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Consolemo-nos
Luis
Fernando Verissimo
O
cinema americano nos educou mal. Não se sabe quantas mãos
quebradas se devem à ilusão de que brigar a socos
era como aparecia nos filmes - sem falar na decepção
porque o som de punho contra queixo não era nada como no
cinema. Nos criamos com a perigosa desinformação
de que basta um golpe bem dado na cabeça para deixar alguém
desacordado. Se funcionava com milhares de sentinelas nazistas
distraídos, por que não seria verdade? Alguns exemplos
não pegaram. Nunca vi ninguém real olhar com perplexidade
para o telefone depois de uma chamada não compreendida
ou inexplicavelmente interrompida. E algumas coisas aprendemos
sozinhos: mesmo antes do beijo de língua chegar aos filmes
de Hollywood, sabíamos que beijar de verdade não
era como eles mostravam.
Também ficamos mal acostumados com o processo jurídico
americano, como o retrata o cinema. Com o tempo mínimo
entre um crime e seu julgamento, com a informalidade - comparada
com a ritualística brasileira - dos tribunais e seus procedimentos,
com sua agilidade e eficiência e, claro, seu conteúdo
dramático superior. Muito da impaciência com a Justiça
brasileira vem de um excesso de filmes "de tribunal"
americanos, onde tudo parece ser tão mais prático
e rápido. Na verdade, a Justiça americana é
mais ágil do que a brasileira e mais racional nos seus
trâmites, mas não se deve confiar demais no cinema.
Se aqui a Justiça pode ser injusta pela lerdeza e o formalismo,
nos Estados Unidos ela pode ser injusta pelas razões contrárias,
com a agravante de que em muitos Estados a injustiça inclui
o risco de uma condenação à morte. Nunca
é demais lembrar que as instâncias e recursos que,
no Brasil, às vezes dão a impressão de assegurarem
a impunidade existem para proteger o cidadão das ameaças
de uma Justiça imediatista. Melhor os Estevãos e
Lalaus soltos do que qualquer tipo de vigilantismo jurídico.
O que não quer dizer que os trâmites não precisem
de uma apressada geral.
Consolemo-nos com a conclusão de que não somos tão
piores do que os outros. O PMDB e o Banco Central precisam, sim,
explicar como um Jader Barbalho chegou à presidência
do Senado, com tudo que já se sabia dele, mas os Jader
Barbalhos não são exclusividades brasileiras - por
mais que gostemos de pensar, até com uma certa faceirice,
que ninguém é mais corrupto do que a gente. O Jader
Barbalho da Itália, por exemplo, foi mais longe do que
o nosso: chegou a primeiro-ministro.
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