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A história
do payador que enganou a morte
O poeta Jayme Caetano Braun, que morreu
no início de julho, eternizou seus versos nos rostos e
vozes que compõem a imagem do pampa
Renato
Dalto
“Havia
a palavra e, mais do que o verbo, a voz para declamar versos de
uma rudeza que, num primeiro momento, pareciam beirar a grossura.
Da pacholice gaudéria, extraía metáforas entre a aspereza e uma
certa ironia campeira. Num de seus poemas mais famosos, “Bochincho”,
ele descreve um baile e a bela chinoca pela qual se encantou.
E vai à dança: “Eu me agarrei na percanta/o mesmo que um carrapato”.
Mas logo depois constrói toda a delicadeza daquela mulher, “misto
de diaba e de santa”, com o refinamento de um grande poeta. “Daquele
corpo moreno,/ Sentia o mundo pequeno,/ Bombeando cheio de enlevo/
Dois olhos - flores de trevo/ Com respingos de sereno!”.
Estes versos
integram a obra imortal de Jayme Caetano Braun, payador nascido
em São Luiz Gonzaga, nas Missões, que morreu no último dia 8 de
julho aos 75 anos de idade. É a obra dos galpões, dos velhos campeiros,
das paisagens abandonadas, das tropeadas, dos brigas de galo,
estilhaços de um “Rio Grande selvagem”, como ele mesmo escreveu.
Os versos de Jayme iluminam o verde sem fim dos campos gaúchos,
universalizam a cultura platina, dão forma e voz às taperas esquecidas,
aos gaúchos pobres sem rumo, à força do vento, à solidão das
árvores mergulhadas no silêncio. Não é, porém, uma obra restrita
no curral do regionalismo. “Ele conseguiu colocar o galpão dentro
do panorama do universo e trouxe os fatos universais para dentro
do galpão”, opina o folclorista e pesquisador João Carlos Paixão
Côrtes.
A alma campeira
de Jayme Caetano Braun tem raízes profundas. Nascido no distrito
da Timbaúva, em 30 de janeiro de 1924, foi um guri do campo. E
ali cresceu, observando a natureza e seus segredos. Para reve-lá-los
depois, em versos. “É hora de caçar lagartos/ e peleguear camoatim,/
Hora das artes sem fim/ Que o grande faz que ignora/ E quando
o guri de fora/ criado no desamor,/ Numa infância de rigor/ Só
foi guri nessa hora”, escreve em “Hora da Sesta”, a hora do sol
a pino onde os adultos dormem e a gurizada curiosa do campo se
diverte.
A fonte da
payada é o verso oral, de sete sílabas, rimado e acompanhado ao
violão, muitas vezes no improviso ou no desafio a outro payador.
Jayme levou esse gênero ao rádio, especialmente na década de
70, onde apresentava o programa “Brasil Grande do Sul” na rádio
Guaíba, de Porto Alegre. “Ele declamava e eu fazia o bordoneio
da milonga no violão”, recorda o amigo Pedro Ortaça, outro missioneiro
que chegou a transformar em música os poemas de Jayme Caetano
Braun, único payador em língua portuguesa mas que transitava
com extrema fluência também pelo idioma espanhol - a língua do
grande Atahualpa Yupanqui, uma de suas influências confessas.
O historiador
e poeta Mozart Pereira Soares acompanhou Jayme por muito tempo.
Conheceram-se na “Estância da Poesia Crioula”, a academia nativista
dos poetas campeiros. Mozart depõe: “Creio que foi o maior dos
improvisadores que o Rio Grande e o Brasil produziram. Some-se
a isso o fato dele ser um poeta culto, muitíssimo informado
sobre a história e a literatura do Rio Grande do Sul e ainda de
toda a área platina”. Fala de afinidades com os poetas do Prata,
o conhecimento profundo do “Martin Fierro”, do argentino José
Hernandez, das influências de Osiris Rodriguez, Sandálio Santos
eYupanqui e o conhecimento de poetas como Olavo Bilac, Castro
Alves e Vinicius de Morais.
Entretanto,
Jayme Caetano Braun era um missioneiro do cerne. Confessava uma
certa devoção à sua origem e à sua gente. Junto com Pedro Ortaça,
Noel Guarani e Cenair Maicá, gravou o disco “Troncos Missioneiros”.
Foi o homem também multiplicado em outras circunstâncias. Trabalhista
por convicçao, fez poemas para Getúlio Vargas e para o senador
Ruy Ramos. Ainda em São Luiz Gonzaga, sua terra natal, leva ao
ar o programa radiofônico “Galpão de Estância”, que viraria título
de seu primeiro livro, publicado em 1954.
Também trabalhou
em jornal. “Ele era meu companheiro de página no 'O Interior',
era um gauchão véio independente, alegre e meio sarcástico quando
tinha que ironizar os poderosos”, lembra o humorista Santiago,
que teve o livro “Milongas do Macanudo Taurino” (L&PM, 1984)
prefaciado pelo próprio Jayme.
O legado do
payador está espalhado nos seus livros, nos seus versos gravados
e, sobretudo, na fala e na memória de sua gente. Paixão Côrtes
faz alusão a essa linguagem campeira, capaz de ser apreciada
em qualquer recanto, que emociona pelo requinte de alma do poeta,
por sua sapiência da natureza, por algo que chama de “dom sublime”,
a palavra crua que, pela sua musicalidade, dispensa a razão do
entendimento - como a prosa de um João Guimarães Rosa. Assim,
o payador não partiu. Seus versos viverão em outras vozes, como
escreve o mestre Yupanqui. A voz de Jayme Caetano Braun está
nessas várzeas e coxilhas, nesses rostos cujas marcas lembram
os sulcos da terra. Versos que trespassam as armadilhas do tempo.
Payadas que enganam a morte.
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Da
terra nasceram gritos
Jayme
Caetano Braun
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Mataram
meus infinitos
e
me expulsaram dos campos;
Da terra nasceram gritos,
Dos gritos brotaram cantos!
E me
fiz canto
De tropeiros e ervateiros
Rasgando sulcos,
Com arado e saraquá;
Nas alpargatas dos “quileiros”
e “chibeiros”,
Andei as léguas
De Corrientes e Aceguá!
Meu
canto é rio,
Meu canto é sol,
Meu canto é vento,
Eu tenho pátria,
Eu tenho berço,
Eu tenho glória,
Eu só não tenho
terra própria
Porque a história
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Que
eu escrevi,
Me deserdou no testamento!
De qualquer
forma -
bem ou mal,
Não me emociono,
Com os que combatem
As verdades do
meu canto;
Sem ter direito de comer,
Nem o que plano,
Só não entendo,
É tanta terra
E pouco dono!
Mas mesmo assim,
Tenho pra dar,
Um outro tanto,
Se precisarem do meu sangue
Noutra guerra;
Mesmo
sem terra,
Hei de voltar grito de terra,
Pelo milagre
Das espigas do meu canto!!!
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