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Dois
em um
É
injusto comparar os dois Fernandos. O Collor sempre foi meio assustador,
o Éfe Agá é um homem civilizado e simpático com o qual você gostaria
de conversar sobre tudo que houve, depois que ele deixasse a Presidência,
de preferência na semana que vem. Mas não há como tratar os dois
como um só, já que a diferença é só de personalidades e um continuou
o que o outro começou. No fundo, a soma dos dois Fernandos dá
o Menem, que sucedeu a si mesmo na tarefa de escancarar a economia
do país e seguir fielmente o consenso de Washington e agora assiste
com a mesma impotência ao modelo dependente demais desmoronar:
O Menem da primeira fase também era um excêntrico, com suas suíças
ex-travagantes e seu ar de cabareteiro. Pouco a ver com o estilo
do primeiro Fernando, mas assustador do mesmo jeito. Depois viu-se
que Menem era mais respeitável, mais Éfe Agá do que parecia. O
governo de Menem na Argentina pode ser descrito como o governo
do Collor e do Éfe Agá sem o alívio cômico do interlúdio Itamar.
É
difícil saber o que falta - salvo, claro, uma saída - para concluir
que a sujeição total à essa globalização em que só um ganha é
um fracasso binacional a caminho de se tornar uma tragédia continental.
AArgentina está até pior do que nós, talvez porque tenha se sujeitado
ainda mais abjetamente. Depois de anos de submissão, a recompensa
do Menem deles é esse final melancólico de penuria y desilusión.
Enquanto isso, nossos dois meio-Menens trouxeram o país a esse
estado de pré-guerra civil no campo e nas ruas, e o atual não
aprendeu nem com a desgraça do protótipo e vizinho a pôr seu neoliberalismo
de molho.
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Há
dias eu comentei uma suposta declaração do novo ministro da Justiça
antes de tomar posse, que era balela falar em recuperação social
nas prisões. Recebi uma correspondência do ministro em que ele
explica que defende uma política penitenciária “que diminua ao
máximo o risco de reicidência e possibilite preparar o preso ao
trabalho e à cidadania.” No entanto, diz, “cadeia não é escola”.
Só os réus perigosos devem ser segregados, já que há outras formas
de pena em liberdade. “A minha frase”, descreve o ministro, “nada
tem de contrastante com minha formação de defensor dos direitos
humanos. Ao contrário, é coerente. Cordialmente, José Carlos Dias”.
Obrigado, ministro.
***
No
filme O Exterminador do Futuro, um governo tirânico do século
21 tenta livrar-se de um líder rebelde mandando um assassino ao
passado para matar a sua mãe e assim cortar o mal, ou, no caso,
o bem, pela raiz. Já que não conseguem vencê-lo decidem evitar
que ele nasça. Se dispusesse dos mesmos meios, o governo Éfe Agá
poderia ter evitado a greve dos caminhoneiros mandando um exterminador
ao passado para eliminar quem decidiu que todo o transporte de
carga no Brasil seria feito por estrada em vez de ferrovia ou
hidrovia. Em algum ponto do passado, alguém fez essa infeliz opção.
Um tiro bem dado, nele ou na sua mãe antes de tê-lo, seria a única
maneira de impedir a situação das últimas semanas, quando o governo
acuado pelos grevistas, se viu sem opção alguma.
Há
anos que agricultores sem terra, organizados e mobilizados como
os caminhoneiros, fazem o mesmo barulho sem resultado. Nas cidades,
trabalhadores sem emprego, mais numerosos e desesperados do que
os caminhoneiros, nem fazem barulho, ou pelo menos um barulho
proporcional ao seu número e à sua desesperança. Nos dois casos,
o governo tem a alternativa que não teve no caso dos caminhoneiros,
a da negligência planejada. Sem-terra e sem-emprego fazem parte
do risco calculado do modelo, fazem até - de uma maneira perversa
- parte da estratégia de chantagens com que o governo mantém seu
apoio político e seu controle do mercado. É fácil resistir ao
que não se dá importância. Não há como resistir a um país parado,
com frutas apodrecendo e pintinhos morrendo nas estradas, porque
simplesmente não existe out r o modo de ele se mexer. Acrescente-se
a isso o fato de o “tal de Botelho”, líder da greve dos caminhoneiros,
ser do PPB e ter contado com a ajuda do Dornelles para se acertar
com o governo, e de empresários do setor apoiarem o movimento,
e conclui-se que os rodoviários tinham tudo - além da razão -
que os outros não têm para comover o poder. A lição dos caminhoneiros
para as outras vítimas da negligência governamental é: sejam insubstituíveis,
sejam intratáveis e tenham amigos certos. Ou arranjem uns pintinhos
para morrer por vocês.
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