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América
Latina, de novo, na instabilidade
O programa
neoliberal agravou ainda mais os problemas históricos do
continente, como mostra a crise que derrubou o presidente do equador
Jamil Mahuad
Luiz
Carlos Barbosa
Estava
anunciada a queda do presidente do Equador Jamil Mahuad. Dos 17
meses que governou, nos últimos 15 a instabilidade cresceu paulatinamente
até o dia 21 de janeiro, quando indígenas e militares tomaram
o parlamento e o palácio do governo com apoio do movimento sindical.
O estopim foi a dolarização da economia anunciada dia 9 de janeiro.
Mas as causas da crise são muito mais remotas e transcendem o
próprio presidente. “O Equador vivia no limite, com greves gerais
que paralisavam o país como não se vê em lugar nenhum”, afirma
o professor de História da Ufrgs Paulo Vizentini, especialista
em relações internacionais e diretor do Instituto Latino- Americano
de Estudos Avançados (Ilea).
“Dois meses
depois da posse, o governo apresentou medidas econômicas contrárias
ao discurso de campanha e a população imediatamente se mobilizou
em uma crise quase insurreicional”, lembra Vizentini. Uma greve
geral, em 16 de março de 1999, transformou a capital, Quito,
em praça de guerra, enquanto pesquisas mostravam que 87% da população
já estava descontente. O erro de Mahuad foi repetir o que se tornou
comum no continente. “A eleição de líderes populistas com propostas
sociais e depois uma administração rigorosamente de acordo com
o consenso de Washington, que leva à ingovernabilidade”, explica.
Esta instabilidade logo repercute nos quartéis. “Os militares
são afetados pela política neoliberal de desmontagem do Estado”,
ensina o professor, alertando que não se trata apenas de uma conduta
corporativa, mas de uma perspectiva política dos quartéis que
conta com apoio popular, que é a concepção de soberania nacional.
O episódio
no Equador é mais um exemplo dos reveses do neoliberalismo no
continente, que se manifesta sob outras formas, menos violentas,
em países como Argentina, Uruguai, Chile e Venezuela. Afora os
períodos de ditadura militar, inspiradas no combate ao comunismo,
nunca a América Latina passou por um alinhamento político tão
hegemônico quanto nos anos 90. A doutrina neoliberal se impôs
não apenas no discurso e na ação da direita de sempre, mas também
entre a social democracia morena e mesmo em parte da esquerda,
neste território onde 33% da população de 230 milhões de habitantes
vivem abaixo da linha da pobreza.
Vizentini
entende que nos anos 90 ocorreu uma conversão da América Latina
ao neoliberalismo. Com a queda do muro de Berlim, a esquerda
se desarticulou sob o impacto da globalização. “Mesmo lideranças
expressivas abandonaram a esquerda ou admitiram premissas neoliberais
para buscar vitórias eleitorais”. O efeito foi oposto: derrota
dos sandinistas na Nicaraguá, desmontagem dos modelos desenvolvimentistas
mexicano e brasileiro, falência da Venezuela exportadora de petróleo
que tinha um governo social-democrata. Até mesmo o legendário
comandante Zero, Eden Pastora, que comandou a tomada da Câmara
dos Deputados em 1978 e derrubou o ditador Anastácio Somoza
da Nicaraguá, diz que pretende chegar à presidência e apresenta
uma plataforma neoliberal.
“Chegamos
a ter a conversão de governos”, diz o professor. É o caso do
Partido Revolucionário Institucional (PRI) do México – desde
1929 no poder – que trocou seu projeto social pelo neoliberalismo.
Seu candidato, o ex-secretário do Interior Francisco Labastida,
deverá se eleger presidente nas eleições de 2 de julho deste ano.
O Partido Revolucionário Democrático (PRD), de Cuauhtémoc Cárdenas,
à centro-esquerda, concorre sem qualquer chance.
Na metade
da década de 90, a América Latina retrocedeu em todos os indicadores
sociais: aumento do desemprego, queda nos índices de saúde e
de escolaridade, crescimento da violência e da instabilidade.
“Tudo isso fez a população opor um certo freio”, diz Vizentini.
Em 92, por exemplo, houve um plebiscito no Uruguai, onde a população
votou contra as privatizações. “O neoliberalimo não chegou a
se impor no Uruguai como nos outros países”, concorda o professor
de História da Ufrgs, o uruguaio Enrique Serra Padrós. O Uruguai
protagonizou uma das eleições mais disputadas do continente,
opondo uma alternativa ao neoliberalismo. A expectativa não se
confirmou, mas pela primeira vez na história do país um projeto
de esquerda ameaçou o revezamento, desde 1836, dos dois tradicionais
partidos de centro-direita, o Blanco (Nacional) e o Colorado.
