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O
Virudu
Barbosa
Lessa*
Entrei para
a faculdade de Direito em 1948 e, naquele ano, consegui administrar
satisfatoriamente os meus horários de estudante e de repórter
free-lancer, reservando sábado para curtir o galpão simbólico
do CTG que acabávamos de fundar pioneiramente: o 35. Naquela época
estávamos mui interessados em descobrir uma fórmula que permitisse
atrair “prendas” para o tradicionalismo. Mas já no ano seguinte
não me sobrou tempo nenhum para lazer.
Aconteceu
que, a convite do governo uruguaio, formamos uma pequena delegação
para participar dos festejos do “Dia de la Tradición” em Montevidéu.
Lá nos encontramos com os jovens pares, em seus trajes típicos,
dançando O Pericón, La Chacarera, El Gato e outros tantos sapateados,
e voltamos com a certeza de que ali estava a solução da charada:
reviver, também, as velhas danças do Rio Grande. Paixão Côrtes
e eu começamos por consultar o “Guia do Folclore Gaúcho”, de Augusto
Meyer, e outras obras do gênero, mas no tocante às danças do desaparecido
fandango, só encontramos algumas letras, nenhuma partitura musical,
nada de coreografia. Só nos restava sair pesquisando, em atrasados
rincões do Rio Grande, informações que tivessem ficado na memória
de velhos músicos ou campeiros em geral. O Paixão também era universitário
- de Agronomia - e funcionário da Secretaria da Agricultura. Então,
para levarmos a cabo as pesquisas de campo, tivemos de dar adeus
a nossos já escassos momentos de lazer nos finais de semana.
Para ganhar
tempo, cada um caía num rumo diferente. Mas, ao nos toparmos com
uma boa informação, repetíamos em dupla a entrevista, inclusive
trazendo um gravador de som(se havia tomada elétrica no local)
que para essas ocasiões especiais o Prof. Enio Freitas de Castro
emprestava ao Paixão. As perguntas, no geral, eram bem objetivas:
“A senhora se lembra de O Anu?”, “O senhor alguma vez tocou A
Tirana?” E às vezes tínhamos a surpresa de descobrir uma dança
ou canção jamais relacionada por Meyer, Simões Lopes Neto ou Cezimbra.
Foi o que aconteceu, por exemplo, quando, em Osório, alguém nos
falou num tal de O Pezinho. Pergunta daqui, pergunta dali, terminamos
encontrando- o, ao vivo, numa festa de casamento na família Azevedo,
em Palmares do Sul.
Também ouvi
pela primeira vez, nos canfundós de Encruzilhada do Sul, uma referência
a O Virudu. Muita gente confirmou que, antigamente, ele era muito
cantando. “O finado Olmiro sabia a letra de ponta a ponta”. Até
que alguém me jurou que, morador no Passo da Armada, o Seu Salustiano
ainda se lembrava, direitinho, de O Virudu. “E tem tomada elétrica
na casa dele?” “Tem”. Convoquei o Paixão com o gravador, fomos
de ônibus até o Bom-Será e lá o fazendeiro Moacyr nos emprestou
dois cavalos para conseguirmos chegar à casa do cantador.
Mal apeiei,
perguntei se ele sabia mesmo cantar O Virudu e ele confirmou que
sim.
Daí a pouco
o Paixão já estava anunciando no gravador:
- E agora,
na voz do informante Sr. Salustiano Fonseca, vamos ouvir... O
Virudu! O homem se aprumou, limpou o peito e lascou:
- “o virudu
Pirangaa marges plácida....................”
O Paixão queria
me esganar por tê-lo feito perder seu precioso tempo.
* Luiz
Carlos Barbosa Lessa é jornalista, historiador, folclorista e
escritor.
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