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O grande
mistério
Luis
Fernando Verissimo
A
morte do Aloysio Biondi foi uma baixa na resistência ao
Pensamento Único. Já são poucos na barricada
e alguns ainda nos morrem!
Os textos
de Biondi eram desafios constantes aos leigos em economia, não
porque fossem obscuros ou técnicos demais pelo contrário,
eram límpidos e admiravelmente bem escritos , mas
porque aprofundavam o grande mistério: como os mesmos dados
da mesma realidade podem mudar tão radicalmente de significado
de acordo com quem os analisa? Biondi e os outros, poucos, apóstatas
do PU descrevem um desastre em andamento onde o PU insiste que
há um jardim germinando. Usando os mesmos números.
Se não
é um problema de visão conveniente (só enxergar
o que queremos ver), de filosofia (só enxergar o que não
nos desmente) ou de caráter (só enxergar o que nos
encomendaram), a diferença de interpretações
é um mistério. Culpa da natureza da matéria
Economia, que não é intuição disfarçada
por um jargão mas também não é uma
ciência exata. Os leigos não entendem como pode haver
escolas antagônicas de análise econômica, como
se pudesse haver maneiras opostas de se somar 2 e 2. Entendem
menos ainda quando a análise diz uma coisa e os fatos à
sua volta dizem outra, e as interpretações mentirosas
é que prevalecem e determinam a verdade indiscutível
do dia, como no Brasil. Biondi era um craque em discutir verdades
entre aspas.
No fim, o
mistério tem a ver com uma história que eu gosto
de repetir, a do ator que errou a entonação. Um
figurante cuja única participação na peça
era entrar em cena durante uma bacanal, jogar as mãos para
o alto, escandalizado, e dizer Mas isto é Bizâncio!
Um dia o ator bebeu demais, entrou em cena na hora certa e disse
a sua fala, Mas isto é Bizâncio!
esfregando as mãos. Enfim, que isto aqui é uma bacanal
todos estamos de acordo, mas muitos estão esfregando as
mãos porque não querem outra coisa. Biondi era dos
poucos que diziam que estamos em Bizâncio no pior sentido.
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