Tabaré Vázquez,
59 anos, transformou a Frente Ampla unida ao Encontro Progressista
na segunda maior força política do Uruguai. No primeiro turno
da eleição presidencial, a coalização fez 38,51% dos votos contra
o segundo colocado, Jorge Batlle, 73 anos, que teve 31,32% dos
votos para o Partido Colorado do atual presidente Julio María
Sanguinetti. O jornalista escritor uruguaio Eduardo Galeano definiu
seu país como milhões de anarquistas conservadores que resistem
a mudanças, mas quando mudam é para valer. No segundo turno,
em 28 de novembro passado, Jorge Batlle venceu Tabaré Vázquez
com 51,59% a 44,07% dos votos, agregando o eleitorado do arquiinimigo
mas também conservador Partido Blanco. Mas se a direita se unificou
e obteve três quintos do Congresso, Frente Ampla aliada ao Encontro
Progressista se fortaleceu a ponto de influir no quórum para
a aprovação de emendas constituicionais. Com 10 senadores e
33 deputados colorados e sete senadores e 22 deputados blancos,
o governo terá de negociar com a frente de esquerda que ficou
com 12 senadores e 44 deputados, alcançando o status de maior
bancada. “O Uruguai já não é mais o país dos três terços”, resalta
Padrós.
Para Vizentini,
o refluxo do neoliberalismo demorou a se exprimir politicamente,
eleitoralmente. Mas agora vários indícios apontam que cada vez
mais países que compraram neoliberalismo com euforia estão querendo
devolver o embrulho. Apesar disso, com todos os recursos de
que dispõe, o capital internacional consegue sustentar que a
validade mercadoria ainda não venceu. O exemplo mais gritante
disso está na Argentina. A derrota Carlos Menen representa revés
importante para a política neoliberal do ponto de vista população.
Porém, a vitória Fernando de la Rúa não significa uma ruptura
com o modelo, mas a sua continuidade em outros parâmetros.
Vizentini
sustenta que a estratégia neoliberal apresenta três estágios.
O primeiro é eleger forças de centro-direita que apliquem o pacote
e se mantenham. “Isso aconteceu em praticamente toda a América
Latina na primeira metade da década e explica as reeleições
Menen, FHC, Fujimori e outros não tiveram cacife para tanto”,
diz. O segundo estágio, caso Argentina, seria a alternância política,
com a oposição assumindo sem mexer no projeto econômico.” Menen
não se reelegeu porque isso só seria possível mexendo no projeto
econômico e quando ele falou isso veio o sinal vermelho da comunidade
financeira internacional: ‘Chega de Menen’”, enfatiza. A terceira
etapa seria tornar os pacotes completamente irreversíveis, com
a criação de compromissos formais em âmbito internacional, como
a Alca. “Desta forma, os países ficariam amarrados por macropolíticas
econômicas”. O Mercosul é um exemplo modesto disto. Em nome desta
integração entre países periféricos, abre-se mão de medidas internas
necessárias às economias nacionais. “Na Alca seria muito pior,
pois é a integração com os grandes interesses dos EUA”.
Até mesmo
o Chile, que foi o pioneiro em aplicar o projeto neoliberal no
continente, a partir de 1973 com a ditadura Pinochet, deixa
de ser exemplo. O crescimento econômico do país está arrefecendo.
Em 1998 o PIB caiu pela metade, passando de 7% para 3,5%. Pesquisa
realizada em outubro de 1998, com 1.500 pessoas, mostra que a
primeira preocupação para 52% dos chilenos é o desemprego e a
segunda é a pobreza (44,3%), seguinda da insegurança (41,1%),
um termômetro do aumento de 30% nos assaltos a casas e roubo
nas ruas de Santiago.
Isso explica
que a coalização de centro-esquerda que governa o Chile desde
o fim da ditadura de Pinochet, em 1990, tenha disputado eleição
com o socialista Ricardo Lagos em detrimento do democrata-cristão
Andrés Zaldivar, que perdeu nas prévias. Apesar de carregar o
desgaste do governo Eduardo Frei, Lagos conseguiu derrotar o candidato
da direita Joaquín Lanvín. Mas tomou um susto no primeiro turno,
quando obteve apenas 30 mil votos a mais do que Lavín (47,96%
a 47,52%) e ganhou apertado em 17 de janeiro, com 51,32% dos votos
contra 48,68%. Em 1993, Eduardo Frei fez 58% do votos contra 34%
da direita. Lagos assume em 11 de março, mas terá dificuldade
para aprovar suas reformas. Tem maioria na Câmara, mas só um voto
a mais no Senado enquanto Pinochet não regressar ao país e reassumir
como senador.
Continua
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