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Denúncias sussurradas
Nei
Lisboa
Ao
final do primeiro ano de gestão do governo Olívio,
fui convidado a participar de uma insólita reunião
onde virtualmente todas as áreas da esfera da Secretaria
da Cultura estavam representadas por funcionários, artistas
ou intelectuais ligados de alguma forma à administração.
Queixavam-se, os que lá trabalhavam, da estrutura de poder
autoritária com que eram obrigados a conviver e que os
havia impedido de discutir o problema dentro do ambiente da SEDAC.
O acesso e o encaminhamento de seus projetos ao então secretário
Pilla Vares, diziam, lhes era barrado e ao mesmo tempo políticas
que julgavam equivocadas lhes eram impostas de dentro do próprio
comando do órgão.
Afora um documento
destinado à circulação interna no governo,
a reunião não produziu nenhum resultado prático.
A administração não se sensibilizou e os
descontentamentos foram arquivados, até porque entre militantes,
simpatizantes e a torcida organizada há sempre um cuidado
especial em não municiar a direita em anos de eleição.
Passada a dita, já no final do ano passado, o assunto ressurgiu
de forma pública ao anunciar-se a substituição
de Pilla por Luiz Marques, o algoz de toda aquela reclamatória.
Houve uma certa grita geral, é verdade, mas imbuída
da mesma discrição militante. O assunto se arrastou
por alguns meses e o resultado que se viu impressionou pela firmeza
ou pela surdez com que o governo não se moveu um milímetro
da decisão.
Trago esse
assunto à baila, curiosamente, motivado por um episódio
da área da cultura no âmbito municipal: a carta aberta
de Nora Prado questionando o processo de seleção
e a curadoria do Porto Alegre Em Cena. Tal como no caso da SEDAC,
há anos circulam queixas, queixumes e resmungos variados
sobre o trabalho de Luciano Alabarse na SMC, mas quase nunca são
trazidos à público para serem discutidos - ponto
para a Nora, então. Não é possível
que se conviva com esse tipo de silêncio, com denúncias
sussurradas, entre muitas outras coisas por respeito ao direito
de defesa dos envolvidos.
A por vezes
compreensível tese do "não é hora para
fazer marolas", ou "vamos dar um crédito a esse
primeiro ano da gestão", pode também servir
de ótima deixa para práticas personalistas, intransigências,
apego a cargos e a verbas públicas. Pode convir, ainda,
aos que fazem da política um jogo de cochichos, intrigas
e chá com biscoitos. E pode produzir o fenômeno pouco
transparente e participativo de, entre anos eleitorais e de início
de gestão, no estado e no município, calar a boca
de um cidadão para todo o sempre.
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