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O
que pensa o novo governador
O
governador eleito Germano Rigotto, que começou a fazer
política nos tempos de estudante, em Caxias do Sul, é
formado em Odontologia e cursou Direito na UFRGS. Foi o vereador
mais votado pelo então MDB na eleição de
1976. Mais tarde, viria a ser deputado estadual; foi líder
do governo Simon e do partido na Assembléia. Em 1991, tornou-se
deputado federal, reeleito em 1994 e 1998, permanecendo sempre
entre os dois mais votados do Rio Grande do Sul. No Congresso
Nacional, foi líder do PMDB e do Governo de Fernando Henrique
Cardoso, onde também presidiu importantes comissões,
entre elas, a da Reforma Tributária. Mesmo acusado pelos
adversários políticos por ter um comportamento contraditório
em votações polêmicas como a manutenção
de direitos de aposentados e trabalhadores, consagrou-se nas urnas
gaúchas no último pleito e assume o Governo do Estado
a partir de janeiro de 2003. Afirmou, durante sua campanha, não
ser um radical nem de direita nem de esquerda, o que o coloca
diretamente no centro. Defendeu que o antagonismo entre o britismo
e o petismo estaria drenando as energias políticas
do Estado e que precisava ter fim. Uma lida mais atenta em seu
programa de Governo aponta na verdade para o que se trata de uma
carta de princípios. Na área da Educação,
já nas primeiras semanas de novembro, o governador eleito
divulgou quais seriam suas prioridades, ganhando destaque a promoção
da qualidade dos Ensinos Fundamental e Médio, além
da expansão e diversificação da Educação
Profissional. Para o Ensino Fundamental, a prioridade fica sendo
a qualidade e a retomada de avaliações externas
com fixação de metas relativas a indicadores conhecidos.
O Ensino Médio deve ampliar a oferta de vagas com objetivo
de permitir maior acesso ao mercado de trabalho e ingresso dos
estudantes nas universidades. Já a Uergs deverá
ter alterações em seu perfil. Rigotto falou com
exclusividade ao Extra Classe no início do mês de
dezembro, às vésperas de uma viagem à Europa.
César Fraga
Extra
Classe Quais serão as primeiras ações
do novo Governo gaúcho e em que áreas?
Germano Rigotto O governo eleito do Estado está
estudando dentro das equipes de transição a realidade
do Rio Grande do Sul. Esse trabalho, conjuntamente com a definição
do secretariado, determinará essas primeiras ações,
que deverão ser feitas dentro da condução
que sempre determinamos para o nosso governo, que é o de
enfrentamento das desigualdades regionais, geração
de emprego e renda e ação social.
EC E quanto aos programas já existentes do governo
anterior: serão mantidos ou extintos, como é praxis
nas mudanças de gestão?
Rigotto Dentro dessa análise, estamos tomando
conhecimento da formulação dos atuais programas
que o governo possui, suas experiências positivas ou negativas
e a perspectiva de continuidade dessas ações. Posso
adiantar que programas como o Municipalização Solidária
da Saúde devem ser mantidos.
EC No seu diagnóstico, qual o principal problema
social a ser atacado?
Rigotto O principal problema social é o empobrecimento
de algumas regiões do Estado, o que acarreta uma migração
descontrolada para cidades maiores, que acabam virando locais
em que proliferam bolsões de pobreza e de subhabitações.
Vamos fazer um trabalho para operar um desenvolvimento harmônico
no RS, criando mais emprego e renda nessas regiões deprimidas
economicamente e evitando essa migração para as
grandes cidades.
EC Como o senhor pretende otimizar os recursos do Estado
para qualificar as ações no setor da educação,
o que inclui salários de professores e recursos para as
escolas?
Rigotto O Estado precisa entrar em uma nova fase de
crescimento e desenvolvimento econômico, que vai possibilitar
o aumento da arrecadação, sem a necessidade de aumento
de impostos. Com isso, esperamos ampliar o nosso PIB, possibilitando
um incremento nos recursos que passarão a ser aplicados
dentro das diferentes áreas do governo, incluída
aí a educação, área que deve ser prioritária
em qualquer governo.
