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Prezado
editor :
A
matéria “Música para rebolar”, da jornalista Stela Máris Valenzuela
(Extra Classe número 33), estabeleceu uma visão dicotômica da
música do Rio Grande do Sul. No conjunto de sua matéria, há uma
subjacente indução à visão de que as posições apresentadas, as
dos tradicionalistas metegeanos e as dos tchês isto-e-aquilo,
polarizam o contexto musical do estado. Quem conhece a isenção
da jornalista, e eu conheço, sabe que ela tentou fazer um texto
de registro. Não conseguiu.
Salta
aos olhos que os “Tchês” são apresentados como modernos, progressistas,
e os tradicionalistas, tal qual o próprio nome indica, como conservadores.
Como ilustração, aí vai um parágrafo do texto: “Inconformado com
a criatividade (grifo nosso) da moçada, o MTG decidiu no 44º Congresso
Tradicionalista Gaúcho de Passo Fundo recomendar aos CTGs para
contratarem somente os conjuntos com efetivo comprometimento com
os parâmetros do movimento, ou seja, que toquem ritmos e temas
autênticos. A proposição veio a público em 15 de janeiro deste
ano.”
Essa
criatividade é totalmente discutível. São músicas e letras primárias
o que eles têm a apresentar. Suas composições apresentam imprecisões
sobre as coisas do mundo pastoril a que eles se propõem representar,
além de erros crassos de linguagem, seja de português, seja do
dialeto gaúcho.
Para
algum desavisado, como o MTG os tomou por desafeto, pode parecer
que, por serem questionados por interlocutores historicamente
comprometidos com as elites e com a manutenção do status quo,
estes “Tchês” sejam dignos de credibilidade. Nada mais falso.
Eles representam o atraso travestido de interesse comercial. (...)
Considerando-se que esta carta rechaça uma visão de que essas
variantes sejam o conjunto da expressão musical da Província,
cabe perguntar, então, no universo da música regional, o que mais
existe.
A
isso respondemos indicando a música missioneira, estigmatizada,
combatida, discriminada, mas de uma profunda resposta ao universo
dos deserdados. (...) Por ser um canto de protesto, por refletir
o universo do peão e do indígena historicamente explorado, é verdadeira
música que pode se opor ao conservadorismo musical das elites.
(...)
A
temática do gaúcho é muito ampla e, paradoxalmente, mesmo num
tempo de globalização e de urbanidade sem precedentes, continua
ostentando sua atualidade. (...) O que não é natural é não dar
nomes aos bois. O que é bom é bom, o que é ruim é ruim. E no andar
da carroça se ajeitam as melancias.
Landro Oviedo, professor
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