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Shalom,
Rio Grande
Perseguidos na Europa, imigrantes judeus
do estado amargaram no campo até rumar para as cidades
e se adptar à vida dos trópicos
Dóris
Fialcoff
“Papai,
emigrando, nunca mais viu meu avô. Em determinada noite, sonhou
que ele lhe enviava um lindo presente. Passado algum tempo, uma
carta trouxe a notícia de sua morte. Logo em seguida eu nasci”.
Martha Pargendler era esse bebê que chegava, em 1923, a uma das
famílias de imigrantes judeus vindos da Europa para o Rio Grande
do Sul a partir do início deste século.
Na segunda
metade do século 19, a maioria da população judaica mundial estava
localizada no Império Russo que, por volta de 1890 e 1900, enfrentou
a fome e a instabilidade. Nesta época, os “progroms” -investidas
organizadas de grupos russos contra judeus - intensificaram-
se e os ecos desses acontecimentos chegaram à Europa Ocidental.
Em 1891, o barão judeu Maurice de Hirsch fundou a Jewish Colonization
Association (ICA) com o objetivo de retirar os judeus da Europa
Oriental e assentá-los onde pudessem ter uma vida melhor.
Em 1903, a
ICA adquiriu uma área de 5.700 hectares no município gaúcho de
Santa Maria para estabelecer a colônia agrícola de Philippson.
No ano seguinte, chegaram as primeiras 38 famílias da Bessarábia.
Cinco anos depois, a ICA comprou mais 93.850 hectares entre Erechim
e Getúlio Vargas e, da colônia de Quatro Irmãos, surgiram quatro
localidades: Barão Hirsch, Baronesa Clara, Pampa e Rio Padre.
Até 1928 chegaram
cerca de 280 famílias judias no Rio Grande do Sul. Na década
de 30, especificamente entre 1934 e 1937, o estado passou a receber
um número significativo de judeus que fugiam das perseguições
nazistas. Poucos chegaram apósa guerra, como sobreviventes do
Holocausto. O fluxo ficou seriamente restrito a partir de 1937,
quando uma legislação criada pelo Estado Novo estabeleceu um
sistema de cotas para a entrada de estrangeiros.
Na leva de
1912, oriunda de Rachkow (Bessarábia), estava a menina de dez
anos Mariam Faermann que, 11 anos depois, casada com Abram Pargendler
(vindo de Dombrevez, na Rússia), viria a conceber Martha. Hoje,
aos 76 anos, Martha faz questão de dividir a experiência de ser
filha de imigrantes, contando a infância em Quatro Irmãos e depois
em Erebango, as dificuldades, as rotinas, comemorações e, acima
de tudo, a capacidade de se adaptar culturalmente.
Muitas dessas
histórias estão no livro A Promessa Cumprida, lançado em 1990
e já com edições em inglês e espanhol. Fundadora do Movimento
Gaúcho pelo Menor e Cidadã Honorífica de Porto Alegre, Martha
declara que “na colônia ou nas cidades, os judeus depositaram
suas contribuições, construíram famílias e riquezas. Encontraram
paz e liberdade na diáspora brasileira e retribuíram com o dinamismo
do trabalho e com grande diversidade de realizações”.
Anita Brumer,
pesquisadora da presença judaica no Rio Grande do Sul, enfatiza
que, diferentemente de imigrantes de outras origens que vieram
para o Brasil movidos por motivos econômicos, entre os judeus
da Rússia czarista - ashkenazi -não predominava o sonho de “fazer
a América”, isto é, fazer fortuna e depois voltar. “Além dos problemas
econômicos, comuns aos emigrantes de outros países, os judeus
sofriam perseguições religiosas e sociais em alguns países europeus
onde se concentravam em maior número”, diz. Ela relata, por exemplo,
a expulsão de Moscou (em 1891), no último ano do governo do czar
Nicholau II, como parte do plano de “russificação” que incluía
a prática compulsória da religião russa ortodoxa. Os imigrantes
trazidos pela ICA - além de alguns que vieram por conta própria
- dedicavam- se à agropecuária, embora a maioria fosse proveniente
das cidades, sem nenhuma prática nessa atividade. Para Anita,
“este foi um importante fator, embora não o único, a explicar
o insucesso das colônias agrícolas judaicas.
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Judeus
Ashkenazim e Sefaradim
A colonização
judaica do Rio Grande do Sul foi composta majoritariamente
por ashkenazi, que deriva de Aschkenaz, Alemanha, e designa
judeus da Europa Central e Oriental, principalmente da Polônia,
Rússia, Lituânia, Romênia (onde se inclui a Bessarábia)
e Alemanha. Falavam idish, língua composta de elementos
hebraicos, germanos e eslavos. Em pequeno número também
vieram os de origem sefaradim, de Sefarad, Espanha, cuja
primeira geração de imigrantes veio de países como o Egito,
Turquia, Grécia e Marrocos. O idioma era o ladino, um espanhol
arcaico.
A ICA
oferecia a cada família de 25 a 30 hectares de campo e
mato, instrumentos agrícolas, duas juntas de bois, vacas,
um cavalo com carroça, pelos quais deveriam pagar 5 contos
de réis em um prazo de dez a vinte anos. Inicialmente,
foram alojados em precárias casas de madeira de 35 metros
quadrados, com teto de zinco, sem vidraças e com frestas
entre as tábuas.
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