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Campanhas
Luis
Fernando Verissimo

O racionamento de energia trará um grande desafio para
o pessoal de marquetchim do governo, mas não será
nada que eles não possam enfrentar. Como se recorda, a
última realização do departamento de RP do
Planalto foi a criação de uma secretaria para combater
a corrupção, de grande atuação na
investigação de todos os escândalos recentes
- sob a liderança da inesquecível, inesquecível...
Enfim, da inesquecível. O fato de não se ouvir mais
falar no nome dela (era Djalmira?) é uma prova do sucesso
da iniciativa, pois não há mais escândalos
para investigar.
Dizem que já existe uma campanha publicitária pronta
para ser lançada em substituição ao "Avança,
Brasil". Se chamará "Espera um pouco, Brasil".
Ou, para dar um tom mais coloquial, "Peraí, gente".
Como um exemplo do que a população não deve
fazer, para conservar energia, a campanha começará
com uma retrospectiva de tudo que o governo não fez no
setor, nestes anos todos. A inércia govenamental deverá
inspirar o público a também adiar o que tem que
fazer para mais tarde, se chover. Cenas de máquinas paradas
em todo o território nacional terão um acompanhamento
musical não de um samba, mas de uma marcha lenta tocada
em serrote. O fato de o presidente da República ter sido
surpreendido pela crise energética será usado de
maneira positiva. Parece que ele concordou em participar de cenas
em que aparecerá distraído, não ouvindo o
que lhe dizem e não lendo relatórios que lhe trazem,
e que terminarão com a frase: "Faça como ele:
desligue-se!"
O objetivo da campanha é desanimar as pessoas, sem que
isto, no entanto, as desiluda por completo. É importante
manter vivo o orgulho de ser brasileiro, mesmo parados. Por isso
também está nos planos de RP enaltecer o que fazemos,
hoje, melhor do que qualquer um. É a única área
em que nos destacamos internacionalmente, ainda mais agora que
nosso futebol está até ameaçado de não
ir à Copa. Somos os melhores devedores da Terra. Pagamos
nossas dívidas como ninguém, somos admirados por
credores e banqueiros do mundo todo. E mantemos nosso prestígio
mesmo que não sobre dinheiro para mais nada - uma clara
evidência de que ser bom devedor é uma vocação
nacional, está no sangue do brasileiro, não pode
ser explicado racionalmente. E, é claro, ninguém
consegue imitar os nossos juros, que também assombram o
mundo. Grandes devedores. Quem pode pedir um epitáfio melhor?
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