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Pelo cheiro
Elisa
Lucinda
-
Que perfume é esse que a senhora tá usano?
- É um perfume
de ervas e flores que eu mesma preparo.
- E tem aquela
flor dama-da-noite, num tem?
- Tem sim
Senhor; como que o senhor sabe?
- Ah, eu
sinto. Ó, vou dizer u’a coisa pra sinhora: trabalho há 35 anos
guiano carro de praça e conheço todo mundo pelo cheiro. Eu conheço
mesmo é o perfume. Perfume de pobre, perfume de rico, perfume
da semana, que é aquele meio desodorante, lavanda que agüenta
o suor da gente. Perfume de fim-de-semana, de amante, o de namorada
novinha meninota, o de mulher mal amada, o de home macho, de home
corajoso, de home tímido, ih minha filha, bem dizer conheço todo
tipo de gente. Porque é aqui no táxi que a gente sabe tudo. É
a maior pesquisa, melhor que ibope e essas porcaria toda. Sora
vai pra Sampaulo? Num vai? - Vou, como é que o senhor sabe? -
É pelo cheiro. É um perfume que eu não conheço mas é de gente
que é artista, é moderno e tem sabedoria dos antigos e geralmente
essa gente vive entre Rio-Sampaulo ou então no exterior mesmo.
É gente que não pára quieta. É do mundo. - O senhor conhece São
Paulo? - Sora num vai acreditar mas um dia entrô aqui um home
com cheiro esquisito, um cheiro de um perfume forte que é coisa
de home que tem amante, porque assim ele apaga o perfume dela
na percepção do nariz da esposa, modo de dizer. Ou então home
traído que a própria mulher dá um perfume forte pra ele prumode
cegar o olfato do pobre. Entrou nervoso mandando eu seguir um
táxi. No táxi tinha uma moça que viajava de cabeça baixa o tempo
todo. E nóis atráis. O táxi tocou lá pra Rodoviária, lá vamos
nós. A moça saltou e comprou passagem. Pegou o ônibus de uma hora
da manhã. Ele disse vamos atrás dela que eu pago o dobro da corrida.
E lá fomo nóis. O perfume do home parece que aumentava com o nervoso
dele; eu abria a janela para sentir o cheiro do caminho que eu
tava indo. Não dizia nada nem eu nem ele. Eu só urubuzava pelo
retrovisor como quem quer vê a estrada que vai ficando pra trás,
mas meu sentido tava no rosto dele, no dilema dele. Quando manheceu
nóis tava chegando lá. A mulher mal chegou na rodoviária e foi
pegando logo outro taxi. E nóis dois atráis. Foi pr’uma casa.
Quando saltou toda decidida mas muito aflita, esse home mandou
eu parar e saltou atrás. Topou com ela. Deu dois tapa forte na
cara dela, coitada. Pois feito isso, o home entrou no carro e
disse: vamos voltar pro Rio que eu não suporto essa tal de Sampaulo.
Agora eu pergunto pra senhora: eu posso dizer que conheço Sampaulo?
Num posso. Eu lembro mais é do cheiro.
elisalucinda@radnet.com.br
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