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Adeus
às ilusões
Jacira
Cabral Silveira
A
infância está morta. Quantos de nós ficam chocados frente esta
afirmação? Infância e morte formam um encontro que não combina,
pensam os adultos em sua maioria..
Para Sandra
Mara Corazza, pesquisadora e professora do departamento de Ensino
e Currículo do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação
da UFRGS, este sentimento de calamidade e pânico em relação à
morte da infância é o grande medo de que nós, ocidentais modernos,
percamos uma de nossas fontes de referência. Segundo ela, todas
as ciências humanas fizeram da infância uma fonte de saber sobre
o próprio sujeito. Com a palestra A Morte da Infância, Corazza
participou do Curso de Especialização em Educação Infantil que
encerrou há poucos meses na FACED.
Mas não é
só no meio acadêmico que o assunto da identidade infantil contemporânea
é motivo de debate. Mais ou menos radicais, outros lugares têm
discutido a questão. Profissionais liberais voltados à criança,
escolas e famílias estão envolvidos com a mesma pergunta: que
infância é esta? Os novos tempos põem em questão ao que chamamos
de infância tradicional, fruto da modernidade, que teve seu auge
de 1850 a 1950, quando as crianças foram afastadas dos perigos
das fábricas e colocadas nas escolas a fim de serem transformadas
em seres racionais. Imersos em um cotidiano marcado por culturas
como a do consumo e a do individualismo, todos nós vivemos novas
relações que se estabelecem em detrimento de tradicionais elos
como a família, a escola e a igreja.
Alfredo Jerusalinsky,
presidente da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, embora
não concorde que o conceito de infância tenha morrido, reconhece
que a criança construída a partir do século XVIII está em sérias
modificações. “Mas ainda não é possível saber a extensão e a profundidade
dessas transformações”, afirma o psicanalista. Há 30 anos clinicando,
Jerusalinsky diz ser prematuro fazer tal afirmativa uma vez que
os ideais de igualdade, fraternidade e liberdade, preconizados
na modernidade, continuam vigorando junto aos adultos com relação
às crianças.
Para Lucia
Rabello de Castro, psicóloga, professora da UFRJ e representante
oficial na América Latina do Comitê de Pesquisa Sociologia da
Infância, a afirmação de que a criança da modernidade está morta
é problemática porque reporta a uma idéia de nostalgia e tem efeito
paralisante. Afinal de contas, se algo é dado como morto, o caso
está encerrado, e para a pesquisadora esta ótica de que a infância
acaba na pós-modernidade não pode ser aceita. 
Corazza tampouco
afirma isto em sua tese de doutorado sobre a História da Infantilidade,
pesquisa que serviu de suporte a sua participação no curso de
especialização da FACED. Ela não aceita nos historiadores de infância
justamente este tipo de idéia progressista e evolucionista de
que a história da infância nasce, se desenvolve, atinge um apogeu
e que, agora, chegou a um fim. Segundo ela, a criança sempre sofreu
diferentes processos de adultização. “O infantil veio sendo praticado
como uma identidade natimorta”, diz ela e acrescenta que assim
que a criança nasce, morre, já que nasce diferente de nós adultos.
Corazza lembra
que Descartes, por exemplo, diz sentir dó de nós homens que fomos
crianças um dia. Santo Agostinho, por sua vez, escreve que o bebê
é aquele que bebe todos os vícios e defeitos junto com o leite
de sua ama. “A infância é uma identidade que nasce com todas as
suas especificidades e nós fazemos de tudo, cada vez mais precocemente,
para que essa criança se adultize”, comenta Corazza.
Segundo Lucia,
a infância como foi moldada no início do século está dando lugar
a um novo sujeito infantil. Essa mudança se processa a partir
da segunda metade deste século com fenômenos como o desenvolvimento
dos meios de comunicação – principalmente a TV – e a disseminação
de tecnologias em nosso cotidiano. “Por isso o adulto se assusta
quando se depara com uma outra infância ou com um outro comportamento
infantil que não tem só no adulto fonte de informação”. Nestes
novos espaços como a sala de TV, a rua e o shopping, crianças
e adolescentes vão construir sua subjetividade. Uma identidade
mais plural, não tão homogênea como aquela da modernidade, analisa
Lucia.
