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Dólar
é moeda falsa!
| José
Walter Bautista Vidal é um cientista, engenheiro nascido
na Bahia e formado em Santiago de Compostela na Espanha, na
Bahia e em Stanford, nos Estados Unidos. Foi por três
vezes Secretário de Tecnologia Industrial e encabeçou
a implantação do Pro-álcool. Ele é
conhecido como um físico pós maxista,
pois para ele o fator determinante é energético
e não financeiro. É autor, entre outros, de
A Reconquista do Brasil, RJ, 1997, Editora Espaço
e Tempo e co-autor de Poder dos Trópicos,
SP, 1998, Editora Casa Amarela.Segundo ele, a humanidade enfrenta
situação das mais difíceis de sua história
com o ocaso dos combustíveis fósseis e as conseqüências
ambientais decorrentes da queima descontrolada desses combustíveis.
As atuais nações hegemônicas, |
Fotos:
Marcos Muzzi/
Revista Caros Amigos

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todas situadas
em regiões temperadas e frias do planeta e, por isso, carentes
de energia limpa e permanente, basearam seus projetos de poder e
desenvolvimento no uso extensivo desses combustíveis, carvão
mineral e petróleo.
César Fraga
Extra
Classe Em seus textos e declarações, predomina
o ponto de vista de que a questão energética precede
à questão do capital. Em outras palavras, a questão
energética é que é determinante e não
a financeira. O senhor poderia explicar isso para os nossos leitores?
Bautista Vidal A energia precede o trabalho. Não
há trabalho sem energia. Mesmo o capital sendo resultante
da ação do trabalho, a tudo isso precede a energia.
A energia está na origem de todas as transformações
e de todos os movimentos. Não se pode pensar em transformar
rochas e pedras em metais ou computadores sem a energia... Então
o ente físico mais importante no processo da produção
de bens, dos fatos econômicos e não-econômicos
é a energia. Ela até mesmo transcende a tudo isso
, pois é ela que mantém o cosmos em equilíbrio
e funcionamento, principalmente se você acrescentar a isso
o conceito de Einstein de que a matéria nada mais é
do que energia concentrada. Já o capital é uma forma
simbólica de representar bens materiais por meio de símbolos,
que são as moedas, que nada mais são do que uma
representação dos bens da natureza, ou pelo menos
deveriam ser.
EC Seria correto dizer que as disputas internacionais
estão diretamente relacionadas à questão
energética?
Bautista Vidal Hoje o mundo vive em um sistema monetário
deteriorado em que a moeda não representa mais a riqueza
natural do mundo. A moeda de referência é o Dólar,
que é uma moeda sem lastro em uma proporção
de 10 para 1. Por isso vivemos um momento preocupante, semelhante
à crise de 1929, só que muito mais grave, com o
risco de implosão do sistema financeiro. Devemos lembrar
que em 29 não havia crise energética e hoje esses
fatores estão acoplados. Com a extinção iminente
dos combustíveis fósseis, entre eles o petróleo,
com sobrevida de 30 anos, no máximo, podemos estar rumando
para a debacle. E não seria a primeira vez que isso ocorre
ao longo da história. Já ocorreu no Império
Babilônico, no Império de Ku Blai Kan, durante o
Reinado de Carlos V, da Espanha, quando imperava sobre a Europa.
Ou seja, a humanidade já viveu esse processo inúmeras
vezes. O próprio Ku Blai Kan, primeiro emitiu moeda representando
o ouro do império, depois passou a utilizar a prata e depois
o cobre. Bom, chegou a um ponto em que não havia mais lastro
e a moeda se deteriorou e com isso o seu império.
EC E como funciona isso hoje?
Vidal O problema é que os EUA emitem o dólar
desbragadamente em quantidades lastreadas por coisa alguma. E
não sou eu quem está dizendo, são analistas
sérios que afirmam isso. Assim torna-se necessário
voltar a um sistema mais consistente. Nada é mais consistente
na natureza do que a energia, que é o que permite transformar
os bens da natureza em bens de utilidade e poder. O Brasil estaria
em uma posição estratégica nesse contexto,
pois as regiões tropicais possuem recursos energéticos
em abundância.
