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Ironia
Fina
Luis
Fernando Verissimo
Ironia
é como onda de rádio, se não encontrar um
receptor adequado, se perde. Não adianta você escrever
com ironia se não é lido com ironia, e o desencontro
pode ser perigoso. Uma vez escrevi que a solução
para o Brasil era eliminar o povo, único responsável
pelos nossos maus índices sociais. Sem o povo e sua miséria
seríamos um dos países mais adiantados do mundo.
Recebi uma carta de um leitor que entendia que eu estava brincando
quando falava em eliminar o povo, o que seria uma
impossibilidade, mas me cumprimentando pela coragem: finalmente
alguém apontava o dedo para os verdadeiros culpados pela
nossa situação. Outra vez escrevi que o Movimento
dos Sem-Terra tinha cometido o pior crime que um movimento de
reivindicação social poderia cometer, que era se
organizar e agir, e não faltaram leitores me chamando de
insensível e reacionário. Estes pelo menos são
desentendimentos sinceros, devidos à falta de discernimento
ou senso de humor. Também há os que lêem o
que querem, não o que você escreveu, ou lhe atribuem
posições que você não tem, mas aí
já passamos para a falta de outra coisa.
Muitas vezes a culpa pelo mal-entendido é de quem escreve,
e tem a mínima obrigação profissional de
ser claro. Mas uma mínima, também, colaboração
do leitor é indispensável. Talvez a solução
seja fazer como naquele filme americano, uma comédia cujo
título eu não vou me lembrar, em que de repente
um dos atores interrompe a ação e começa
a recitar um texto filosófico e inspirador enquanto na
tela aparece, em flashes, a palavra mensagem, mensagem.
Algumas publicações ainda encabeçam seções
de cartuns ou textos com a palavra humor, que é
para o leitor não ter dúvidas. No fundo, a culpa
é destes tempos confusos em que é difícil
saber o que é gozação e o que não
é, e que mensagem esperam que a gente entenda. Quem nos
assegura que esse último decreto do governo, mais um passo
no nosso amargo regresso às relações capital/trabalho
do século 19, não seja uma peça de fina ironia
com a nossa cara? Ou então levaram a minha sugestão
a sério e decidiram-se pela eliminação do
povo, só que agora sem gradualismo.
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