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Água,
água...*
Luis
Fernando Verissimo
Existe um
cartum antológico do marciano perdido no meio de um deserto, se
arrastando pelo chão e pedindo: “Amoníaco, amoníaco..."
As variações
possíveis sobre o tema são infinitas.
Um inglês
arquetipal no meio do deserto, há uma semana sem beber uma gota,
se arrastando pelo chão e pedindo: “Gin-tônica, gin-tônica...”
O pobre coitado
que, além de da sedem está um pouco nervoso com a situação:
- Água com
açúcar, água com açúcar...
E, claro,
o náufrago abandonado no meio do oceano, já sem forças para se
manter à tona, só com a cabeça fora da água e pedindo:
- Um deserto,
um deserto...
Uma vez também
fiz um cartum (está bem, não era antológico) em vários quadros.
No primeiro quadro o homem, perdido no meio do deserto, com a
língua de fora, pedia “Johnny Walker Black Label, Johnny Walker
Black Label...” Dois quadros depois, o homem pedia “Red Label,
Red Label...” E no fim, desesperado, “Drury’s, Drury’s...”
O pudico,
sozinho no meio do deserto, longeda civilização e seus recursos,
de repente vê uma miragem no horizonte e sai correndo em sua direção.
- Um mictório
público, um mictório público...
Mas a pior
miragem é a que não era miragem.
O americano
perdido no meio do deserto julga avistar um stand de hamburguers
tremulando no bafo, sai correndo e descobre que é só um guichê
de pedágio. Ou então é um stand de hamburguers mas não tem ketchup.
Um francês
perdido no meio do deserto avista um oásis estocado com vinho
branco, na temperatura ideal. Vai ver e não é miragem! O vinho
existe mesmo! Mas – zupt!- a safra é de um ano inferior.
Um egípcio
e um israelense, perdidos no meio do deserto do Sinai, chegam
a um oásis. Quando se preparam para mergulhar na água, com roupa
e tudo, percebem que estão sob a mira da arma de um palestino.
O israelense se atira nos braços do egípcio e grita:
- Meu grande
amigo, vamos morrer juntos!
O egípcio
tenta fugir do abraço comprometedor mas é fuzilado pelo palestino,
que grita:
- Traidor!
Depois, o
palestino aponta sua arma para o israelense, que argumenta, indicando
o corpo do egípcio:
- Perdi um
grande amigo. Será que isto não é sofrimento bastante?
O palestino
concorda e poupa a vida do israelens, que mergulha na água. Só
para descobrir que não havia água nenhuma, era uma miragem.
- Se isto
é uma miragem, por que você a guarda? – pergunta o israelense.
- Porque
é só o que eu tenho – responde o palestino, misteriosamente.
O cronista
perdido no meio de um deserto de assuntos:
- Uma parábola,
uma parábola...
O Cláudio
Coutinho perdido no meio do deserto, já quase delirando:
- Um ponteiro,
um ponteiro.
O devoto:
- Água benta,
água benta...
O depravado:
- Absinto,
cigarros turcos e um anão albino. Absinto, cigarros turcos e...
O detalhista:
- Água potável,
água potável...
O pedante:
- H2O, H2O...
O cavalo
- Égua, égua...
(Desculpe)
O literato:
- Precioso
líquido, precioso líquido...
O nostálgico
: - Gunga
Din, Gunga Din...
O ambicioso:
- Um aguaceiro,
um aguaceiro...
O prático:
- Um bebedouro,
um bebedouro...
O calculista:
- Uma mulher
bonita com um garrafão de água, uma mulher bonita com um garrafão
de água...
O exagerado:
- Um carro-pipa,
um carro-pipa... Com a Jacqueline Bisset na direção...
O Volkswagen:
- Ar, ar...
Um peixe dentro
do Guaíba
: - Água,
água (Sutil, sutil.)
* Do livro
O Rei do Rock (RBS/Editora Globo, 1978)
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