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Walter
Galvani
Cabral
era um democrata
Responsável
pela primeira biografia do descobridor do Brasil em 500 anos de
história, o jornalista Walter Galvani critica a historiografia
oficial do país, diz que fez uma grande reportagem sobre
o descobrimento e instiga os profissionais da mídia a serem
mais contestadores. A seguir, os principais trechos da entrevista
que concedeu ao Extra Classe
Flávio
Ilha
Extra Classe
– Há uma enxurrada de obras sobre os 500 anos do descobrimento.
Por que uma biografia sobre Pedro Álvarez Cabral?
Walter
Galvani – Em primeiro lugar, o tema 500 Anos de Brasil serviu
apenas de gatilho para detonar um projeto que vinha desenvolvendo
com razões pouco objetivas há muito tempo. É uma ligação que
nasceu do romance que estou escrevendo, interrompido para que
Nau Capitânea fosse escrito. Por que a relação? Porque o personagem
principal do meu romance seria um descendente de Pedro Álvarez
Cabral. A história se desenrola em Colônia, cidade portuguesa
fundada na cara de Buenos Aires em 1640. Estou trabalhando nesse
texto há sete anos.
EC – Nesse
meio tempo o senhor escreveu outros dois livros.
WG – Exatamente.
Escrevi um livro sobre o Correio do Povo (Um Século de Poder
– Os Bastidores da Caldas Júnior), aproveitando o centenário
do jornal em 1995. Depois, fui cobrado por colegas para escrever
alguma coisa sobre a Folha da Tarde, com o qual tive um envolvimento
emocional e histórico muito grande (Olha a Folha!). Tudo entremeado
pelo romance. Foi quando minha mulher perguntou por que eu não
escrevia diretamente sobre os descobridores, ao invés de contar
a história de um suposto tetraneto de Cabral. Assim fomos parar
em Portugal.
EC – Houve
dificuldade em reconstituir a história de um desterrado como Pedro
Álvarez Cabral?
WG – Na verdade,
eu já havia pesquisado todo o material editado disponível sobre
o assunto no Brasil e em Portugal, mas ainda não havia chegado
ao enfoque que teria o livro. Quando fui para Portugal, tinha
a expectativa de sentir o ambiente que possibilitou a formação
das condições básicas daquelas expedições. Tinha a expectativa
de ir às fontes primárias, aos documentos. Foi
então que me dei conta que estava construindo uma grande reportagem
sobre o assunto. No fundo, eu estava querendo mesmo era produzir
uma reportagem dentro dos critérios do jornalismo investigativo.
Descobri então duas coisas fundamentais: a primeira, que não
existia em Portugal nada sobre o Cabral em si, assim como no Brasil
também não. Apesar de ele ser o nome mais conhecido e popular
da nossa história. Por que ninguém sabe nada? Porque ele, ao cometer
o absurdo de dizer não a um soberano absolutista, foi posto
à margem dos acontecimentos e esquecido pela história oficial
portuguesa e, conseqüentemente, pela história oficial brasileira.
Aí vem a segunda descoberta: de certa forma, encontramos nisso
uma estreita identidade de Cabral com o povo brasileiro, que também
se sente preterido, injustiçado, rejeitado. Trabalhei em cima
da redescoberta de um dos pais fundadores da idéia do Brasil como
país, como uma forma de resgatar um pouco da nossa honra. Tanto
que é a primeira biografia de Cabral em 500 anos de história.
Continua
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