações,
porque seu bigode era mais autêntico do que o do adversário),
o Rio Grande do Sul, de acordo com quem conta, se transformou
no segundo país comunista da América, um país
em ruínas onde a oposição é acuada,
a imprensa é perseguida e a crítica é calada
e investidores estrangeiros são corridos a chicotaços
para a Bahia, ou um país que, pelo menos comparado com
o Brasil, não vai tão mal, apesar de uma oposição
intransigente, uma imprensa contra e uma reação
raivosa.
Qual é a verdade, quer saber o Brasil. Mistério.
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