Jerusalinsky,
por outro lado, é mais cruel na análise do papel que espaços como
a TV assumem junto às crianças. Ele traz como exemplo os super-heróis
dos desenhos animados. Segundo ele, estes personagens são contrabandistas
ideológicos do neo-liberalismo. Eles introduzem a idéia de uma
super eficácia, super força e super capacitação. É alguém que
está acima da lei geral dos humanos e que supera a castração,
as limitações que afetam a todo ser humano. Os pokémons, cita
o psicanalista, têm a característica desse homem do futuro, autônomo.
Eles deixam claro que não devem nada a ninguém; não têm uma origem;
uma filiação, portanto, não têm linha simbólica que os ligue ao
pai ou à mãe.
“Todo este
ideário neo-liberal entra em choque com aquele de liberdade, igualdade
e fraternidade transmitidos às crianças por seus pais e professores,”
diz Jerusalinsky. “E neste ambiente contraditório de constituição
de identidade, a criança vê-se num vazio onde deve responder a
um ideal adulto, ao mesmo tempo em que vive num cotidiano marcado
por uma cultura extremamente individualista, onde a relação com
o outro se mede em termos puramente lógico e produtivo quanto
à eficácia material.” Neste sentido, Jerusalinsky lamenta que
a morte da infância da modernidade não seja um fato, pois só assim
ela “não se veria submetida à tamanha violência de contradição”.
Para Corazza,
o infantil contemporâneo acontece porque a criança está realizando
práticas, está experimentando um outro tipo de vida, estabelecendo
outras relações produzidas por este acúmulo de séculos de práticas
de adultização. Neste sentido, ela afirma que é preciso “desprender-nos
deste infantil que está aí e inventar coisas que nem sabemos ainda,
mas que, com certeza, não é o mesmo infantil”.
No entender
de Corazza, também a escola precisa repensar suas concepções sobre
este novo sujeito infantil e reinventar sua relação educativa.
Deixar de lado os procedimentos retrógrados e ao mesmo tempo negadores
do novo modo de ser infantil. Corazza condena a atitude da escola
quando nega em seu currículo toda uma vivência e relações culturais
mais amplas que seus alunos passam a experimentar, tanto na interação
com máquinas, como a vivência em sinaleiras, por exemplo. A escola
fica usando grades antigas, óculos ultrapassados para trabalhar
com este ET que está ali, negando as vivências, deixando de fora
as novas sexualidades.
Lucia compartilha
da idéia de que é necessário buscar entender melhor a época em
que vivemos, investigar quem são os sujeitos sociais e os males
de nosso tempo. Com base em seus estudos recentes, que investigam
as grandes cidades como fonte de aprendizagem, Lucia define estes
centros urbanos como fábricas de problemas nas relações sociais,
onde passam a existir espaços delimitados e proliferação de gangues.
É o que alguns autores chamam de “descivilização”, diz a pesquisadora,
quando o homem desaprende a conviver com o diferente.
E não existe
nenhum lugar que instrumentalize a criança para que ela aprenda
a andar na rua, a ter um mínimo de sabedoria para saber com quem
fala e como se deve falar na rua. “Ela aprende através de uma
ação casuística, experimentando”. Nesse sentido, Lucia afirma
que a grande demanda da criança hoje é compreender melhor as relações
sociais e isso deve estar presente para o professor na hora de
atuar junto à criança. Afinal, a escola nas grandes cidades, devido
a questões de segurança, é ainda um dos únicos espaços de socialização
possíveis à infância. 
A relação
com o outro também preocupa Jerusalinsky na educação dos novos
sujeitos infantis. Para ele, o bom pedagogo não pode limitar-se
meramente a levar adiante os supostos da modernidade que preconizam
que em que vive. Para o psicanalista, é preciso que o professor
se ocupe da questão da ética que permeia tal suposto.
“Um bom pedagogo”,
continua Jerusalinsky, “tem que se dar conta de que a infância
está padecendo a demanda de manter uma relação com o outro social
onde ela se transforme num adulto que esteja a serviço do gozo
desse outro”. Isto coloca o pedagogo diante de um impasse ético,
até que ponto ele vai contribuir para que o mundo do futuro se
harmonize sob a forma do gozo do outro e não do ideário do individualismo.
Segundo ele,
é necessário que o pedagogo seja capaz de transmitir à criança
uma interrogação a cerca de que vida ela vai escolher viver, ou
seja, em que ética vai ser escrita a novela de cada criança que
ele educa. “É preciso que o bom pedagogo não seja um mero transmissor
de conhecimentos, mas que abra as portas do inconsciente, devolvendo
à criança o domínio da narrativa da sua própria vida”, profetiza
o psicanalista.
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