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Arte
de sublime utilidade pública (II)
Elisa
Lucinda
Na
Escola Lucinda de Poesia Viva, onde se ensina a falar poesia sem
ser chato, há três anos oferecemos, gratuitamente,
recitais pela cidade, pelo país e assistimos ao alvoroço
do público lotando livrarias e teatros, só para
ver a poesia de Manoel de Barros, Drummond, Bandeira, Adélia,
Quintana, Marta Medeiros, Cecília, Vinícius e tantos
outros, no centro do palco. No recital que fizemos sobre Fernando
Pessoa no consulado português, havia um ilustre expectador,
José Saramago; que segundo suas próprias palavras,
saiu dali com a alma a cantar.
Ainda no quesito utilidade, não podemos esquecer a importância
fundamental da poesia da música popular brasileira na formação
sócio-político-cultural desse país, principalmente
a partir dos anos 60. Ora, foi através da voz poética
e iluminada de compositores como Caetano Veloso, Chico Buarque,
Gilberto Gil, Tom Zé, só para citar alguns, que
se pode criar uma cidadania possível sob os escuros anos
da ditadura. Foi aquela poesia cantada que norteou nosso sonho
e garantiu, muitas vezes a preço altíssimo, nossa
liberdade física e criativa.
Há uma outra estória muito ilustrativa de uma aluna
minha, uma senhora de 77 anos que perdera o neto de 10 anos. Ela
me contou que durante muito tempo teve que encostar sua dor de
avó para dar suporte emocional à filha, mãe
do menino. Bem, para encurtar o assunto, o remédio que
iniciou o período de conforto e equilíbrio da família
com a triste realidade, foi o poema de Carlos Drummond de Andrade
chamado "Ausência". Em seus versos o poeta mineiro
diferencia a ausência da falta e prova que a ausência
é na verdade uma intensa presença ausente.
Na verdade, entre suas infinitas funções, a poesia
revela dons, inspira e produz leitores a cada dia. Diante dos
inúmeros depoimentos e experiências que tenho por
este mundo afora, de platéias repetentes e inéditas,
de pessoas que dão seu testemunho visceral do quanto a
poesia transforma e transformou suas vidas, estou segura de que
a poesia é revolucionária e diferente do que afirma
o infeliz aposto do meu colega Sérgio Rodrigues, a poesia
é arte de sublime utilidade. Talvez valesse a pena marcar
um verdadeiro encontro com ela. Dou uma dica: ela continua no
centro do palco.
elisalucinda@radnet.com.br
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