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Universo,
teu nome é padaria
Elisa
Lucinda
Outra
vez sete de setembro. E o dias passavam iguais na adolescência
de Serpentina. Era absolutamente apaixonada pelas coisas novas.
Tanto o novo de novidade quanto o novo que intervinha na ordem
de igualdade das fileiras dos dias. Aquele quartel de hora cheio
de colégio de irmãs, dogmas dos pecados dos cotidianos. Goiabeiras
vermelhamente semelhantes.
Amou portanto
um líquido novo preto amarronzado que lhe escorria das garrafas
goela adentro, infância afora: Pepsi-Cola, Tv e Pepsi. Quanta
delícia contemporânea! Mas neste sete de setembro o novo era morte.
Nem a morte exatamente, mas a cena. O cenário. Serpentina gostava
especialmente do que mudava. Do que vorazmente se intrometesse
num modo habitual de transformando-o em.
Serpentina:
expressivos olhos enormes naquele magro corpo se metamorfoseando
para peitos e quadris de moça. E a avó morria-lhe ali. Naquele
feriado cívico. Morava na casa, mãe da mãe. Tinha função de poder
e repressão mas fazia cozidos como ninguém. Morria e a neta observava
com excitação, quase alegria, a troca da mesa de centro pelo caixão,
das jarras pelos castiçais funéreos, do sorriso materno pelo desespero.
Sentia tudo: o cheiro de café para amargar de propósito a boca,
a euforia dos vizinhos pelo luto acumulado, ai como era nova aquela
manhã ensolarada para Serpentina!
Naquela época,
o pai num furor edipiano e no perigo de vê-la crescer, exercia-lhe
a tirania de não deixá-la sair. Ser moça. Do mundo. Nem para ir
à venda do Seu Zé Carolino. Pois que ninguém como Serpentina para
subverter a ordem: ia pela manhã comprar farinha, voltava tarde
sem a farinha e sem o troco. Por cima dos farelos, mentiras mandiocantes.
Neste dia de sentimento, o poder atordoou-se, e num descuido como
ela parecia a mais tranqüila dos netos, ouviu apenas a voz rouca
do pai: - “Serpentina, vá comprar pão.” Tal ordem entrou-lhe no
peito como luz de sol primeira depois de enchente. – “Sim, papai.”
Saiu-lhe quase muda essa obediência querida, prazeirosa. Não era
o cumprimento de uma ordem. Era um desejo! Um enorme desejo que
a faria correr ao quarto, vestir o tubinho listrado de cenoura
e branco, onde a mão da mãe, num de seus últimos cursinhos de
pintura, pintara margaridas brancas, com folhas verdes assanhadas,
que nem primavera de gente nova. Lá estava , virgem ainda, o bendito
tubinho. Primeiro depositou-o sobre a cama como se fosse mirra.
Depois vestiu
com graça e calor um soutien cor de rosa mocinha, cuja alça deixaria
cair sem querer e aparecer suntuosa ao lado da manga cavada do
vestido... só pra que as amigas notassem: tinha crescido; lá estavam
eles, redondos e gulosos a furar a popelina da vaidade. Cresciam.
Coisa contínua. Quase progresso. E agora, as amigas. Sim! Porque
antes do pão visitaria as amigas. Lacrimejaria os olhos para dar
a notícia da morte da avó. Depois o pão. Tinha no entanto, uma
certa culpa da ausência de dor formal, falta de escândalos e lágrimas.
Então tentava concentrar-se nisto. Mas tudo era tão novo, o fato,
trazia-lhe tanta inquietude sapeca que não havia jeito de face
e de alma aonde pudesse morar a dor. Estava feliz. Nem o almoço
seria o meio dia em ponto. O enterro seria às 16 horas. E até
então era a defunta quem fazia almoço. Pensou no cozido; quase
chorou.
Tubinho já
no corpo. O espelho mostrava-lhe linda. Só que a porta onde era
o espelho não parava nunca de mover-se. Parecia variar-se ao soluço
da mãe na sala. Coitada, como deve ser ruim enterrar a mãe. A
gente deve se sentir sem mundo quase. Olhou para o fantasma dos
vestidos da morta no cabide. Teve medo de si. De sua vaidade.
Remorso de sua alegria. Arrependimento de sua beleza. Sabia que
o juízo final não ia lhe ser fácil. Moleza luciferiana do espelho
e foi em busca do pão com as moedas lacradas em punho como quem
parte: Universo, teu nome é padaria! Descia as ladeiras quase
saltitante. O sol de setembro dourava-lhe o moreno negro da pele
nova das pernas raspadas sem a mãe saber. Chorou nos ombros das
amigas íntimas e das colegas menos íntimas nos quais chorou mais
ainda. Os sinos anunciam agora. Tocam dobrando tudo: Meio-dia.
O bairro chora. A avó era escorpiana beata militante. Guerrilheira
de Deus. Seguia à frente na procissão com sua fita de Congregação
Mariano. Azul. Azuleza, de lembrança. A igreja anuncia. O sino
fecha o parêntese de Serpentina. Volta para casa com pães amassados
nas mãos.
Há velório
na sala. Os olhos rendidos do pai feroz e sábio. O desespero acalmado,
sedado da mãe. A tristeza órfã dos irmãos. A cor lutuosa dos vizinhos.
As conversas rezadas baixinho. Tudo era igualmente novo. E parado.
Os pães, só os pães quentinhos do sovaco de Serpentina. Depositou-os
sobre a mesa, mas a vida havia morrido, parado. A família pontuou
bem pontuada sua história ali, ali. A avó era morrida no meio
da sala. E os olhos de Serpentina estão sorrindo nesse tentador
parágrafo. E que era sete de setembro... mas ela não marcharia.
elisalucinda@radnet.com.br
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