EC E como ficam o sistema estadual de educação
e seus professores?
Rigotto O magistério estadual e os funcionários
de escolas contarão com programas de valorização
funcional, que também passam pela melhoria na questão
salarial. No entanto, não vou prometer nada que não
seja realmente possível de ser concretizado, mantendo uma
postura que nossa coligação União pelo Rio
Grande adotou na campanha eleitoral, e que seguirá como
norte na futura administração estadual.
EC Os sistemas de incentivo fiscal para atração
de investimentos e empresas serão a tônica da sua
gestão? Já existem políticas definidas para
atração desses investimentos para o Estado?
Rigotto A definição de uma política
fiscal não é a tônica da nossa gestão.
É, sim, um importante momento, uma vez que esse instrumento
ajudará de maneira significativa, esperamos, no trabalho
de atração de novos investimentos para o Rio Grande
do Sul.
EC Mas o projeto de reforma fiscal que o senhor defendeu
no Congresso exclui essa prática. Não há
uma contradição?
Rigotto Embora no projeto de reforma tributária
que comandei no Congresso a guerra fiscal seja suprimida, em um
período de 3 a 4 anos, atualmente não posso fugir
dessa situação. Se tiver de utilizá-la, como
forma de criar mais emprego e renda, além de contribuir
para o desenvolvimento do Estado, com certeza tomarei essa decisão.
EC A aplicação dessas políticas
demandam muito tempo tanto para a implantação como
para darem resultados. Como o senhor pretende fazer isso em quatro
anos?
Rigotto Essas políticas deverão estar
prontas para serem apresentadas no momento em que o governo estadual,
efetivamente, seja empossado e inicie suas tratativas para buscar
novas empresas e empreendimentos para o RS, além de fomentar
os investimentos daquelas que já estão em solo gaúcho.
EC Quais são os planos do novo Governo na área
de Segurança Pública?
Rigotto O nosso principal objetivo na área de
segurança é modificar o quadro atual, fazendo com
que as corporações policiais voltem a ter sua autonomia,
sua dignidade funcional e sua auto-estima recuperada. Essa valorização,
que também atingirá a Susepe e os órgãos
técnicos, determinará uma ação melhorada.
Nossas polícias precisam de uma ação mais
preventiva e ostensiva, e não contemplativa, como, por
uma decisão do governo, ocorreu nos últimos quatro
anos.
EC E a integração entre as polícias,
que sempre foi um tema polêmica para as próprias
corporações, as quais historicamente sempre resistiram
a qualquer possibilidade de se efetivar?
Rigotto O projeto de integração vai se
dar nas ações que serão feitas na área
de inteligência, com a criação de um banco
de dados único e de fácil acesso. Não será
um processo de fusão das polícias civil e militar,
que deverão atuar de forma conjunta, mas sem que haja a
unificação. As definições quanto à
reformulação que forem tomadas no âmbito nacional
serão analisadas pelos nossos técnicos da área,
o que não significa seu acolhimento, mas o debate sobre
as necessidades para a sua adequação.
EC Como o senhor pretende atacar o problema do emprego?
O projeto de 1º emprego continuará? Existe alguma
política para reinclusão de pessoas com mais de
40 anos com dificuldades de se reinserirem no mercado de trabalho?
Rigotto A criação de empregos é
uma prioridade do nosso governo e está inserida dentro
da determinação de atuarmos no sentido de unirmos
o desenvolvimento econômico com a ação social.
Precisamos de mecanismos que facilitem esse movimento. O programa
Primeiro Emprego tem amplas chances de ser mantido e aprimorado.
Mais do que possibilitar a entrada no mercado de trabalho desses
jovens, implantaremos projetos que criem novos empreendedores,
e não apenas funcionários. Para aquelas pessoas
com mais de 40 anos, o nosso governo adotará um programa
específico, que vai reconduzi-las ao mercado de trabalho,
em segmentos que possam contar com esses profissionais.
