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A ilusão
da cidadania
Este artigo
foi publicado com erros de revisão na edição passada. A seguir,
a versão correta.
"Todo
homem decente se envergonha do governo sob o qual vive"
de O Livro dos Insultos, H. L. Mencken
Numa
reportagem sobre a Suécia, na década de 70, um médico
local comentava alguns aspectos negativos daquele país,
como álcool, tédio e suicídio, mas fazia
uma ressalva: "Filho de pescadores, só aqui eu conseguiria
ingressar na principal universidade e me formar em medicina sem
pagar nada". Este relato introdutório é a melhor
maneira de tratar a cidadania - com exemplos, e não conceitos;
porque se há lugar onde tal palavra nunca fez sentido,
ou significa muito pouco, é nas terras devastadas abaixo
do equador.
A
cidadania que conhecemos é puramente formal, sem correspondência
na realidade, pois três quartos da população
se acha excluída do exercício efetivo dos direitos civis
e políticos garantidos pela Constituição. Não é à toa que o jornalista Paulo Francis, numa de suas típicas boutades, tenha afirmado que os negros americanos, por comparação, gozavam de mais
direitos que a maioria do povo brasileiro. Por quê? Porque jamais
houve democracia verdadeira - econômica - no Brasil, apenas
essa coisa de fachada, casuística, hipócrita e mentirosa.
A
cidadania real exige um sujeito ativo, participante, reivindicatório, pronto a interpelar o Poder e pleitear Justiça, quando
necessário, fato que grande parte das pessoas desconhece absolutamente.
A desigualdade é o nosso brasão, a nossa nobiliarquia - a nona
ou décima economia do planeta tem a pior distribuição de renda;
daí que metade dos habitantes subsistam aquém da linha de pobreza,
e outra parcela esteja bem próximo a isso.
Em
Pindorama a cidadania nasce da passividade. No máximo, você será
arrebanhado de vez em quando para eleger representantes municipais,
estaduais ou federais. Depois, volta para casa, aguardando que
os escolhidos façam o "seu governo". Se o eleito fracassa,
o que não é raro, tem-se que suportá-lo até o fim do mandato,
numa relação insuperável de sadomasoquismo. Exemplo perfeito vem
do governo federal. Após cumprir um primeiro mandato apoteótico,
escorado na estabilidade da moeda, e deixar em banho-maria graves
problemas nacionais para pressionar pela emenda da reeleição,
o Segundo Reinado, ao desabar a paridade artificial do câmbio
e tudo que lhe dava sustentação, está sendo penoso, terrível e
opressivo para quase todos os brasileiros. O país se transformou
num laboratório da experiência neoliberal, esse fascismo pós-moderno
em que a barbárie ilustrada substitui o humanismo antiquado.
No
primeiro mandato, momento em que se conseguiu derrubar a inflação
e a moeda se estabilizou a um custo extremamente recessivo, com
desemprego em massa e quebra generalizada de empresas, Sua Excelência
deitou cátedra: "São as dores da modernização"; um de seus ministros,
Malan, formulou uma declaração estarrecedora, transcrita por
Frei Beto em artigo na Folha de S. Paulo: "O social é o último objetivo do governo". Agora mesmo, Sua Excelência, ao perder
judicialmente a contribuição previdenciária dos aposentados,
nos dá este aviso assustador - ele "terá que cortar na carne"
e diminuir os programas orçamentários (quebrar ossos seria
melhor, porque carne resta pouca).
Se
alguém ousa reclamar, eles fuzilam: "virem-se!", que "cada um
procure se adaptar ao progresso tecnológico do mundo moderno".
Quão cândido é o neoliberal. Pragmático, relativista, sempre
à beira de um ataque de cinismo. Vejam o funcionamento da coisa:
depois da liminar impedindo o desconto dos aposentados, Sua Excelência
deve propor uma emenda constitucional que permitirá cobrar aquela
taxa. Conta com o apoio dos partidos aliados que ajudaram a derrotar
essa mesma pretensão em 1998. Atentem na parlapatice do deputado Aécio Neves, do PSDB, um dos que votaram contra no ano passado. Em 1998: "Não queremos a contribuição. Dizemos isso de forma
extremamente cristalina e não de forma mascarada"; agora, na véspera de provável emenda: "Não tenho que justificar nada. 98
é 98, 99 é 99, 2000 é 2000. No acordo assinado não está escrito
ad aeternum e até que a morte os separe". É apenas um dos que
mudarão o voto.
Depois
de satanizar os servidores públicos, uma categoria que hoje
se envergonha de si mesma e da nacionalidade, Sua Excelência,
o "Grande Irmão", decidiu punir os funcionários inativos, os quais
foram desativados, não produzem e teimam em continuar vivos,
numa espécie de morte civil, atrapalhando os planos do governo
e a prestação de contas ao FMI. É um ato prepotente e covarde
contra seres que já não possuem nenhuma defesa.
O
Brasil parece vasto campo de concentração, onde o povo é cobaia
de um projeto político-econômico homicida, que está a arrancar-lhe
a pele e as unhas, devagarinho, dessangrando-o, até acabar por
moê-lo completamente. De modo geral, o povo brasileiro se encontra
na condição de rebanho bovino, gado sendo conduzido sem resistência
ao matadouro. Portanto, a cidadania - liberdade, igualdade,
fraternidade - ainda é a utopia do terceiro milênio.
*dois Santos
dos Santos é poeta, autor de Sobre Corpos e Ganas (1995)
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