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Eu avisei
Nei Lisbôa
Brasileiro
já é chegado numa festinha, qualquer motivo serve.
O que dizer de um tríplice final de ano, século
e milênio? Nem adianta sair pela rua gritando "peraí,
gente, tá errado, é só em 2001", você
vai ser pisoteado na calçada em frente a C&A e ninguém
vai escutar. E em se tratando do Século dos Excessos, bem,
aí mesmo é que o baticum vai ser dos grandes. O
Natal, Jesus me livre disso, vai ter perus do tamanho de avestruzes
e gente estragando o panetone pensando que senta num pufe. O Robertão
vai cantar "Emoções" tomado pelas próprias,
e onde Deus vai enfiar as multidões do padre Marcelo? Já
o reveillon, caindo numa sexta-feira, dá pra imaginar que
não termine antes da segunda. Sem falar em Salvador, onde
o carnaval é eterno de qualquer jeito. A Globo vai passar
tudo ao vivo, é claro, com setecentas câmeras e igual
número de duplas sertanejas. Com sorte, ali pela madrugada
de domingo a gente vai poder flagar um estresse ou outro, a voz
do Galvão em off dizendo "Pelé, você
definitivamente não entende nada de futebol" ou a
Xuxa acarinhando a filha com um "Sasha, se não calar
a boca te mando pra outra lipoaspiração". Nem
vou falar na habitual violência e nas tragédias de
fim de ano, ou nas previsões da Mãe Dinah, que vão
sair em três volumes, cobrindo todo o próximo milênio.
Já basta pensar no humilde caos pessoal e familiar de quem
se decide a participar de tal festerê com a cara, a coragem
e os juros do cheque especial. Indefesos, na grande maioria, diante
da pressão das circunstâncias e das sogras, embora
cientes da possibilidade de que, onde o milênio começa
errado, tudo o mais possa ir também por cidra abaixo. E
certamente vai faltar champanhe para tanta comemoração.
Deve ter gente estocando cerveja desde agora, e o décimo-terceiro
de quem ainda está empregado já tem destino certo:
a geladeira, que há de ser pequena para as orgias programadas,
donde conclui-se que também vai faltar gelo. Vai faltar
peru, diante da ousadia de quem só recentemente foi autorizado
a comer frango. Vai faltar vinho, refrigerante, castanha, nozes,
vela, milho, cachaça, lentilha, viagra, compostura e Engov
para amenizar uma megaressaca milenar. Ou seja, vamos partir direto
do século dos excessos pro day after da escassez, da carência
e da míngua. Se você prefere aderir, tudo bem. Mas
quando acordar, dia três, suplicando por um litro d'água
e uma aspirina, e descobrir que o vizinho do térreo esvaziou
a caixa do edifício na piscina de plástico olímpica
do Luquinhas e que todo o líquido que resta na casa é
meio copo de sukita quente que alguém já usou como
cinzeiro, pense em mim. Não vou estar localizável,
a pensão da Grünshen no interior de Igrejinha não
tem telefone. Mas meu espírito natalino estará intacto
e elevado, transmitindo uma pequena mensagem de solidariedade
para essa hora difícil: - "Eu avisei". Guarde
a sukita. Pode ser que no próximo dezembro, ao assumir
o erro, eles queiram fazer tudo de novo. E - vou falar sério
antes que esqueça - um feliz Natal, ótimas festas
e um próspero ano 2000 para todos vocês.
*Nei Lisboa
é cantor e compositor
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