|
Vingança
e exploração
Luiz
Carlos Barbosa
Decididamente
os livros fazem pontes insuspeitáveis, que proporcionam reflexões
a um só tempo sobre a literatura e o mundo real. Sem dúvida é
o caso deste ensaio da professora de Filosofia e antropóloga
Maria de Nazareth Agra Hassen, elaborado a partir de pesquisa
de campo no Presídio Central de Porto Alegre entre 1993 e 1994
e amparado por uma exaustiva revisão bibliográfica.
O resultado
desta empreitada, transformada em livro, “O trabalho e os dias
- ensaio antropológico sobre trabalho, crime e prisão”, pela Tomo
Editorial/Ventura Livros, chama a atenção não pela novidade do
tema e nem pelas conclusões a que chega, mas pela reincidência
de questões sociais tão complexas quanto urgentes há muito tempo.
Se aceitarmos
a imprecisão conceitual de que a literatura é uma espécie de grande
metáfora da vida vivida ou projetada, quando se fala de prisão,
crime e trabalho não há como ignorar o formidável e clássico
“Os miseráveis”, de Victor Hugo. Criado sob o auge da estética
romântica como expressão crítica nos quadros de um capitalismo
ascendente, o protagonista João Valjean encerra um paradigma válido
sobre as noções do crime, do sistema prisional e do trabalho.
Sua trajetória e seu fim são inevitavelmente românticos, é claro,
mas o subtexto é tão universal que coteja o ensaio da professora
gaúcha.
Um século
depois, as desmedidas da personagem de ficção – em uma perspectiva
aristotélica – ainda reproduzem, guardadas todas as proporções
possíveis, as incongruências morais ou simplesmente lógicas de
uma sociedade que segrega os infratores, mas tem no crime e no
sistema de punição, digamos assim, um elemento imprescindível
à operacionalidade desta mesma sociedade. Este é um dos aspectos
levantado em “O trabalho e os dias...”.
O que surpreende,
ainda mais que a obra está isenta de uma simplória denúncia política,
mas tem um caráter científico, é a constatação de que o sistema
prisional estudado – como de resto em todo o país – possui uma
dinâmica perversa como se o mundo social em nada tivesse avançado
nos últimos 100 anos. As orientações que presidem não só a determinação
de penas como a privação da liberdade e o recurso do trabalho
como mecanismo de “ressocialização” se referem a pressupostos
teóricos e jurídicos anteriores a idéias como os direitos humanos.
As palavras podem ser contemporâneas, porém os sentidos são arcaicos
e improdutivos, se considerarmos com seriedade as estratégicas
para a “recuperação” dos apenados.
Com perspicácia,
Maria Nazareth Hassen identifica a ineficiência não só do trabalho
dentro da prisão, mas a própria pena de privação da liberdade
como instrumento de “recuperação” do criminoso. “...Como preparar
para a vida livre mantendo preso? É como preparar um atleta para
uma corrida deitando-o numa cama.” Contudo, a pesquisadora reconhece
que o desafio de encontrar uma alternativa melhor do que a vingança
e a exploração dos infratores consiste em um desafio da sociedade,
que molda o Estado e sua instituições de acordo com sua imagem
e semelhança.
“O
trabalho e os dias - ensaio antropológicosobre trabalho,
crime e prisão”
Maria
deNazareth Agra Hassen,
246 pp. TomoEditorial/Ventura Livros,
R$ 22
|
|