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Dor de
Fevereiro
Elisa
Lucinda *
Eu
acordo magra. Acordo alta e fina. Não que eu durma baixinha e
gorda, mas sempre acordo menos cheia da que foi deitar-se para
esta manhã. Ontem, fui dormir com trinta e oito anos pela última
vez. Gostei deles mas queria ter brincado mais. Eu gosto quando
não acaba a brincadeira.
Amanheceu
um domingo azul. Recortado pelo verde das montanhas parece até
encomenda. O mar também veio com seus escândalos de anil... Só
minha mãe não compareceu ao calendário de hoje. Todos os anos
ligava e era o mesmo ritual: Filha? Feliz aniversário. Você está
quase nascendo. Já estou sentindo as contrações. E gargalhava
na brincadeira materna. Me lembro, filha, que era domingo. Eu
estava passando batom para ir ver os blocos, o desfile, quando
senti a primeira contração. E depois a outra e mais outra... Larguei
batom e seu pai me levou direto para a maternidade. Fiquei lá
lendo umas revistas que seu pai comprou pra mim. Cê acredita?
Sim, porque
foi chegar lá pra neném não dar sinal mais de nascer. Só foi nascer
ao meio-dia, a danadinha. Linda! Não é por ser minha filha não,
mas nasceu linda. Duas pedrinhas azuis no lugar dos olhos. Ai,
parece que estou vendo. Depois é que seus olhos ficaram verdes.
Seu pai com você no colo se exibindo pros amigos médicos e enfermeiras.
Todo bobo seu pai. E você era a cara dele. O homem chegava tá
mole. E eu feliz que só vendo.
Você saiu
sem me doer. Quando decidiu, veio. Saiu sem me sacrificar. Lá
fora a gente só ouvia a banda da janela, os mascarados à tarde,
a gente via. Feliz aniversário, filha!
A poesia de
minha mãe era essa. Cotidiana. Costurada por dentro da palavra
conversa e da palavra dia. Eu adorava ouvir essa história do meu
nascimento pela voz dela e ia a cada ano descobrindo um novo
detalhe dentro da narrativa. Aquela voz no meu ouvido a me contar
que tinha cheiro vermelho de rouge, parecia um peito bom na minha
cara e no meu ouvido.
Hoje é domingo
azul de sol e carnaval outra vez. Nem sempre é domingo e carnaval
e aniversário acontecem juntos. É só de vez em quando. Hoje é
uma dessa vez. E passo batom em mim. Essa bandinha de bairro,
bandinha de pracinha com esses senhores tocando “Cidade Maravilhosa”
tem um jeito especial de encher meus olhos de lágrimas e ao mesmo
tempo partir-me o peito. Vem na boca o gosto de toda a folia na
adolescência em Jacaraípe com serpentinas pontuando a história.
Vou pintando
os olhos vestindo a fantasia. Aquela conversa de minha mãe era
uma bandinha de carnaval no meu ouvido. Hoje é domingo e aniversário.
Minha mãe não ligou. No meu peito a clarineta, o tarol, o sax,
o bumbo, toda a banda inteira do meu peito toca “Mamãe eu quero.”
*Elisa
Lucinda é atriz e poeta
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