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Do baú
2: Jorge e Benny
Luis
Fernando Verissimo
Do
baú. Jorge Luis Borges e Benny Goodman morreram ao mesmo
tempo, em junho de 1986. Há 16 anos. Na época, imaginei-os
esbarrando um no outro, na chegada.
Perdona-me.
Sorry.
Es por aqui?
Não sei. Também acabei de chegar.
Borges. Argentina.
Goodman. Estados Unidos.
Goodman... Goodman...
O Rei do Swing.
Ah!
E você?
Bem, eu inventei este labirinto. Modestamente.
Como, inventou, se eu estou nele?
É difícil explicar. Escrevi vários
livros não explicando exatamente isto. Minha idéia
da morte era esta: o último labirinto. Por alguma razão,
encontro você aqui. Tem certeza de que eu não o inventei
também?
Pouco provável. Judeu? Brooklyn? Tocava clarinete?
É, acho que não. Às vezes penso que
eu inventei tudo. Que a vida foi só uma coisa que eu imaginei.
As estrelas, o universo, eu mesmo. Tudo imaginação
minha.
Se você inventou este labirinto, como é que
não sabe o caminho?
Se fosse um caminho, não seria um labirinto. Você
tem pouca imaginação, para um rei.
Pouca imaginação? O que você me diz
disto: spiriapau-bupi-pidau-cacapidau-bop!
O que foi isso?
Uma frase musical. Inventei na hora. Se eu tivesse o meu
clarinete aqui você ia ver imaginação.
A música sempre me pareceu a forma mais árida
de retórica. A literatura é um labirinto sem saída.
A música não tem nem entrada. É uma geometria
inútil.
E o tango?
O tango não é nem literatura nem música.
É o contrário.
A música é um caminho, com começo,
meio e fim. E o jazz é um atalho secreto.
Sempre desconfiei da espontaneidade. Nossas vidas seriam
mais suportáveis se as pudéssemos viver só
depois da terceira revisão.
Olha, é melhor ir cada um para um lado. Um de nós
encontrará o caminho. Ou você inventará um
e eu improvisarei outro.
Mas você não vê? Não há
caminhos. Este é o último labirinto, o que leva
sempre ao lugar em que a gente já está. É
o que eu chamo de eternidade.
E eu vim cair logo na sua idéia de morte...
Qual era a sua?
Sei lá. Algo com o chão vitrificado, cortinas,
bem anos 30. Uma banda, algumas garotas...
Jesus.
Onde?!
Não, foi um comentário. Acho que só
há uma saída.
Qual?
Eu estar imaginando tudo isto.
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