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Recicladores
querem reconhecimento profissional

Identificados pela maioria das pessoas como catadores de lixo
e papeleiros, os recicladores de lixo que perambulam pelas ruas
das grandes cidades exercem papel importante no reaproveitamento
dos resíduos deixados quotidianamente pela sociedade contemporânea.
Conscientes de sua importância, eles estão se organizando.
Em junho, 1.600 recicladores de 17 estados reuniram-se em congresso
em Brasília.
Marcia Camarano
É um
mercado de trabalho que cresce a cada dia. A profissão
não é regulamentada, mas em todo o Brasil os recicladores
de resíduos ou simplesmente catadores de lixo passam a
se organizar, a fim de serem reconhecidos como categoria profissional.
Para tanto, promoveram, em junho, um congresso em Brasília
reunindo cerca de 1.600 representantes de 17 estados brasileiros.
Não queremos ser enquadrados pelas regras da CLT
(Consolidação das Leis Trabalhistas), mas estamos
na mesma modalidade dos pequenos agricultores e artesãos.
É uma forma de profissão alternativa, diz
Alexandre Camboim, eleito no congresso para a Comissão
Pró-Coordenação Nacional de Recicladores
e membro da Federação das Associações
de Recicladores de Resíduos Sólidos do Rio Grande
do Sul, fundada em outubro de 1998.
O desemprego, a falta de qualificação profissional
e de perspectivas faz com que aumente nas ruas o número
de pessoas que vivam de catar e separar lixo numa proporção
tão grande que hoje é difícil dizer exatamente
quantos indivíduos ou famílias inteiras vivem disso
no país. Em Porto Alegre, onde essa atividade é
acompanhada pela prefeitura há 11 anos, o diretor-geral
do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), Darci Campani,
informa que atualmente 550 pessoas trabalham nas unidades de triagem,
ou galpões, e em torno de dois mil carrinheiros circulam
pelas ruas coletando material reciclável.
Não sei quantas indústrias em Porto Alegre
conseguem empregar 550 pessoas e servir de fonte de trabalho para
mais duas mil, observa Campani, considerando que esse realmente
é um mercado de trabalho que pode ser bastante rentável,
dentro de uma política de geração de emprego.
Em Porto Alegre, o poder executivo desenvolve um trabalho que
busca agregar socialmente quem trabalha com o lixo. Não
se trata apenas de uma questão ambiental, mas também
social, afirma o diretor.
Os resultados do congresso de Brasília apontam para uma
organização maior e também para mais independência
em relação aos órgãos públicos
e às empresas privadas, a fim de que atividade se torne
auto-gestionária e associativa. Não queremos
depender dos atravessadores nem dos governos. Queremos independência,
porque reciclagem é um serviço que se destina ao
bem comum, destaca Alexandre Camboim. A bandeira de luta
dos recicladores passa a ser o reconhecimento profissional da
atividade. Para tanto, a entidade embrionária terá
a difícil tarefa de organizar os catadores como categoria,
porque a maior parte das pessoas que vive disso também
é morador de rua.
Queremos que eles se organizem em associações
para que possam ter o controle do lixo e não os empresários,
como acontece agora. A Federação gaúcha
dos recicladores aponta que 90% do trabalho são gastos
com a triagem do lixo, desde a coleta na rua até o lixo
selecionado nos galpões. Essa é a parte que
mais dá trabalho e a menos remunerada, que é o beneficiamento.
As empresas, que têm a estrutura, fazem os outros 10%. São
os atravessadores, eles é que ficam com o dinheiro, que
agregam a maior parte do valor.
Alexandre informa que os recicladores estão se organizando
para fazer sua própria usina de plástico para não
ter de depender mais dos atravessadores. Somos contra a
privatização do lixo, esse é outro ponto
aprovado no congresso: não à privatização
e à importação; pelo beneficiamento do lixo.
Segundo ele, hoje um elemento de estratégia do catador,
para ter o controle do lixo, é também reciclar efetivamente
o material, tirando a matéria-prima do atravessador e entrando,
efetivamente, na cadeia produtiva.
Estamos trabalhando para sermos reconhecidos como profissão,
tanto no sentido jurídico quanto de valorização
como cidadão, porque o catador é visto e tratado
como o próprio lixo, constata. Para atingir esse
objetivo, ele observa que o segmento não está isolado,
pois
pretende conquistar o apoio e trabalhar junto com outras categorias
profissionais e o movimento popular.
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Para
aumentar o índice de reciclagem Código de
Limpeza teve de ser mudado
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Talvez seja
difícil para alguns enxergar no puxador de carrinho que
passa na rua um trabalhador como qualquer outro que tira dali
o sustento dele e de uma família inteira. Pode ser um trabalhador
com mais dificuldades que os demais, morando em subabitações
ou até mesmo nas ruas, mal vestido, mal alimentado, muitos
são alcoolistas, que entregam seu trabalho em troca de
bebida. Mas, sim, são trabalhadores e não mendigos.
