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Conceitos
básicos de sociedade e cultura - 5
Barbosa
Lessa
Historicamente,
a Cultura Cultivada surgiu de minorias privilegiadas que, tendo
já superado o nível de produção para a simples sobrevivência,
podiam agora entreter-se em exercícios de espírito. Surgiu com
os papiros dos sacerdotes do antigo Egito, com os desenhos dos
primeiros geômetras, e ganhou força quando instituições como a
Igreja ou a Escola tomaram a si a tarefa consciente de transmitir
conhecimentos de cunho humanístico, isto é, de valorização do
ser humano. Através de mensagens desenhadas, pôde uma geração
transmitir seus conhecimentos à geração seguinte sem a necessidade
do contato pessoal.
A partir da escrita fonética, imitando os sons da fala humana,
e dos tipos móveis de Gutenberg, reproduzindo-os em muitas cópias,
a comunicação entra num ritmo espantoso, rompe-se a delimitação
de territórios culturais, torna-se mais intenso o contato entre
culturas diversas. O indivíduo letrado desgarra-se do grupo local
a que pertence e, a cada novo livro que lê, há uma nova alternativa
proposta ao seu universo de conhecimentos. A experiência do velho
é contestada pelo jovem pesquisador, a ebulição espiritual descortina
novos problemas e a inteligência busca resolvê-los.
Se a Cultura Espontânea manipulava, principalmente, coisas, já
a Cultura Cultivada passa a manipular, cada ez mais, símbolos
– a começar pelas letras ou signos de comunicação escrita. A divisão
do trabalho, crescente, vai restringindo o núcleo de conhecimentos
comuns a todos e vai multiplicando o segmento das especialidades.
Surge a Escola como grande veículo de comunicação social. E a
Educação, agora em sentido restrito, passa a ser o processo pelo
qual a sociedade institui mecanismos para transmitir, à criança
e ao jovem, os padrões de comportamento e o conhecimento das técnicas
e ciências, sob regras pedagógicas expressas.
A educação formal, por sua própria essência, ignora a cultura
folk, e toda sua sistemática consiste em ir afastando a criança
e o adolescente, cada vez mais, dos padrões da sociedade espontânea.
De tempos em tempos o professor põe à prova se o aluno já se afastou
suficientemente: se este vence tal prova, passa; se não, roda,
até aprender. E assim a sociedade vai se dividindo em fragmentos
hierarquizados de acordo com a soma de conhecimentos formalmente
adquiridos: pré-escolar, primeiro grau, segundo grau, etc. O status
é dado pelo respectivo diploma. A liderança política da nação
é assumida pelos bacharéis. E o analfabeto, coitado, nem sequer
tinha direito a voto: era castrado em sua própria cidadania.
Mas no frigir dos ovos, sente-se que tais tensões causaram um
extraordinário bem à Nação.
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