EC Como assim?
Vidal Quem tem energia tem poder de transformação
e esse poder é dado pela natureza, não se trata
de uma convenção. O Brasil está em posição
privilegiada, mas não no atual contexto em que a moeda
sem lastro tem mais valor do que a riqueza real, porque está
convencionado assim. Enquanto o sistema financeiro internacional
seguir esta lógica, repito, nos encaminhamos para essa
bolha que é o apocalipse econômico. O
preço que o País pagará por estar dentro
desse sistema é altíssimo. É preciso transformar
estas fontes de energia em fonte de riqueza.
EC O ex-secretário de estado americano Henry
Kissinger afirmou tempos atrás que os países industrializados
teriam de montar sistemas mais requintados e eficientes de pressões
e constrangimentos para a busca de seus objetivos referentes à
obtenção de recursos energéticos. Como o
senhor relacionaria essa visão do ex-secretário
e a realidade conjuntural da política externa americana
dos dias de hoje?
Vidal Ele definiu com todas as palavras a política
do Império. Os próprios EUA não têm
uma situação muito tranqüila, pois as suas
reservas de petróleo eram da ordem de 180 bilhões
de barris e hoje são menos de 20 bilhões. Resta-lhes,
então, apoderar-se das reservas dos outros países.
As reservas Argentinas, por exemplo, foram compradas;
o México, de certa maneira, já dominaram pelos acordos
do Nafta; o Oriente Médio também, excetuando Iraque,
Líbia e Irã. Querem o petróleo brasileiro
também. A Petrobrás está sendo internacionalizada,
pelo menos no que se refere às suas reservas. Realmente
vivemos um problema, pois não há petróleo
sobrando e a demanda está crescendo. Até alguns
anos os EUA importavam 30% de petróleo proveniente da América
Latina e 70% do países árabes. Isso se inverteu.
As importações passaram a ser bem maiores da América
Latina, muito em conseqüência da mudança nas
legislações dos países que passaram a permitir
maior quantidade de exportações de petróleo.
Obviamente isso acelerará o esgotamento das reservas. Com
isso cresce também o papel das reservas energéticas
alternativas ao petróleo, renováveis.
EC Com toda essa riqueza devemos temer uma pressão
militar como sofrem os árabes?
Vidal Uma coisa é você dominar militarmente
campos de petróleo concentrado no subsolo e outra é
produzir energia renovável por meio da agricultura. Seriam
necessários exércitos descomunais para controlar
isso. A não ser que consigam interferir diretamente nos
Estados Nacionais por meio de uma classe política corrupta
e servil aos seus interesses, assim como vêm tentando e
conseguindo fazer no Brasil. Essa é situação
em que o mundo se encontra e o Brasil particularmente. O Brasil
tem um potencial fantástico em se tratando de fontes de
energia renováveis e já deu provas disso. Assim
poderemos emitir uma moeda verdadeira. Este é um momento
histórico importante em que, ou caminhamos para nos tornar
uma nação independente, rica, próspera e
soberana ou caminhamos para desaparecer como nação,
vil e escravizada, objeto de exploração para garantir
a hegemonia das nações militarmente poderosas.
EC O senhor esteve no Iraque em abril em um seminário
que discutiu a questão energética e soberania dos
povos. Esteve, inclusive, com Sadan Hussein. Estamos às
vésperas de um ataque mais efetivo dos EUA contra o Iraque.
Como os iraquianos esperam por esse ataque?
Vidal O Iraque tem a segunda maior reserva de petróleo
depois da Arábia Saudita, cujo controle do petróleo
pertence à empresa Aranco. Já o Iraque, Líbia
e Irã administram, por enquanto, suas próprias reservas
apesar de toda a região estar ocupada militarmente.
EC Mas existe o risco de ocupação iminente
de tropas americanas no Iraque?
