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Uísque em pílulas
Nei
Lisboa
Essa
é muito interessante, olha só: anuncia-se para o
próximo ano o lançamento no mercado de uma droga
eficaz no combate à timidez. Parece que finalmente inventaram
o uísque em pílulas caubói, por enquanto,
que ainda está por resolver-se a questão do gelo.
A nova droga, prima extrovertida do Prozac, promete mínimos
efeitos colaterais, apoiada em novas tecnologias e descobertas
da indústria farmacêutica. Ou seja, não produz
ressaca orgânica aparente. Mas e como é que fica
a ressaca moral? O sujeito de uma vida acanhada em nobre e bom
comportamento subitamente passa a assediar a vizinha, a dar shows
em festas do escritório, a freqüentar o Sofazão.
A garotinha tímida da sala de aula, de uma hora para outra,
descobre-se capaz de enfrentamentos impulsivos e loquazes. Onde
foram parar as antigas identidades? E o que pode vir a acontecer
a essas criaturas ao interromper um tratamento com tal substância?
Duvido que essas questões tirem o sono dos cientistas da
farmacomania psiquiátrica e seus representantes médicos.
Tal como no caso do Prozac, a receptividade a uma pílula
mágica que suprima os sintomas de desajustamento social
deve ser enorme. Estamos todos nos tornando ligados na tomada,
agressivamente produtivos, ambiciosamente adornados pelo consumo
e não é possível que um reles traço
de caráter ou comportamento como a timidez interponha-se
entre nós e nossos desejos. Torna-se demanda indispensável
um remédio rápido e potente para lidar com esses
estorvos atormentadores da vida: a psique, a consciência,
a alma, quer dizer, a vida em si mesma.
Também não surpreende que essas novidades farmoquímicas
surjam acompanhadas da enésima participação
de falecimento da Psicanálise. Na visão da indústria,
os clientes em potencial são atraídos também
pelo descrédito em que se trata de lançar a concorrência
de Mr. Freud. O que você prefere, dez anos em um divã
cheio de incertezas, encucações, dificuldades e
sofrimentos ou um vidrinho na farmácia da esquina com a
solução imediata a preços infinitamente mais
baratos? Bom, há que se relativizar aqui essas questões.
Em primeiro lugar, esse raciocínio em termos de concorrência
se parece com a idéia de que a aspirina veio abolir não
apenas a dor de cabeça, mas a cabeça em si, ou as
preocupações diárias que a levam a latejar.
Quanto ao preço, well, Mr. Hoestche, vamos poder calcular
um custo-benefício a partir de observações
e resultados mais prolongados do que o efeito de uma pílula
a cada doze horas. Talvez em uma ou duas gerações
de adictos, lá pelas tantas a perguntarem-se apavorados
e convulsos como foram parar no Sofazão. Talvez com uma
ressaca psicossocial do tamanho de um barril de Greenvalley, para
a qual, evidentemente, a sua empresa vai apressar-se em produzir
uma nova e infalível droga. Ou talvez com resultados mais
tímidos, digamos assim, se a Psicanálise prosseguir
como parece que vai, mais viva e necessária do que nunca,
tratando com estima os monstros reais que nos habitam e, tal como
eles, imune a tiroteios de videogame e venenos de mentirinha.
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