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Quais as
competências para operar em ciclos de aprendizagem plurianuais?
A
professora e pesquisadora Monica Gather Thurler estará
em Porto Alegre nos dias 17 e 18 de agosto para o Seminário
Internacional As Competências para Ensinar no Século
21, na PUC/RS, com apoio do Sinpro/RS.
Monica Gather Thurler
O
ciclo de aprendizagem é visto em geral como uma etapa da
escolaridade de pelo menos dois anos escolares, idealmente de
três ou quatro. Os alunos que ingressam no ciclo o percorrem
juntos, sob a responsabilidade dos mesmos professores. Os percursos
de formação são individualizados, mas não
há repetência nem qualquer seleção
ou certificado durante o ciclo. A avaliação é
formativa; ela permite comandar as aprendizagens e os percursos
de formação de modo que todos os alunos atinjam
os objetivos de final de ciclo, conhecimentos e competências.
Vamos considerar aqui a hipótese mais interessante do ponto
de vista da luta contra o fracasso escolar, mas também
a mais exigente: ciclos longos (3-4 anos) confiados a verdadeiras
equipes pedagógicas, sendo os professores co-responsáveis
pelo conjunto do percurso. É então que lhes faltam
novas competências.
Os desafios
À medida que se confiam os ciclos de aprendizagem a equipes
pedagógicas, é importante permitir-lhes uma grande
autonomia em matéria de organização do trabalho
e de escolha de métodos pedagógicos. Sua única
obrigação é levar os alunos a atingirem os
objetivos de final de ciclo visados. Essa autonomia, símbolo
de profissionalismo, tem um custo: ela obriga os professores a
responder coletivamente pela eficácia de sua ação.
Os defensores dos ciclos assim definidos apostam que esse modo
de organização da escola contribui a médio
ou a longo prazos para assegurar um melhor resultado de todos
os alunos. Contudo, essa evolução não é
uma garantia, pois é plenamente possível que os
professores participantes dessas equipes adaptem-se aos ciclos
de aprendizagem como se adaptaram no passado às inúmeras
renovações, respeitando as características
mais formais, porém sem transformar verdadeiramente suas
práticas. As experiências de países pioneiros
mostram-nos, de fato, como é fácil reduzir os ciclos
a simples medidas estruturais, que consistem em prolongar a duração
da aprendizagem em um ou dois, ou mesmo três anos, em fazer
alguns retoques nos planos de estudos e em modernizar um pouco
os métodos de avaliação para lhes dar uma
aparência mais formativa. É possível também
operar como uma pseudo-equipe, cada um tratando se encontrar rapidamente
"seus" alunos, seu espaço de trabalho pessoal
e protegido.
É fácil apontar as razões pelas quais as
inovações abortam quando não são animadas
pelos atores. Mais difícil é evitar esse desvio.
O mais grave seria subestimar a amplitude das mudanças.
Os ciclos de aprendizagem colocam novos desafios aos professores
que aí trabalham: reinventar sua escola enquanto local
de trabalho, mas também reinventar a si mesmos enquanto
pessoas e membros de uma profissão. Em face de novas condições
profissionais conceituais, práticas e psicossociológicas,
eles devem progressivamente construir(se) uma nova identidade,
fundada no desenvolvimento de um conjunto de novas posturas e
competências profissionais.
Uma das mudanças que suscita mais resistência nesse
ofício individualista é não ser mais o único
responsável por um grupo de alunos, como é o caso
na divisão tradicional de tarefas e de responsabilidades
nos estabelecimentos escolares. Em sua maioria, os professores,
instintivamente, preferem ser os responsáveis individuais
por uma pequena parte do percurso de formação, um
ano escolar, eventualmente em uma única disciplina. Eles
temem assumir coletivamente, durante muitos anos, o acompanhamento
dos alunos que lhe são confiados no quadro do ciclo e compartilhar
com seus colegas de equipe a responsabilidade de empreender todos
os esforços para ajudá-los a obter êxito.
Contudo, a responsabilidade coletiva não se limita a esta
obrigação "de resultados" de final de
percurso. Ela é exercida no cotidiano por meio do conjunto
de decisões tomadas pela equipe, das ações
que ela empreende, dos meios que mobiliza ao longo da duração
do ciclo para oferecer a seus alunos condições de
aprendizagem ótimas.
Isto será alcançado de forma mais eficaz à
medida que ela for capaz de empregar e, em caso de necessidade,
de construir competências que, sem ser radicalmente novas,
tornem-se indispensáveis para comandar a progressão
dos alunos:
- cooperar dentro de uma equipe;
- traduzir os objetivos de final de ciclo em dispositivos
de aprendizagem;
- observar e gerir a progressão dos alunos;
- desenvolver uma organização do trabalho
ágil e flexível;
- dosar os desafios em função das competências;
- envolver-se em uma exploração cooperativa.
Cooperar
dentro de uma equipe
Os professores que trabalham nos ciclos não podem limitar-se
a empregar métodos, estruturas e procedimentos impostos
por instâncias externas (autoridades, formadores, etc.).
Para trabalhar em ciclos, eles deverão permanentemente
pôr em questão e reinventar não apenas suas
práticas pedagógicas, mas também a organização
do trabalho dentro de sua escola. Trata-se de criar dentro dos
ciclos uma nova cultura que reorganize as relações
de poder no sentido anglo-saxão de empowerment, isto é,
uma cultura que represente a antítese da burocracia e da
visão hierárquica, que afirme o valor do acordo,
da participação, da abertura e da flexibilidade.
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