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Proeza
ao contrário
Flautista, arranjador e intérpetre,
somente aos 55 anos de carreira o músico Plauto Cruz grava
o primeiro disco com 15 canções de sua obra
Luiz
Carlos Barbosa
Nada
justifica que um artista do quilate de Plauto Cruz só agora, ao
completar 55 anos de carreira e 70 de idade, tenha o registro
de sua obra em disco, verdadeira proeza ao contrário. Seu primeiro
CD - Plauto Cruz, Choros e Canções - com uma seleção preciosa
de 15 composições, foi lançado no dia 22 de junho, em um espetáculo
em que o músico foi homenageado no Theatro São Pedro pelos amigos,
admiradores e músicos porto- alegrenses e gaúchos, em uma iniciativa
da jornalista e empresária Beatriz Dorneles. Plauto colheu os
merecidos aplausos de uma platéia madura e consternada, que incluiu
o governador Olívio Dutra.
Mas por que
este tributo modesto e tardio? O músico e pesquisador Carlos Branco,
formado pela Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul),
não se admira. “É a situação de muita gente de talento como Plauto.
Não tem como medir a obra dele no Rio Grande do Sul. É um dos
grandes flautistas populares do Brasil, como Dante Santoro, Altamiro
Carrillo, Copinha e Carlos Poayres”, analisa. Durante o Festival
Nacional de Chorinho da Rede Bandeirantes, em 1979, Ziraldo definiu
Plauto como “patrimônio histórico da música popular brasileira”.
Para Branco, a trajetória de Plauto Cruz também pode ser explicada
pelas dificuldades mercadológicas da música instrumental em geral,
pelas conseqüências disso na mídia e pelos ciclos de interesse
e desinteresse pelo chorinho, gênero que predomina nas quase
cem composições do flautista gaúcho, nascido em São Jerônimo
em 15 de novembro de 1929.
Sem gravações
e edição de partituras, nem mesmo ele, flautista virtuose e exímio
arranjador sabe o número ao certo. “Imagina o que a gente perdeu.
Devia ter no mínimo uns 30 discos gravados”, espanta-se o músico
e compositor Nelson Coelho de Castro, parceiro e amigo de “Plautinho”,
como ele é chamado pela legião de admiradores e companheiros de
música e vida.
O que diz
o músico que emprestou sua flauta à obra do parceiro Lucínio Rodrigues,
de Jessé Silva, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, em mais de 40
LPs? Ele, que sofisticou a vida noturna de Porto Alegre por anos
a fio, nos tempos dos bares Vinha D’Alho e Alambiques, chega a
ser angelical. Sempre no diminutivo carinhoso de seus vocativos
singelos, responde: “Está tudo bem, neguinho, estão se abrindo
portas”. Fala como se fosse apenas um jovem estreante e promissor,
depois de ter composto dezenas de valsas, choros, sambas e ter
feito arranjos tocantes de peças de Franz Schubert e Bach, para
citar apenas algumas. “Se Plauto não fosse assim, não seria Plauto”,
emociona-se Nelson Coelho de Castro, emendando: “a gente fica
de cara com essa bondade, essa ausência de jactância.”
“Que pureza”,
exclama o compositor e flautista Pedrinho Figueiredo. Longe de
qualquer exagero, suas palavras dimensionam o lugar na música
brasileira de Plauto Cruz - que aos 70 anos trabalha para viver,
no humilde bairro Camaquã de Porto Alegre. “É impossível, por
exemplo, escrever a história da cultura musical de Porto Alegre
e do Rio Grande doSul sem Plauto Cruz”, assinala Figueiredo. Ele
sublinha que o flautista extrapolou a própria opção musical pelo
choro. “Sempre foi o melhor instrumentista dos grandes festivais
dos anos 70, como a Califórnia da Canção”.
Outro exemplo
é a presença da flauta de Plauto em grandes sucessos da música
popular gaúcha, como no solo proeminente de “Maria Fumaça” de
Kleiton e Kledir, ou em “Armadilha”, de Nelson Coelho de Castro,
que jamais esquecerá esta parceria, por ocasião do lançamento
de Juntos, em 1981, o primeiro LP independente feito no estado.
“Passei no Vinha D’Alho e pedi para ele colocar flauta nas minhas
músicas. Ele pegou o endereço e no dia marcado apareceu na minha
casa. Ele foi mesmo. Um super flautista não mediu o mérito do
meu trabalho. Foi uma alegria lá em casa. O meu pai conhecia o
trabalho dele”, relembra Nelson, incrédulo.
Para Pedrinho
Figueiredo, o domínio musical de Plauto e a sua capacidade de
improvisação não devem nada aos melhores virtuoses do jazz. Prova
disso, aliás, é que Plauto, sempre fino, consegue acompanhar
até quando um outro instrumentista, menos experiente, atravessa
a notação musical. “É a escola do chorinho”, ensina Carlos Branco.
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