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Cafundó
cultural
Não li, não
sei o autor nem onde saiu publicado, me informam somente que uma
nota dia desses em um jornal de São Paulo definia o Rio Grande
do Sul como “caatinga cultural”. Sem querer vestir a roupa de
maragato indignado, acho que cabe alguma reflexão sobre o assunto.
Em primeiro lugar, pela pouca delicadeza da expressão, me pergunto
o que se passa nessas redações de segundos cadernos brasileiros
que volta e meia produzem críticas e críticos biliares, gratuitamente
espumantes. Não deve ser trabalho fácil ler, escutar e assistir
por obrigação profissional o que de melhor e de pior existe no
mundo das belas artes e dos horríveis espetáculos. O salário,
disso suspeita-se em qualquer caso nesses tempos, pode não ser
lá uma maravilha. Mas isso nunca autorizou ninguém, por grande
artista ou jornalista que se julgue, a fazer xixi no meio do salão
e assinar embaixo com direito a louvores e tapinhas nas costas.
A explicação
mais óbvia e corrente é a de que esse estilo ácido e destrutivo
de crítica vende jornal, se torna assunto com mais facilidade
do que um texto sóbrio e potencialmente monótono. Estaria eu,
por exemplo, discutindo e escrevendosobre isso se a referência
ao RS fosse “um lapso contínuo na cultura nacional”? Ok, linda
explicação para um dono de tablóide, mas no caso dos ditos cadernos
dos grandes jornais, onde a crítica gosta de se justificar como
erudita e incomplacente, faltou então dizer que o que importa
é agradar o chefinho e garantir o emprego. Hmm, lá no meu tempo
isso tinha outro nome.
Por outro
lado, o estilão paternalista e cauteloso de crítica que muitas
vezes se observa aqui na caatinga também não contribui para o
andar da carruagem. Acho que o artista, tanto quanto o público,
quer ouvir da crítica uma opinião incisiva, sim, embasada e argumentativa,
que lhe permita análise, assentimento e discordância, sem a necessidade
de ver sublinhada por picardias grosseiras a obviedade de que
toda e qualquer crítica carrega o seu componente pessoal, idiossincrático,
a voz do mero ouvinte inebriado ou aborrecido, dissociado da sua
atuação jornalística, a declarar o que bem lhe sugerir o estômago.
Eu, por exemplo, que nem crítico sou, posso muito bem encerrar
esse assunto com toda a elegância, sem precisar dizer que caatinga
é a mãe de quem chamou.
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