EC Como seu governo pretende fomentar o empreendedorismo,
pois também existiam programas nesse sentido pela gestão
anterior e na Prefeitura de Porto Alegre?
Rigotto Os programas, como uma central de empreendedorismo,
já começam a ser pensados, em contatos com universidades
e entidades que desenvolvem ações semelhantes.
EC Como está sua relação com o
presidente eleito e como o Rio Grande do Sul deve participar das
mudanças estruturais propostas por Lula?
Rigotto O presidente Lula informou sobre a sua intenção
de aprovar uma ampla reforma tributária nos primeiros seis
meses de seu governo, tendo como base o projeto que, junto com
o Antônio Palocci, detalhamos em um debate amplo com a sociedade,
numa área em que o presidente entende que posso ajudar
como governador e até mesmo no Congresso. Essas mudanças
estruturais na área fiscal e tributária definirão
um novo ordenamento nas questões relativas às responsabilidades
da União, Estados e municípios, favorecendo a discussão
de um novo pacto federativo, e estarei dando minha contribuição
de forma irrestrita.
EC E a questão das dívidas da União
com os estados?
Rigotto Na questão do ressarcimento de dívidas
da União por obras realizadas pelo Estado, informei o presidente
Lula sobre a discussão do tema com o presidente Fernando
Henrique Cardoso. Apenas ressaltei a intenção de
receber tratamento igualitário, conforme pleito do governo
estadual, no momento em que uma negociação sobre
o repasse desses recursos seja realizada, o que me foi garantido
pelo presidente eleito.
EC O senhor também teve uma reunião com
o presidente da Câmara Aécio Neves, governador eleito
de Minas. Isso é um indicativo de aproximação
política entre os dois estados?
Rigotto Temos realidades semelhantes e trabalharemos
em estratégias conjuntas de atuação, principalmente
em questões como a reforma tributária, a definição
de um novo pacto federativo e a renegociação das
dívidas estaduais e acerto de contas com a União.
EC Como foi sua conversa com o ministro dos Transportes
João Henrique de Almeida?
Rigotto Nosso contato foi no sentido de conhecer a
realidade dos recursos que estão reservados para obras
no RS, para que a partir daí possamos articular junto à
bancada federal gaúcha a possibilidade de ampliar essas
dotações através de emendas ao Orçamento.
Pelos dados repassados pelo ministério, estão previstos
repasses de R$ 25 milhões para reparação
de rodovias federais, mais R$ 15 milhões para o trecho
São Leopoldo-Novo Hamburgo do Trensurb e R$ 8 milhões
no trecho Sapucaia do Sul-São Leopoldo. Também há
previsão de R$ 25 milhões para ampliação
dos molhes do Porto de Rio Grande e outros R$ 9 milhões
para a chamada Estrada do Inferno. Passei ao ministro, ainda,
a intenção de buscarmos junto ao governo federal
a possibilidade de uma parceria para contarmos com recursos da
União para as obras na rodovia Rota do Sol.
EC E na área da saúde?
Rigotto Em audiência com o ministro da Saúde,
Barjas Negri, solicitamos a ampliação dos recursos
a serem disponibilizados, ainda neste ano, para a construção
de novos postos de saúde e o aparelhamento de hospitais
regionais. A implantação de novos postos de saúde
é um compromisso do nosso governo, e já estamos
envidando esforços para que se aumentem as verbas disponíveis
nessa área, que também serão negociadas através
de emendas parlamentares. Fomos informados de que o Orçamento
da União prevê um repasse de R$ 1,7 bilhão
para o atendimento básico no RS, principalmente para áreas
como o Programa Saúde da Família e Agentes Comunitários
de Saúde. Esse percentual é ainda maior do que o
enviado neste exercício, o que demonstra a importância
do Estado na condução de políticas públicas
na área da saúde, e que podem ser traduzidas para
o âmbito federal.
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