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"Não!
Não!"
Luis
Fernando Verissimo
Parábola.
Um dia, os bichos começam a falar. O primeiro caso é
num abatedouro, onde um boi, na fila para ser abatido, subitamente
começa a gritar Não! Não!. Grande
consternação. A fila pára. O abate é
interrompido. O que fazer? Decidem que foi uma ilusão.
Que um boi fez mu e soou como não.
Mas assim que a fila recomeça a andar, ouve-se novamente,
com toda a clareza, o grito. Não! Não!
Nova interrupção. O caso é levado à
direção do abatedouro. Depois de alguma deliberação,
decidem que nada, realmente, mudou. O fato de falar não
significa que o boi deixou de ser boi, ou que o negócio
do abatedouro deixou de ser o de abatê-lo. E, mesmo, é
só um boi, que sabe só uma palavra. E não
há, afinal, muita diferença entre Não
e Mu. O abate deve continuar.
No dia seguinte, outro boi grita não apenas Não!
Não! mas Socorro! e Me tirem daqui!
O abate continua. Mas no dia seguinte mais dois bois se manifestam
e um deles, além de Não! e de Socorro!,
grita Vocês não podem fazer isto!. É
demais. O abate é interrompido por tempo indefinido. A
notícia dos bois falantes se espalha, e logo surge a informação
de fenômenos parecidos em várias partes do mundo.
Porcos se rebelando contra o seu sacrifício com gritos
de Parem! e Injustiça!. Ovelhas
queixando-se ruidosamente do frio depois da tosquia e também
tentando dissuadir seus abatedores com protestos e imprecações.
Galinhas fugindo dos seus executores e insistindo, freneticamente,
para serem ouvidas. E o pior é que bois, porcos, ovinos
e galinhas são persuasivos. Se apenas falassem, seriam
apenas curiosidades. Mas não: são articulados. E
- surpresa - têm uma noção muito precisa da
sua condição e dos seus direitos. Só lhes
faltava a voz. E, claro, a retórica.
Um filósofo, lendo a respeito da rebelião, especula
em voz alta que o ser humano terá que mudar sua dieta,
diante da nova realidade de bichos com argumentos. E ouve uma
voz aos seus pés que diz:
Não apenas a dieta, não é, professor?
O filósofo descobre que quem falou foi seu cachorro, que
passa a discorrer sobre todas as mudanças de comportamento,
de presunções e velhas certezas, a que a espécie
humana se obrigará, ao descobrir que não tem o monopólio
da linguagem, e portanto da razão e do poder. Ao que o
filósofo tem que concordar.
E a rebelião não pára. Vem a notícia
de que um repolho, ao ser arrancado da terra, gritou Ai!
e pediu para falar com um advogado.
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