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A bolsa e o frango
Nei
Lisboa
Então
é Ciro Gomes a grande novidade desta etapa da campanha
eleitoral, atropelando o candidato governista com uma ascensão
vertiginosa em questão de semanas, e já ameaçando
a tranqüilidade de Lula na liderança da corrida presidencial.
Meus parabéns, Ciro e Patricia. Muito embora tudo possa
reverter rapidamente, do mês que vem só se sabe que
passa um trem. E talvez venha Serra acima de novo, embalado pela
máquina do governo, pelo horário eleitoral, pelo
escândalo da hora, por aquelas forças ocultas e nem
tão misteriosas que conjugam a capa da Veja com súbitas
disparadas nas pesquisas do Ibope.
Ciro Gomes parece mesmo carregar um apelo além de
uma namorada irresistível no seu charme pós-harvardiano,
naquele tom paternal e didático de equacionar todos os
problemas macroeconômicos como quem recorre ao simples bom
senso para ditar uma receita de risoto de frango infalível.
É aquela conhecida combinação de soberba
tecnocrática (só eu sei fazer direito) e uma humanidade
comovente (faço por amor e abnegação) com
eventuais escorregadelas na baixaria (quem não acredita
que vá à pqp), relativizada pelo tom costumeiro
das campanhas eleitorais. Queiram ou não, é uma
destituição da Política, uma tentativa de
reduzir os conflitos de interesse dentro de uma sociedade a meras
questões de competência, de trabalho árduo,
de suposta inteligência e hombridade. Queiram ou não,
também, é a cara de um novo Collor, que evidentemente
teria de ressurgir com mais refinamento, sem os supositórios
e o batuque da Casa da Dinda, e com a suprema credibilidade de
ter sido por alguns meses aluno-ouvinte de economia numa universidade
dos EUA.
Pois é a economia, dizem, que decide nosso futuro, somente
ela, com vida própria e distante do anacronismo de ideologias
políticas sempre atadas a distúrbios institucionais,
retaliação externa, carroças, gafes e vexames
do terceiro mundo. Esse é o ponto de partida de Ciro, que
não questiona o modelo, ao contrário, oferece-se
como o seu melhor gerente. É o tipo de discurso sob medida
para um público credulamente apavorado, soterrado pelo
economês indecifrável que domina o noticiário,
tentando entender o que a bolsa de Nova Iorque tem a ver com o
frango que sumiu do refrigerador. Ciro Gomes explica, comparando
o mercado internacional do dólar com o da banana, em Birigüi.
Ciro Gomes diz que hedge é papo-furado. Ciro Gomes entende
de coisas difíceis, mas fala a língua da gente.
Ciro Gomes tem a solução, e promete que vai trazer
o frango e o risoto de volta consertando o refrigerador.
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