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Publicidade talibã
Nei
Lisboa
Ouvi
no rádio há pouco e achei sensacional: a milícia
Talibã oferece cinqüenta milhões de dólares
pela captura do presidente norte-americano George W. Bush. Cinqüenta
milhões de dólares, exatamente o dobro do valor
oferecido pelo governo dos EUA para a captura de Bin Laden. Não
é genial? De um golpe só, estão nos dizendo,
primeiro, que dinheiro não é problema por lá.
Segundo, que na visão deles o bandido é outro, cara-pálida.
E terceiro, que este também pode e deve ser capturado.
Mas como, capturar o Bush?! Entrar na Casa Branca e sair de lá
com o texano debaixo do braço? Fugir de táxi, quem
sabe, até o aeroporto de Washington, e pedir pra atendente
da American Airlines, por favor, dois bilhetes, para mim
e o amigo amordaçado aqui, só de ida até
Cabul. Pois é. Exatamente o que há de patético
na idéia, a perplexidade que gera, é o que a justifica
como arma verbal que cumpre seu objetivo por si só. Vale
mais que um discurso, porque aqui nem sequer se discute, não
se disserta sobre a tese do Grande Satã, já está
implicitamente posta e decidida a questão de quem é
o vilão maior, inclusive duas vezes mais caro que o seu
concorrente. Também não se apresenta como ameaça
concreta, realizável, que para tanto seria mais fácil
sugerir o assassinato do presidente dos EUA, não a sua
captura. O que parece interessar, aqui, é que o pensamento
ocidental se defronte justamente com o exótico absurdo,
o impensável, o incompreensível, ainda que rindo
e duvidando, mas já fisgado por uma lógica interna
do inimigo, já sutilmente levado a olhar o mundo com seus
olhos, da entrada de uma caverna perdida nos confins do Afeganistão.
Jogada de marketing, sem dúvida, inteligente e bem-humorada,
muito eficiente também, e não é a primeira
do gênero que produz o departamento lá dos publicitários
talibãs.
Ou então, mais simplesmente, estarão apenas reafirmando
que captura, nessa guerra, de qualquer lado que se olhe, é
um eufemismo para assassinatos em massa.
* * *
Escuto também
que o risco-país dos vizinhos bateu novo recorde, e que
o ministro Cavallo declarou estar a Argentina à beira do
abismo. Péssimo lugar para se ficar ao lado de um tordilho
angustiado, se me permitem. Não entendo, se é que
alguém entende, desse economês que não encontra
saída outra além de reendividar um país para
restituir credibilidade perante os mesmos credores, e dependendo
deles para avalizar o sucesso da operação, donde
o agiota será feliz eternamente, aumentando as tabelinhas
do risco e dos juros e do tamanho do abismo até que a Patagônia
bote um ovo. Pelo amor de Deus, ou de Alá, o que for mais
rápido, salvem a Argentina.
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