Vidal Esta possibilidade existe há bastante
tempo. O pai de George W. Bush desistiu de sua investida depois
que percebeu que os iraquianos resistiriam até o último
homem. Temos de entender que falamos de uma nação
estruturada, milenar, plenamente consciente de sua riqueza e que
vai defender essas riquezas com unhas e dentes até as últimas
conseqüências. Não adianta os americanos bombardearem
de longe como fizeram como Afeganistão ,pois o que será
destruído é o próprio petróleo. Basta
lembrar o que os iraquianos fizeram antes de abandonar o território
do Kuait. Mas é preciso entender duas questões fundamentais:
como os norte-americanos ocupam o Oriente Médio militarmente
e como as compras de petróleo são feitas exclusivamente
com o dólar, tornando esta moeda de valor.
Então esta moeda passa a ter valor porque está relacionada
ao petróleo que pode comprar. Mas, quando o petróleo
acabar, como fica? A que tipo de riqueza o dólar vai estar
relacionado?
EC Em alguns dos seus textos o senhor fala em ditadura
financeira. Como ela se dá e como o Brasil é afetado
por ela?
Vidal É justamente isso que já falei
anteriormente. Repare no seguinte. Um sistema financeiro baseado
em uma moeda é legítimo desde que essa moeda seja
verdadeira. Ou seja ,essa moeda deve resultar de uma riqueza real
como já falei. Desde que superamos o sistema de trocas,
os escambos, a civilização troca os bens naturais
e utilitários por símbolos autenticados emitidos
por estados soberanos que dão garantia sobre sua validade.
Com a dolarização das relações comerciais
no mundo depois do pós-guerra estabeleceu-se uma tirania
à qual o Brasil também está sujeito. Um só
país emite toda a moeda mundial de referência, enquanto
a riqueza está localizada em todos os países. Bem,
durante um tempo eles (os EUA) se responsabilizaram em ter lastro
para esta moeda em ouro no Tratado de Breton Wood (após
a 2ª Guerra). Em 1968 o presidente De Gaulle, da França,
exigiu o lastro para os saldos em dólar do seu país
e não havia. Bem, o resultado foi a queda de De Gaulle.
Daí em diante o sistema financeiro baseado no dólar
perdeu todas as referências. Virou um arbítrio, uma
ditadura. E o sistema americano com essa moeda falsa irá
entrar em colapso mais cedo ou mais tarde. Conforme as crises
vão surgindo, vai sendo enviado dinheiro de um lado para
outro do mundo, foi assim com a Ásia, com o México.
Vejam o que ocorreu com a Argentina. E infelizmente o Brasil corre
sérios riscos. Como se sabe, em janeiro de 1999, quase
falimos, quando nossa moeda foi desvalorizada em 40%.
EC Em 2000 o senhor divulgou um texto chamado Alerta
à Nação. Nem todos os nossos leitores tiveram
acesso ao seu conteúdo. Qual seria o principal alerta que
o senhor propõe nele?
Vidal Vários pensadores , alguns detentores
do prêmio Nobel, falam da debacle do sistema financeiro
muidial. Mas ninguém vai tão fundo em oferecer alternativas.
Este documento apresenta alternativas. O que o Brasil tem que
outros países não têm é a possibilidade,
inclusive, de oferecer saídas para o mundo. Nosso potencial
energético é fabuloso. O grande problema é
que a classe política tem se demostrado absolutamente servil,
seguindo orientações estranhas aos interesses do
país, transferindo este imenso potencial para o controle
internacional.
EC O senhor foi um dos mentores do Pró-álcool
e afirma que a iterrupção do projeto foi dolosa.
O senhor poderia explicar melhor que tipo de pressão existiu
para barrar essa iniciativa?
Vidal Ora, o Brasil foi o único país
que conseguiu oferecer uma alternativa para os combustíveis
derivados de petróleo com total sucesso. Mesmo assim o
projeto do Pró-Álcool foi esmagado pela via financeira.
Essas pressões existem e são imensas. Mas isso não
significa que, quando elas surgem as coisas não devam ser
levadas adiante baseadas no interesse da nação.