Suas lideranças sabem que não é tarefa fácil
organizar uma camada social à beira da marginalidade.
Há um mês foi formado um grupo de trabalho envolvendo
o DMLU, Secretaria Municipal de Produção, Indústria
e Comércio, Fundação de Assistência
Social (Fasc), mais as secretarias de Educação e
de Saúde, junto com a Federação dos Recicladores,
que fará um trabalho específico com as pessoas que
ainda não trabalham em galpões de reciclagem. Em
julho, 40 pessoas já foram agregadas no galpão da
Lomba do Pinheiro, iniciando um trabalho com renda garantida.
Hilma Klein Cardoso, da Coordenação da Federação
Gaúcha, lembra que a necessidade de organizar e resgatar
a auto-estima das pessoas que tiram seu sustento do lixo começou
em 1983, em São Paulo, com a participação
de lideranças ligadas às Comunidades Eclesiais de
Base. Em Porto Alegre, esse embrião chegou três anos
mais tarde, na Ilha dos Marinheiros.
No Rio Grande do Sul, o movimento começou com força.
Os puxadores de carrinho não tinham organização
e não tinham nada, o que nos levou a organizar o trabalho,
recorda Hilma. Atualmente, em Porto Alegre, são nove associações
de catadores: Aterro da Zona Norte, Vila Dique, Cavalhada, Restinga,
Campo da Tuca (que trabalha com menores de rua), Vila Pinto, Rubem
Berta, Associação dos Carrinheiros e dos Papeleiros
da Vila Farrapos. No estado, a Federação atinge,
até o momento, 55 entidades e há ainda outras que
estão surgindo.
Cada lugar tem suas necessidades e especificidades. No Campo da
Tuca, por exemplo, era preciso tirar as crianças da rua
e ocupá-las. Elas agora estudam em um turno, reciclam no
outro e ainda fazem trabalhos artesanais. Para Hilma, o congresso
foi apenas um passo para uma jornada longa e difícil, que
é organizar uma categoria pelo Brasil afora. Mas não
falta vontade. A gente percebeu isso quando, em Belo Horizonte,
fizeram o 1º Encontro Nacional de Reciclagem. Fomos informados
em cima da hora, mas mesmo assim, fomos até lá.
Os temas eram muito técnicos, começamos a questionar
e percebemos que nossos interesses não estavam contemplados
ali. Mas foi nessa situação que começou a
ser gestado o Movimento Nacional de Recicladores.
Para o futuro, a humanidade tem duas alternativas. Pode reduzir
o lixo, mas essa proposta, conforme Darci Campani, contém
limites, pois implica em redução drástica
do material que é posto fora, o que envolve educação
e, principalmente, a modificação radical de hábitos
culturais e de consumo. Portanto, a alternativa mais viável
hoje é a reciclagem. Estamos atrasados nesse tema.
Deveria haver uma legislação que obrigasse a que
todo o material comercializado fosse destinado para a indústria
de reciclagem.
Já que não existe lei, a Prefeitura se antecipa
e disponibiliza os resíduos recicláveis para os
galpões e faz um trabalho de convencimento da população
de que é preciso reciclar. Porto Alegre é conhecida
atualmente como a capital que mais recicla no Brasil. Só
a coleta seletiva feita nas unidades recicla 60 toneladas por
dia. O material informal, que vem da rua, fornece outras 200 toneladas
por dia.
Poderíamos coletar 300 toneladas, mas falta um pouco
mais de conhecimento sobre a importância desse trabalho,
diz Campani. Embora mais da metade da população
porto-alegrense apóie e faça a separação
do lixo, muitas pessoas ainda não se sensibilizaram com
a proposta.
Para chegar às 300 toneladas, a Prefeitura enviou para
a Câmara de Vereadores um projeto que reformula o Código
de Limpeza Urbana que, entre outras coisas, amplia a multa para
quem não separa o lixo. Hoje, quem não faz
coleta seletiva recebe uma multa de R$ 20,00 a R$ 30,00 e queremos
ampliar o valor para R$ 40,00 ou R$ 50,00 num primeiro momento.
O Movimento dos Catadores de Materiais Recicláveis realizou
manifestação no dia 27 de julho, no lançamento
do novo projeto de galpões de reciclagem com parceria de
empresas privadas ocorrido na Fundacentro (órgão
ligado ao governo federal), em Porto Alegre. O movimento posicionou-se
contra a privatização do setor e voltou a reivindicar
o reconhecimento da categoria.
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