|
Os otários
necessários
Gosto
de repetir a frase de um personagem do John Le Carré que diz que
ama a hipocrisia porque é o mais próximo que o homem jamais chegará
da virtude. Não é a frase de um moralista desencantado, que odiaria
qualquer substituto da virtude, ou de um cético terminal, que
não amaria a virtude nem fantasiada. É a frase de quem acha que
moral de mentira é melhor do que moral nenhuma. Que concorda
que, se Deus não existe, tudo é permitido – para citar outro personagem
literário – mas acrescenta: inclusive viver como se Deus existisse.
O Nelson Rodrigues atualizou a frase do Dostoievski, e no meio
de uma suruba federal (acho que a peça é do tempo em que o Rio
ainda era a capital do Brasil, uma capital da qual ninguém fugia
nos fins de semana) um dos seus personagens grita “se Vinicius
de Moraes existe, tudo é permitido!”. Mas nem a ausência de Deus
ou a doce devassidão dos poetas vence a necessidade de fingir
que vivemos num universo moral, portanto de sermos hipócritas
praticantes.
A frase sobre
o amor à hipocrisia poderia ser de qualquer brasileiro decidido
a resistir à desesperança e ao cinismo, por mais que o provoquem.
Não somos otários, como pensam. Somos hipócritas. Isto é, otários
conscientes, otários assumidos, otários porque o contrário seria
sucumbir ao amoralismo dos outros. Otários porque alguém neste
país tem que fingir que é virtuoso. Para que a hipocrisia funcione
e nos salve do caos é preciso que a maioria faça seu papel: de
otários.
Nenhum brasileiro
tem dúvidas de que é logrado em tudo, e não só no balcão da farmácia.
A política que lhe vendem há anos também é para otários. Essa
elite é essa elite porque há anos logra os otários, ela não existiria
se os otários não estivessem compenetrados no seu papel. Aqui
ninguém é otário por ingenuidade, é tudo simulação, tudo estratégia.
São os otários que sustentam a República. No Brasil, a hipocrisia
é uma forma de patriotismo.
|