Só que para isso é preciso existir um governo soberano,
o que não houve durante o Pró-álcool. O projeto
foi descreditado durante a ausência de governo (refere-se
ao período da Abertura no mandato de João Batista
Figueiredo). Os militares obedeceram às instruções
externas mesmo contra os interesses do país, o que não
ocorreu durante o governo Geisel, quando existiu um nacionalismo
maior. Mas a verdade é que estamos totalmente preparados
tecnologicamente para substituir o óleo diesel, por exemplo,
por óleos de origem vegetal (da mamona, do dendê,
de soja, etc). Foi aí que entrou a tal tirania financeira.
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EC
Explique melhor?
Vidal Por meio de empréstimos que nunca existiram,
o Brasil sacou do FMI fábulas de dinheiro que nunca vieram
para o Brasil, mas eram sim para supostamente cobrir dívidas
anteriores. Assim se criou um bola de neve, e sob o argumento
que se precisaria pagar essas dívidas, retiraram-se os
investimentos que estavam sendo empregados na montagem de uma
estrutura energética baseada em nossa riqueza. E hoje a
situação é essa. Temos a tecnologia, os recursos
naturais. Falta-nos uma estrutura do Estado que leve avante as
suas responsabilidades. O neoliberalismo começou no governo
Figueiredo e culminou com o Plano Real. Foi justamente com ele
que deixamos de ter moeda própria, aí se deu a dominação
completa sob o pretexto de anular a inflação, que,
diga-se de passagem, foi anulada no mundo inteiro. Não
foi o Fernando Henrique que acabou com a inflação,
foi o próprio FMI, que não tinha mais interesse
nesse modelo de dominação. A inflação
foi anulada na Bolívia, em Israel, na Turquia, inclusive
no Brasil e foi substituída por um sistema de juros altos
e taxas de câmbio arbitrárias, que estão nos
levando a ruína, obrigando -nos a entregar empresas estratégicas
de economia mista da área siderúrgica, energética,
o próprio patrimônio genético pelas leis de
patentes e por aí vai. E isso inclui o maior patrimônio
mineral do planeta que é Vale do Rio Doce.
EC Depois do 11 de setembro, ainda é possível
o surgimento do chamado E 9 que seria mais poderoso e influente
do que o G-8? Ou a conjuntura aponta um futuro mais negro do que
o World Watch Institute previa há alguns anos?
Vidal Sim, hoje se trata de uma outra conjuntura. Isso
é mais assustador pelo fato de os EUA terem se recusado
participar do Tratado de Kioto. Quando o país que mais
despeja gases causadores do efeito estufa e que consome mais de
25% da energia do mundo se recusa a pensar num processo que reduza
a produção de CO2, a coisa fica assustadora.
EC Por outro lado o senhor também fala que o
Brasil pode se tornar o grande exportador de energia limpa renovável
do mundo. Por que nós mais do que os outros?
Vidal Aí surge uma perspectiva que pode ser
produtiva que é uma aproximação maior do
Brasil com a China para que possamos fornecer aos chineses alternativas
energéticas limpas para que eles não precisem queimar
tanto carvão mineral, reduzindo assim a emissão
de CO2. Outro país que poderia tirar vantagem com uma associação
com o Brasil nesse setor seria o Japão. Se o Brasil conseguir
despertar este interesse das nações em buscar alternativas
energéticas que ele pode oferecer, passará a ter
um peso de poder mundial muito grande junto com esses países
somados à Alemanha, Índia. Só que para isso
precisa ter governo, interlocutor. Esse tipo de coisa não
se faz com bagrinhos, moços de recados e dirigentes servis.
Isso se faz com autoridade e líderes verdadeiros que representem
seu povo e que tenham a força de negociar pelos grandes
interesses nacionais.
EC Quem seriam esses garotos de recados? Que lógica
eles seguem?
Vidal Quem manda no Brasil não é o Presidente
da República nem o Congresso. É a área financeira,o
Banco Central. Simplesmente não existe lógica. Quando
os interesses econômicos rejeitam a ciência, não
há mais lógica , pois deixa de existir compromisso
com o avanço da humanidade, com a cultura, com a espécie
humana.
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